Vírus do sarampo que aflige SP é mutação do que gerou surto anterior

Explosão de casos, à beira de mil no estado, pode ser explicada por falha em aplicar nova dose

Gabriel Alves Patrícia Pasquini
São Paulo

O surto de sarampo que assusta São Paulo e acumula quase mil casos registrados pode ser explicado por mutações no vírus que circula na cidade, diz Edison Luiz Durigon, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e um dos virologistas mais respeitados do país.

O surto anterior da doença, que chegou a ser considerada erradicada no Brasil na década passada, ocorreu em 1999. A versão atual, porém, é outra.

Ainda assim, a vacina protege contra esse tipo do vírus do sarampo, o D-8. O problema é que a quantidade de anticorpos no organismo de quem tomou imunização (feita com o vírus do tipo A) despenca após 15 anos da aplicação. 

Por isso, quem nunca foi imunizado ou tomou a injeção há muito tempo deve ser vacinado. A OMS estima que de 2000 a 2017 tenham sido evitadas 21 milhões de mortes por sarampo graças à vacina. 

Com a quantidade de anticorpos gerada por uma vacina tomada recentemente, o corpo consegue neutralizar os vírus dos diversos tipos (8 ao todo, de A a H) e subtipos (24, distribuídos entre os tipos). 

Em geral as pessoas tomam a primeira dose da imunização no primeiro ano de vida, mas o reforço às vezes é deixado de lado, o que explica o foco das campanhas em adolescentes e adultos jovens.

Com poucos anticorpos no organismo, o vírus consegue se replicar, e algumas dessas pessoas desenvolvem a doença. Em outros casos, mesmo que não haja sintomas, as pessoas passam a funcionar como fábricas móveis de vírus e a espalhá-los por meio da respiração, tosse e espirro. 

Pessoas que viveram a década de 1970 provavelmente já tiveram contato com o vírus selvagem (a vacina usa a versão atenuada). Nesse caso, a memória imunológica é mais forte e tende a manter a pessoa saudável.

A estratégia empregada para controlar o atual surto é adequada, diz o virologista. Como em 1999, passaram a ser imunizados bebês a partir dos 6 meses de vida. Seria importante prever reforços aos 15 e aos 30 anos de idade.

Durigon afirma que a explosão de casos no estado não era totalmente inesperada. 

Os vírus D-8 circulavam normalmente na Europa e começaram a pipocar há cerca de um ano na Venezuela e na região Norte do país. “Como eram poucos casos, achávamos que a doença estava se espalhando entre pessoas não vacinadas.”

Também houve casos em um navio que esteve no porto de Santos, em fevereiro. Logo depois, profissionais de saúde começaram a receber progressivamente mais casos.

Marilda Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratório e Sarampo da Fiocruz, referência nacional, diz que o vírus do sarampo é muito estável, ou seja, mesmo muito tempo depois da construção da vacina, ela ainda funciona contra novas versões.

Ela, que integra o comitê da ONU para classificar o vírus do sarampo, explica que as divisões em genótipos (de A a H) e subtipos dentro dos genótipos ajuda a descobrir o caminho que um vírus percorreu. 

“Houve o caso de um paciente que saiu da Malásia, foi até Frankfurt e depois veio até São Paulo. E o vírus que essa pessoa apresentava tinha características dos que circulavam na Malásia”, relata.

Saber que é o tipo D-8 que circula também pode ajudar a avaliar a estratégia de combate, diz a pesquisadora. 

“O governo faz campanha, os estados e municípios trabalham, fazem imunização de bloqueio, vão a escolas, shoppings. Depois, vê um caso aqui, outro ali. Foi tudo à toa? Testa. Se for um tipo diferente, é um novo surto; a estratégia anterior funcionou.” 

A variação genética entre os tipos é, em média, entre 5% e 7% no DNA viral. Por ora, as proteínas virais às quais os anticorpos produzidos pelo corpo humano se ligam continuam muito semelhantes entre si, mantendo a vacina eficaz.

É possível, contudo, que no futuro seja necessário produzir uma nova imunização contra o sarampo, diz Durigon.

Vacina emergencial reforça imunização obrigatória, mas não a substitui

Conforme se dissemina o vírus do sarampo, disseminam-se as dúvidas sobre a vacinação. A campanha em São Paulo terminará em 16 de agosto, na próxima semana.

Uma das razões do ruído são as diferenças entre a imunização feita na campanha ou em ações de bloqueio e aquela a que todas as crianças devem ser submetidas aos 12 meses e aos 15 meses de idade.

Importante: as doses da campanha e dos bloqueios não substituem as do calendário de imunização nacional, pois são um reforço pontual.

Segundo o diretor do Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Júlio Croda, a recomendação do Ministério da Saúde é que pessoas de 1 a 29 anos recebam duas doses da vacina com um componente do sarampo na vida. “Pode ser a dupla viral, que não é oferecida pelo SUS, a tríplice ou tetra”, diz. 

Quem tem entre 30 e 59 anos precisa tomar uma dose. Acima de 60 anos, ela é desnecessária. Em ações de bloqueio, entretanto, todos acima de 6 meses de idade devem ser imunizados novamente —contraindicações, porém, continuam a valer, como é o caso de gestantes, transplantados e pacientes de rádio e quimioterapia, além de portadores de HIV com CD4 abaixo de 200.

No município de São Paulo, há maior número de casos de pessoas de 15 a 29 anos e entre bebês de seis meses a 11 meses e 29 dias, alvos da campanha. 

Quem precisa de duas doses e ainda não se vacinou deve tomá-las num intervalo de 30 dias. O infectologista do Hospital Emílio Ribas, Jean Gorinchtey, ressalta que a vacina é segura e não há problema em tomar dose a mais. 

“Onde há circulação do vírus de sarampo, crianças entre seis meses e 11 meses e 29 dias devem ser imunizadas. Quando completarem 12 meses e 15 meses deverão ser vacinadas novamente. Até nove meses, a criança permanece com os anticorpos que recebe da mãe. Se a mulher não estiver devidamente protegida, torna-se um risco para o bebê.”

Outro alerta é em relação a mulheres em idade fértil que foram vacinadas. Este público deve aguardar um mês para engravidar.  “Como a vacina é feita com vírus enfraquecido, pessoas com imunodeficiência ou que usem medicações que baixam a imunidade não podem tomar vacina. Com o organismo fraco, há risco de desenvolver a doença, o que pode levar a má formação do feto.”

De acordo com balanço divulgado pela Secretaria Estadual da Saúde, até 31 de julho foram registrados 967 casos de sarampo no estado de São Paulo. O número saltou 53% em relação à semana anterior, quando havia 633 registros.

A capital paulista tem hoje 778 notificações de sarampo. Na semana anterior, a cidade tinha 484 casos da doença, o que significa um aumento de 60,74% em sete dias.

O Ministério da Saúde também alerta quem vai viajar com crianças de 6 meses a 11 meses e 29 dias para municípios em situação de surto para que vacinem os pequenos ao menos 15 dias antes da data prevista para a viagem. 

Hoje, 43 cidades em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia veem crescer o número de casos confirmados da doença.


TIRE DÚVIDAS SOBRE O SARAMPO

O que é sarampo? É uma doença infecciosa aguda transmitida por um vírus, caracterizada por manchas na pele. Estava erradicada no Brasil e voltou porque as pessoas deixaram de se vacinar.

Como é transmitido? A transmissão acontece pela saliva, carregada pelo ar (quando a pessoa tosse, fala ou espirra). Ou seja, é altamente contagiosa.

Quais os sintomas? Febre alta (acima de 38,5°C), manchas vermelhas na cabeça e no corpo, tosse, dor de cabeça, coriza e conjuntivite.

Sarampo pode matar? Sim. É uma doença que traz complicações graves, inclusive neurológicas, e pode levar à morte. Também pode deixar sequelas como a surdez.

Como é o tratamento? O doente é isolado e apenas os sintomas são tratados. Por isso, a vacinação é a ferramenta mais eficaz no combate à doença.

O que fazer em caso de suspeita? Encaminhar o paciente a um serviço de saúde, que por sua vez notificará a vigilância epidemiológica para que esta vacine quem teve contato com o doente.

Quem deve se vacinar?  Bebês de 6 meses a 11 meses e 29 dias devem tomar a dose da campanha e as duas do calendário nacional de imunização, aos 12 meses e 15 meses; crianças e jovens de até 29 anos precisam ter tomado duas doses da vacina —quem tem de 30 a 59 anos, apenas uma dose. A maioria das pessoas com mais de 60 anos não precisa da vacina, pois já teve contato com o vírus. Na dúvida sobre ter ou não tomado a vacina na infância, é melhor tomá-la agora. Não é preciso levar a carteirinha de vacinação.

Onde é feita a vacinação?  Em postos de saúde e, durante a campanha, em pontos anunciados pelo governo, como estações do metrô.

Quais as reações à vacina?  Febre e dor no local da injeção, com possível inchaço. Não há reações neurológicas. A vacina NÃO causa autismo.

Quem não pode se vacinar?  Gestantes, transplantados, quem faz quimioterapia e radioterapia, ou usa corticoides ou tem HIV com CD4 menor que 200. Alérgicos a ovo e lactantes podem tomar a vacina.

Por quanto tempo a vacina vale? Para quem completou as duas doses (ou uma dose até 1989), vale pela vida toda.

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