Witzel questiona autoria de desenhos das crianças da Maré entregues à Justiça

Governador diz que vai avaliar se as gravuras foram feitas pelas crianças

Ana Luiza Albuquerque
Rio de Janeiro

O governador Wilson Witzel (PSC) voltou a questionar nesta sexta-feira (16) a autenticidade das cartas escritas pelas crianças do Complexo da Maré, entregues ao Tribunal de Justiça do Estado na segunda-feira (12).

"Nós vamos avaliar se aquelas gravuras realmente foram feitas por crianças. Até porque quem conhece e estuda o crime organizado, como eu conheço, sabe que o crime organizado é capaz de tudo", disse.

Na quarta-feira (14), o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Cláudio de Mello Tavares, já havia questionado se as cartas foram, de fato, escritas pelas crianças.

"O juiz da causa tem que analisar se aquelas cartas realmente foram feitas pelas crianças, se não foram encomendadas, se não há algo por trás disso, se realmente é a sociedade da Maré que está clamando para que isso pare, para que essa violência pare", afirmou a jornalistas.

Em nota, a ONG Redes da Maré, que coordenou a ação, disse que o governador mostrou mais uma vez nesta sexta-feira o seu "total desrespeito" pelos moradores das favelas. 

"Em especial às crianças, quando afirma de forma leviana que as cartas onde elas falam da violência que vivenciam diariamente são o fruto da manipulação dos grupos criminosos", escreveu o grupo. "Suas declarações chocam pela agressividade, irresponsabilidade e total falta de preparo para o cargo que exerce."

As 1.500 cartas foram enviadas na segunda-feira (12), com o objetivo de restabelecer uma Ação Civil Pública suspensa em junho, que regulamenta as operações policiais na Maré.

Na quarta (14), uma liminar expedida pela 2ª Câmara Cível determinou que os protocolos voltarão a valer. Entre eles a presença de ambulâncias durante as operações, o cumprimento de mandados de busca e apreensão apenas durante o dia e a instalação gradual de equipamentos de vídeo, áudio e GPS nas viaturas da polícia.

A Folha esteve na comunidade nesta quinta-feira (15) e conversou com sete crianças, de nove a 12 anos, que escreveram algumas das cartas. Elas afirmaram que têm medo de morrer e disseram que pediram ao juiz para que os helicópteros parem de dar tiros do alto.

Nesta sexta (16), Witzel também voltou a defender o uso dos helicópteros nas operações. "O desespero desses criminosos é porque, de helicóptero, chegamos rapidamente onde estão estocadas drogas e armas. Os helicópteros devem e podem ser utilizados", disse.

*'CADÁVERES NÃO ESTÃO NO MEU COLO'*

Na última semana, seis jovens morreram vítimas da violência no estado. Witzel afirmou nesta sexta-feira que a culpa das mortes violentas é dos "pseudodefensores dos direitos humanos".

"Pessoas que se dizem defensoras dos direitos humanos, pseudodefensores dos direitos humanos não querem que a polícia mate quem está de fuzil, mas aí quem morre são os inocentes. Esses cadáveres não estão no meu colo, estão no colo de vocês, que não deixam que as polícias façam o trabalho que tem que ser feito."

O número de mortos em ações policiais aumentou 15% no Rio na comparação entre os primeiros semestres de 2018 e 2019, segundo dados do ISP (Instituto de Segurança Pública).

Foram 881 mortes por agentes neste ano, contra 669 nos primeiros seis meses do ano passado. Já o número de homicídios caiu 23%, de 2.691 para 2.083.

No primeiro semestre deste ano, as mortes por intervenção policial corresponderam a 29% do total de casos de letalidade violenta, que reúne todos os índices criminais que resultaram em morte.

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