Em São Paulo, 14% das ações do Gate envolvem casos de 'suicídio por policiais'

Pouco conhecidos no Brasil, incidentes envolvem pessoas que usam policiais para se matarem; sequestro do Rio pode se encaixar em perfil

São Paulo e Rio de Janeiro

As características do sequestro do ônibus na ponte Rio-Niterói, que terminou com a morte do sequestrador no último dia 20, encaixam-se em um tipo de intervenção policial pouco conhecida e estudada no Brasil, mas que em São Paulo atinge 14% das ocorrências atendidas pela Polícia Militar: o “suicide by cop”.

Os “suicídios por policiais” (tradução livre) são casos de potenciais suicidas que, por motivos diversos, decidem provocar situações de confronto com policiais para serem mortos. “A pessoa não tem coragem de atentar contra a própria vida e provoca uma situação com a polícia”, disse o major Valmor Saraiva Racorti.

Racorti é comandante do Batalhão de Operações Especiais da PM de São Paulo e responsável por um estudo que analisou todos os 22 casos atendidos pelo Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) em 2018, e identificou entre eles três situações de “suicídio por policiais”, o que representa os 14% do total.

Em geral, as ocorrências envolvem dois tipos de pessoas: primeiro, egressas do sistema prisional que, ao serem encurralados em nova ação criminosa, preferem morrer a voltar à prisão. O outro tipo é o de pessoas com pensamento suicidas, não necessariamente com antecedentes criminais, que decidem se matar usando a polícia.

O sequestrador de um ônibus com 39 pessoas no último dia 20, momentos antes de ser morto por policiais militares - Ricardo CASSIANO / AGENCIA O DIA / AFP)

Algumas atitudes também são comuns em alguns pontos 1) o suspeito aponta a arma constantemente para os policiais; 2) provoca os agentes com xingamentos, ofensas e gestos; 3) chega a disparar ou lançar objetos contra as forças de segurança; e 4) expõe o corpo propositalmente para ser atingindo por disparos.

“Muitas vezes tem uma ocorrência de refém, na verdade, ele não quer pegar a pessoa como refém. Ele quer provocar o ‘suicídio por policial’. Em 2015, nós tivemos uma ocorrência em Guarulhos, que era a avó dele [sequestrador]. A gente percebia pelos gestos, pelo carinho com que ele tratava a mulher, que ele gostava da avó. 'Vou matar minha avó, vocês terão de matar', ele dizia”, disse o major.

Para chegar a esse perfilamento, o major da PM paulista também analisou estudos internacionais sobre o assunto, nos EUA e países da Europa, que apontam uma incidência de 17% a 25% de casos de “suicídio por policiais” do total de intervenções realizadas por forças de segurança.

Os estudos realizados pela polícia estão sendo aprofundados e, acredita-se, pode superar os 20 casos em dez anos atendidos pelo grupo tático. “Nós começamos a estudar algumas ocorrências antigas, e percebemos que não é tão incomum assim. [...] A gente só não falava [o termo ‘suicídio por policiais'], mas isso já existia no país”, disse o oficial.

 
Homem ameaça se matar sobre viaduto da rodovia Imigrantes, em São Paulo
Homem ameaça se matar sobre viaduto da rodovia Imigrantes, em São Paulo - Divulgação/PM

Esses estudos serão compartilhados entre a tropa, incluindo o policial de ponta, o primeiro a chegar ao local. “Nós estamos produzindo conhecimento afim que seja divulgado tanto para o primeiro interventor, do 190, quanto para a nossa chegada. Para buscarmos uma solução aceitável, que é a preservação da vida dele.”

“A gente está procurando escrever, simular, treinar, ter um plano de contingência, não só para o especializado Gate, mas para toda a Polícia Militar de São Paulo, que acaba sendo pioneira nesse tipo de caso, até pelo número de casos que ocorre aqui, e passar para o resto do país com nosso cursos que tem no Gate”

Um dos objetivos dos treinamentos é, segundo o policial, evitar que o sequestrador mate outras pessoas e, também, que se mate. “O objetivo é a preservação de vida de todos, mas vamos nos deparar com ocorrências que não tem o que fazer. A gente não vai conseguir porque quem vai definir é ele”, diz o PM.

Quanto ao sequestro do ônibus com 39 passageiros, cuja negociação da polícia se deu sobre a ponte Rio-Niterói, o sequestrador Willian Augusto da Silva, 20, teve atitudes que se encaixam nos quatro itens, além de, segundo a família, aparentar estar deprimido

Para Racorti, apenas a PM fluminense (Bope) poderá classificá-la corretamente, porque só ela tem elementos suficientes para poder definir o quadro. “Eu acho que carece de um estudo mais detalhado, eu não tenho a quantidade de informações necessárias para definir o caso. Mas, o Bope vai fazer esse estudo e pode chegar a essa conclusão, sim.”

Ainda de acordo com o major, a PM paulista fará uma simulação do incidente da ponte Rio-Niterói para treinamento de ação. Vão estudar qual seria a melhor decisão em situação semelhante, em ônibus com refém e combustível inflamável.

Reino Unido

O termo “suicide by cop” popularizou-se a partir de 2003, quando pela primeira vez na história um júri do Reino Unido usou a expressão para classificar uma morte.

Michael Malsbury, 62, foi morto por policiais depois de atacar sua mulher e se trancar em um quarto com uma pistola. Quando saiu do cômodo, avisou aos policiais: “Melhor pegar suas armas, estou saindo”, disse ele, segundo os registros.

Disparou um tiro contra os agentes e acabou morto por eles.

À época, a utilização do termo foi considerada controversa. A diretora do Inquest, um grupo de defesa dos direitos humanos, argumentou ao jornal inglês The Guardian: “Suicídio pela polícia pode ser um veredito usado pela polícia para deslocar a atenção da legalidade de suas ações”.

Em 2017, um artigo publicado na revista médica Current Psychiatry traçou o perfil das pessoas que cometem esse tipo de suicídio. Os pesquisadores chegaram à conclusão de que o ato é mais comum entre homens com doenças psiquiátricas, que fazem uso abuso de substâncias, que têm respostas disfuncionais ao estresse, que passaram por traumas ou que apresentam história anterior de tentativa de suicídio.

Um material produzido por um ex-agente do FBI e atualmente consultor de segurança, Clinton Van Zandt, ressalta 16 sinais que aparecem durante uma negociação com a polícia que mostram que o criminoso pode querer cometer suicídio por meio das forças de segurança.

Entre os sinais está ter matado momentos antes uma pessoa significante em sua vida, como o filho ou a mãe; ter descoberto recentemente alguma doença fatal; não apresentar aos policiais demandas que incluam sua liberdade; aparentar estar procurando uma forma viril de morrer; e ter uma ficha criminal que inclua comportamento violento no passado.

O psiquiatra Fábio Gomes, professor da Universidade Federal do Ceará, disse à reportagem que faltam informações para avaliar se Willian Augusto da Silva queria, de fato, se matar.

Ele também ressaltou que no Reino Unido existe um prontuário único para cada pessoa que mora no país, atualizado ao longo da vida, diferentemente do Brasil. Esse prontuário, segundo o psiquiatra, permite uma fundamentação mais sólida para definir se alguém buscou ser morto pela polícia.

“Eles [no Reino Unido] podem fazer uma autópsia psicológica bem clara. Não sei se [o 'suicide by cop'] é o caso do rapaz [Willian] porque no Brasil não temos, infelizmente, esse tipo de prontuário. Fazer uma afirmação dessas sem ter uma sólida base de dados... Acho isso uma temeridade”, disse.

O psiquiatra também afirmou que nem toda pessoa deprimida apresenta risco de se matar e que o “suicide by cop” é esporádico na literatura médica, o que dificulta a definição de um perfil daquele que pode cometer este tipo de ato.

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