'Se cubanos fossem bons, teriam salvado a vida de Chávez', diz Bolsonaro ao lançar novo Mais Médicos

Presidente afirmou que presença de cubanos no Brasil era plano do PT para instaurar guerrilha

Presidente Jair Bolsonaro com a mão sobre queixo
Presidente Jair Bolsonaro em lançamento do programa Médicos pelo Brasil - Pedro Ladeira/Folhapress
Talita Fernandes Natália Cancian
Brasília

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) voltou a desqualificar o programa Mais Médicos, afirmando que a presença dos médicos cubanos era um plano do PT para formação de uma guerrilha no território brasileiro.

A declaração, sem provas nem detalhes, foi feita em discurso durante o lançamento do Médicos pelo Brasil, que substitui o programa lançado sob Dilma Rousseff (2011-2016), nesta quinta (1). Durante mais de 13 minutos de declarações, o presidente pouco abordou o novo projeto, preferindo criticar o anterior.

“A ideia era formar um núcleo de guerrilha no Brasil. Quando eu falava isso, era ridicularizado”, afirmou, entre ironias. 

"Se os cubanos fossem tão bons assim, teriam salvado a vida de Hugo Chávez, não deu certo", disse, aludindo ao fato de que o presidente venezuelano morreu em decorrência de um câncer na pelve em 2013 após ser submetido a um longo tratamento e a cirurgias em Cuba, para onde viajou de forma recorrente em seus últimos anos.

A afirmação de Bolsonaro sobre guerrilha, que ecoa declarações suas durante a campanha presidencial, não encontra corroboração factual.

Mais Médicos foi criado em 2013, por meio de um convênio com a Organização Pan-Americana de Saúde, ligada à Organização Mundial da Saúde, e trouxe profissionais cubanos para suprir a falta de interessados em vagas no interior do país. Entre brasileiros e cubanos, o programa chegou a preencher mais de 18 mil postos em 2016.

O novo programa anunciado pelo Ministério da Saúde, com participação restrita a médicos brasileiros e estrangeiros com diploma revalidado, cria um novo critério para distribuição de vagas entre os municípios e novas regras para seleção dos profissionais. O valor pago aos médicos deverá variar de R$ 12 mil a R$ 31 mil, conforme a etapa de atuação e progressão na carreira, a qual deverá ocorrer a cada três anos. 

Como adiantado pela Folha, estão previstas 18 mil vagas. Destas, 13 mil devem ser em municípios avaliados como de difícil provimento. A previsão é que elas sejam ofertadas gradualmente, conforme o encerramento de contratos do Mais Médicos. 

Ao questionar os objetivos do programa do PT, Bolsonaro disse que, sob Dilma, a preocupação não era com a saúde dos brasileiros, mas com ideologia, e que não se respeitava os direitos humanos porque cubanos seriam impedidos de trazerem seus familiares para o Brasil -- seu ver, uma questão humanitária "estuprada pelo PT". 

A Medida Provisória que deu origem ao Mais Médicos, contudo, não proibia os médicos estrangeiros de trazerem seus dependentes para o Brasil.

Para além das declarações falsas, o tom de denúncia de desrespeito aos direitos humanos reflete uma mudança de posicionamento do presidente.

Em discurso feito no plenário da Câmara em 8 de agosto de 2013, ele criticou o direito de médicos estrangeiros trazerem familiares.

"Prestem atenção! Está na medida provisória: cada médico cubano pode trazer todos os seus dependentes. E a gente sabe um pouquinho como funciona a ditadura castrista. Então, cada médico vai trazer 10, 20, 30 agentes para cá. Podemos ter, a exemplo da Venezuela, 70 mil cubanos aqui dentro", disse à época. 

Ainda naquele ano, Bolsonaro chegou a apresentar uma emenda, assinada também por seu filho Eduardo, deputado federal, para impedir que dependentes dos médicos estrangeiros pudessem exercer atividade remunerada no Brasil. 

Nesta quinta, o presidente também celebrou o impeachment de Dilma e sua eleição. “Graças a Deus veio o impeachment. Graças a Deus eu sobrevivi. Graças a Deus vocês me deram essa missão e nós todos os dias temos boa notícia”, afirmou, elogiando indicadores econômicos como o corte de 0,5 ponto percentual na taxa Selic, anunciado na quarta (31) pelo Banco Central.​

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