'Policiais antifascismo' defendem que segurança não é pauta exclusiva da direita

Grupo não quer que trabalho da polícia seja confundido com ações de bandidos

Policiais Antifascismo engrossam protesto no Rio de Janeiro pela educação e contra o governo Bolsonaro
Policiais Antifascismo engrossam protesto no Rio de Janeiro pela educação e contra o governo Bolsonaro - Júlia Barbon - 30.mai.2019/Folhapress
Paula Sperb Thiago Amâncio
Porto Alegre e São Paulo

Em um momento em que o presidente da República quer mais garantias para policiais que matam em serviço e o governador do Rio de Janeiro comemorou a morte de um sequestrador desarmado, a reação contrária a essa postura ganha uma força inesperada: as próprias polícias. 

O movimento “Policiais Antifascismo” reivindica que segurança pública não deve ser pauta exclusiva da direita. Eles são policiais civis, federais, rodoviários, bombeiros e, para a surpresa dos próprios fundadores, militares, que defendem temas caros à esquerda, como direitos humanos e legalização das drogas. 

“Achávamos que íamos encontrar dificuldades nas organizações militares. Mas existem muitos PMs dentro do armário, que são do campo progressista”, afirma um dos fundadores do grupo, Denilson Campos Neves, 21 de seus 50 anos como investigador da Polícia Civil da Bahia.

A ideia surgiu em 2016 e o grupo já tem uma base organizada em oito estados (AL, BA, ES, PE, PR, RJ, RN e SP) e está se organizando em outros 13. Eles só não têm presença significativa em AC, MT, PI, PB, RO e RR. Estima-se entre 800 e 1.000 integrantes ativos no país —ainda uma pequena parcela em relação ao tamanho das polícias. 

Para o membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Marcos Rolim, a iniciativa é relevante porque tenta recuperar a confiança especialmente em comunidades periféricas, onde costumam ocorrer abusos policiais. Sem confiança, não há informação e a polícia se torna ineficiente, explica. “A violência é uma manifestação de incompetência. Policiais profissionalizados não são violentos e sabem o limite da atuação, não querem ser confundidos com bandidos”, explica Rolim.

Ele diz, por exemplo, que no caso do sequestro do ônibus no Rio de Janeiro, a polícia agiu corretamente. O errado foi a comemoração da morte do sequestrador por parte do governador Wilson Witzel (PSC), em sua avaliação.

A opinião é compartilhada pelo gaúcho Leonel Radde, 38, policial civil, do grupo Policiais Antifascismo. “A ação do sniper foi correta. Está dentro dos padrões da legalidade do uso da força. O erro é a comemoração”, diz. 

Com mestrado em direitos humanos, Radde já precisou que atirar em criminosos durante operações. Nem por isso passou a defender abusos. Alguns de seus vídeos viralizaram na internet, um deles constrangendo um integrante do MBL que costumava intimidar estudantes. 

Radde passou a integrar o grupo antifascismo depois que teve problemas por manifestar suas opiniões contra o governo gaúcho, que vem parcelando o salário dos policiais desde 2015. Chegou a concorrer a vereador pelo PT para ter o direito de falar abertamente. 

“Hoje defender direitos passou a ser pauta de esquerda, para você ver em que nível chegamos”, afirma o delegado Orlando Zaccone, da Polícia Civil do Rio de Janeiro.

O grupo não é ligado a nenhum partido político, mas muitos de seus membros o são. Zaccone, por exemplo, foi candidato na última eleição pelo PSOL. Há gente também do PSB e PDT. A livre filiação é, aliás, uma das bandeiras do grupo progressista.

Apesar da identificação mais à esquerda, também criticam o campo ideológico. “A esquerda tem preconceito com o trabalhador policial, considera um subcidadão incapaz de formular ou propor qualquer debate da segurança pública”, diz Neves, que acha que os mandatos do PT no governo federal ou no governo da Bahia (de onde ele é) não alteraram de forma significativa a política de segurança.

Fazer com que o policial se reconheça como um trabalhador é uma das principais pautas do grupo. 

“Os policiais muitas vezes são chamados para reprimir movimentos dos quais eles seriam beneficiados. O STF proíbe que se faça greve, a Polícia Militar proíbe a sindicalização. Isso faz com que os policiais se tornem subcidadãos, despidos de direitos básicos”, afirma Zaccone. 

Também há resistência dentro das polícias, já que a categoria aderiu fortemente às bandeiras de Bolsonaro.

Em maio deste ano, ocorreu o 1º Congresso Nacional dos Policiais Antifascismo, em Pernambuco. O segundo congresso será nos dias 17 e 18 de outubro, no Rio de Janeiro. A ideia é fazer dois por ano, um ao norte e outro ao sul do país. 

O grupo também criou um programa semanal na internet para espalhar suas demandas, o Patrulha Antifascista, transmitido às 20h todas as quintas-feiras. 

O movimento não encontra semelhanças em outros países, “pela realidade brasileira”, diz Zaccone. “O movimento aqui tem uma urgência porque falamos de violações de direitos básicos. É completamente normal um policial LGBT ir fardado a uma passeata em Los Angeles, por exemplo, algo impensável aqui.”

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