Descrição de chapéu
Italo Nogueira

Governador que só pensa em morte reclama de política sobre caixão

Witzel faturou assassinato de sequestrador da ponte Rio-Niterói e se queixa de críticas a erros da polícia

Rio de Janeiro

Numa das cenas mais dantescas da nova política fluminense, o governador Wilson Witzel (PSC) olhou frio para a câmera e disse: “Não sai de fuzil na rua, não. Troca por uma Bíblia. Se você sair [com um fuzil], nós vamos te matar”.

Ele respondia uma pergunta simples e singela da entrevistadora Antônia Fontenelle, no estilo “pinga-fogo”: “Na lata, o que você tem a dizer na lata aos seus eleitores?”.

Esse costuma ser o momento em que políticos fazem discursos vagos, com uma mensagem de esperança no futuro. Witzel preferiu uma ameaça de morte.

Desde a campanha, o governador vem defendendo o que chama de abate de criminosos que portam fuzis. Para ele, o fato de estar com esse tipo de arma na mão já configura a iminente ameaça que isenta policiais de punição. Apresenta o tema como um debate original e quer ocupar o STF (Supremo Tribunal Federal) com a polêmica.

Trata-se de um juridiquês para uma falsa polêmica: é rara (quase nula) a punição de um policial que declara ter matado em confronto, principalmente quando apresenta um fuzil como a arma de seu oponente. Estudos apontam que mais de 90% desses casos tem como destino os arquivos da Justiça.

Especialistas apontam que o problema é justamente o contrário: a total falta de fiscalização no uso da força letal por parte das polícias.

O verniz jurídico, contudo, tenta esconder parte da política de segurança de Witzel: um estímulo à morte de criminosos. Foi ela que permitiu ao governador, um ex-juiz, defender os policiais que mataram 15 supostos bandidos no morro do Fallet antes que a Polícia Civil iniciasse o inquérito sobre o caso —ainda não concluído.

Os policiais têm cumprido a ordem de Witzel. Os homicídios provocados por policiais em supostos confrontos já somam 1.249 mortos neste ano até agosto, número que supera o total de todos os anos desde 2003, exceto 2018, cujo recorde de 1.534 sob intervenção federal deverá ser superado no primeiro ano de mandato do ex-juiz.

Na noite de sexta-feira (20), a ordem foi seguida mais uma vez. De acordo com a Polícia Militar, agentes que patrulhavam a favela da Fazendinha "foram atacados de várias localidades da comunidade de forma simultânea”. “Os policiais revidaram à agressão", diz o comunicado. 

Foi nesta ocorrência que a menina Agatha Félix, 8, foi atingida nas costas dentro de uma kombi, ao lado da mãe. As circunstâncias do homicídio deverão ser esclarecidas pela Divisão de Homicídios da Polícia Civil. 

Testemunhas negam a versão oficial e afirmam que não havia tiroteio no momento dos disparos feitos por policiais militares. Elas relatam que os agentes atiraram na direção de dois motociclistas que passaram em alta velocidade no local. Erraram o alvo e acertaram a estudante, declaram elas.

Havia confronto? Os motociclistas portavam fuzil? Caso a segunda resposta seja afirmativa, os policiais atenderam a um pedido do governador, erraram a execução, e mataram Ágatha.

“Não sai de fuzil na rua, não. Troca por uma Bíblia. Se você sair [com um fuzil], nós vamos te matar”, foi o recado do governador aos seus eleitores e policiais.

Witzel pediu paciência para que o assassinato seja esclarecido. Evitou responsabilizar os policiais e classificou como indecência aqueles que usam a morte para o debate público sobre sua política de segurança. 

Antes, ele e seus secretários discursaram por quase uma hora defendendo sua política de segurança numa entrevista coletiva que tinha como objetivo esclarecer as circunstâncias da morte de Ágatha.

"É indecente usar um caixão como palanque, especialmente de uma criança", afirmou ele. 

No mês passado, ele desembarcou na ponte Rio-Niterói comemorando a morte do sequestrador William Augusto da Silva sem que seu corpo houvesse sequer esfriado. Levava o secretário Cleiton Rodrigues (Governo) a tiracolo erguendo um pau de selfie para registrar as imagens, nunca divulgadas.

O governador que só pensa em morte se queixa da política sobre o caixão.

Wilson Witzel comemora morte de sequestrador de ônibus ao descer de helicóptero na ponte Rio-Niterói
Wilson Witzel comemora morte de sequestrador de ônibus ao descer de helicóptero na ponte Rio-Niterói - Antonio Lacerda - 20.ago.19/Efe
 

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