Ceará tem 35 ataques a ônibus e prédios públicos em cinco dias

Coletivos e veículos foram incendiados; governo atribui ações a regras mais rígidas nos presídios

Fortaleza

O Ceará voltou a ser alvo de ataques criminosos oito meses depois da onda que resultou em mais de 280 ações e que fez agentes da Força Nacional de Segurança serem deslocados para o estado.

Desde a noite de sexta-feira (20), ao menos 35 ataques foram cometidos contra ônibus, carros em concessionárias, caminhões, prédios públicos e privados e torre de telefonia. Eles ocorreram na capital, na região metropolitana e no interior. 

Até a conclusão desta reportagem, 28 pessoas haviam sido detidas, e outros quatro adolescentes apreendidos, sob suspeita de participação nos ataques. Um dos suspeitos deu entrada em hospital com 70 por cento do corpo queimado após tentativa de queimar dois ônibus na cidade de Canindé, a 120 km de Fortaleza.

Ônibus incendiado no Conjunto Alameda das Palmeiras, em Fortaleza, nesta segunda-feira (23)
Ônibus incendiado no Conjunto Alameda das Palmeiras, em Fortaleza, nesta segunda-feira (23) - Paulo Sadat - 23.set.2019/Diário do Nordeste/Folhapress

Na última ação, na tarde desta terça-feira (24), um carro de entrega dos Correios foi queimado em Fortaleza. Dez cidades, incluindo a capital, sofreram ataques. A frota de ônibus continua reduzida em 30% no início da noite desta terça, vários pontos e terminais estão cheios. 

Pela manhã, uma concessionária teve carros incendiados em um bairro rico de Fortaleza, e ao menos 16 veículos acabaram atingidos. O alvo é diferente daquele das ações de janeiro, que se concentraram, na maioria, no interior e em regiões periféricas da capital.

Pelo menos dez ônibus e micro-ônibus foram incendiados em todo o estado desde sexta (20). Devido aos ataques, parte da frota dos coletivos ficou nas garagens nesta terça, e parte da que está em circulação, em linhas consideradas mais perigosas, está sendo escoltada por policiais. 

Pela manhã, havia filas e espera em todos os terminais da capital cearense. Alguns ônibus encostavam vazios, mas precisavam aguardar a chegada de carro de polícia para fazer a escolta. Outros ônibus chegavam ao terminal e aos pontos cheios e não paravam para o embarque de novos passageiros.

A Secretaria de Segurança e Defesa Social solicitou que policiais militares de férias ou de folga se apresentem para ajudar no patrulhamento das ruas.

São alvos de ataques também caminhões de lixo e carros de concessionárias de energia e água e esgoto.

O governo do Ceará atribui o movimento a membros de facções criminosas por motivo semelhante ao de janeiro: o endurecimento de regras em unidades prisionais.

"O governo tem agido dentro e fora das prisões cearenses, cortando comunicação, isolando e transferindo chefes criminosos, punindo de forma rigorosa atos de indisciplina e acabando com todo e qualquer tipo de regalia nos presídios. Não haverá volta de regalias", disse o governador Camilo Santana (PT) em rede social. 

Um arquivo de áudio vazado do Secretário de Administração Penitenciária, Luís Mauro Albuquerque Araújo, atribui os ataques a uma das três facções que atua com mais força no Ceará, a GDE (Guardiões do Estado). A inteligência da polícia, entretanto, ainda apura se há, como em janeiro, uma coalizão de forças entre a GDE, o PCC e o Comando Vermelho para os novos ataques.

Nesta terça, a SAP (Secretaria de Administração Penitenciária) anunciou a transferência de 257 presos ligados à GDE de presídios de Pacatuba, Quixadá e Aquiraz, no interior.

"Isolamos os internos pertencentes a esse grupo. Com esse controle, nós criamos o ambiente seguro e impossibilitamos qualquer comunicação com o mundo externo”, disse Albuquerque. 

Segundo fontes do governo estadual, foi encontrado com presos bilhete com um "salve" (como são conhecidos os recados de líderes das facções a seus membros) para que os ataques ocorressem em "comércios, shoppings, postos de gasolina, supermercados e concessionárias". Há preocupação de que, desta vez, prédios privados, com maior circulação de pessoas, sejam alvos preferenciais.

Ao assumir o segundo mandato, em janeiro, Camilo Santana criou a Secretaria de Administração Penitenciária justamente para endurecer as regras nas unidades prisionais. O governador identificou que boa parte da violência do estado tinha como fator regalias que alguns presos tinham nas unidades e a facilidade de contato com o exterior. 

Alguns lideres de facções, após os ataques do começo deste ano, foram transferidos para presídios federais. Uma tentativa de fuga, registrada há algumas semanas, pode ter sido o estopim da nova onda, já que após isso houve endurecimento de algumas unidades para coibir novas tentativas.

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