Bar Luiz anuncia que continua aberto, mas dona teme que clientela esmoreça

Após notícia de fechamento do clássico boteco carioca, filas passaram a se formar em frente ao lugar

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

O Bar Luiz disse ao povo que fica. 

Durou uma semana o fim deste que é um dos pontos de boemia mais clássicos do Rio de Janeiro, na ativa há 132 anos. 

No dia 7 de setembro, o boteco no centro carioca anunciou que fecharia as portas, atolado em dívidas. Neste sábado (14), as boas novas para boêmios locais foram postadas no perfil do bar no Facebook.

Uma bem-sucedida campanha pela continuidade do recanto etílico, #ficabarluiz, voltou a encher o número 39 da rua da Carioca.

O letreiro luminoso está quebrado (no "u" de Luiz), assim como as contas, mas o auxílio da chef Roberta Sudbrack ajudou com "dificuldades financeiras extremas".

Rosana Santos, proprietária do bar, conta à Folha que espera fechar a semana com 3.000 clientes, dez vezes mais do que a média normal, de 300. Chamou cinco ex-garçons e mais 14 homens da equipe de outro restaurante, o Otto, para dar conta do movimento excepcional.   

"Essa notícia causou a todos uma comoção tamanha que resultou numa linda corrente de solidariedade a favor da resistência e permanência do Bar Luiz", diz a mensagem que divulgou nas redes sociais a permanência do Luiz. A gratidão a Sudbrack veio após ela mobilizar na internet um movimento "convocando investidores, clientes, apaixonad@s pela gastronomia e história da cidade a agirem a favor do bar vindo aqui num ato de resistência e luta pela causa!".

Bar do Luiz, no centro do Rio, que estava ameaçado de fechamento
Bar do Luiz, no centro do Rio, que estava ameaçado de fechamento - Zo Guimaraes/Folhapress

Em 2018, Rosana já lamentava a situação paupérrima do Luiz, que penava não só com a crise, mas também com a criminalidade da região. Se eram 48 funcionários em 2008, a equipe se reduziu para 12. Hoje, quase um ano depois, são oito pessoas na folha de pagamento.

No ano passado, ela se dizia esperançosa. "Os clientes fiéis começaram a voltar", afirmou à reportagem. 
Mas só voltaram para valer depois que o bar disse que deixaria de atender. Na última semana, longas filas se formaram para conseguir lugar, e mesmo assim muita gente voltava para casa com a garganta seca, sem um dos chopes mais bem falados na cidade, e o estômago vazio, sem sinais da gastronomia alemã da casa.  

O estabelecimento começou em 1887, então num endereço próximo dali, e foi mudando de nome, CEP e donos ao longo dos anos. Na Segunda Guerra, veio a alcunha que dura até hoje. 

À época, ali era o Bar Adolph. Mas não pegava bem ter um bar xará do ditador Adolf Hitler. 

O site do espaço conta melhor esta história: "Alunos do Colégio Pedro II em campanha contra os regimes fascistas da Europa invadiram o bar com o intuito de destruí-lo. A casa foi salva pelo compositor de 'Aquarela do Brasil', Ary Barroso, que lá se encontrava tomando um chope". 

Desfeito o mal entendido, os estudantes partiram "para apedrejar outro estabelecimento nas redondezas".  Em seguida, veio a decisão de trocar o nome para Bar Luiz.

Segundo sua dona, a dívida ainda não será paga na totalidade, "só a parte do que devo aos funcionários" (o que conseguirá fazer com o faturamento dos últimos dias). Conta que, nos próximos dias, ouvirá "pessoas que querem conversar sobre propostas". 

Rosana, que cuida do Luiz desde a morte do dono anterior, seu marido, em 1994, prefere não falar nos valores pendentes. 

E confessa temer que o entusiasmo dos clientes que retornaram tenha tanta sustância quanto espuma de chope. "Fico apreensiva, mas estou enfatizando que, sem eles, o bar não tem condições de se sustentar."

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