Metrô quer aposentar bilhetes de papel em São Paulo

Modalidade de pagamento tem 15% de adesão e é mais usada em estações turísticas

Fabrício Lobel
São Paulo

​Um bilhete de papel emitido em 1974, com o símbolo do Metrô de São Paulo e que dava o direito a apenas uma viagem. O pedaço de papel é hoje uma relíquia para colecionadores e pode custar até R$ 200 na internet. 

As versões atuais dos bilhetes, compradas em qualquer estação de metrô, saem por R$ 4,30. Mas podem, num futuro próximo, também se tornar peças de museu. Afinal, o Metrô de São Paulo planeja aposentar o modelo de pagamento de passagens por papel. 

A justificativa da companhia, vinculada ao governo João Doria (PSDB), é a de conferir maior comodidade aos passageiros, com compras de créditos, por exemplo, pelo celular. 

Mas por trás da mudança também está a tentativa de redução de custos operacionais que envolvem a compra, a distribuição e a venda do pedaço de papel.

 

Hoje os bilhetes são comprados da Casa da Moeda, no Rio de Janeiro (ao custo de R$ 3,4 milhões ao ano). O Metrô não revela detalhes da transação, mas cada remessa contém milhões de bilhetes e o transporte tem que ser segurado. 

Chegando em São Paulo, os bilhetes ficam estocados nas dependências do Metrô com vigilância constante e a abrigo de sol e chuva. Uma outra operação logística começa para distribuir os papéis nas mais de 80 estações da rede. O trabalho muitas vezes é feito com carro-forte ou garantido por apólices de seguro.

Outro custo associado aos bilhetes é a maior necessidade de manutenção das catracas. Com o tempo, o maquinário da catraca se desgasta, fiapos de papel se acumulam nele ou a tarja magnética presente nos bilhetes fica presa nos sensores. "Lembra quando a gente tinha que limpar o cabeçote do gravador ou de um videocassete?", compara o analista de sistemas do Metrô José Filardi Júnior. "É um sistema muito similar."

Filardi diz que manutenções preventivas são feitas constantemente pelo Metrô, mas que eventualmente uma das catracas quebra no meio da operação rotineira. "Isso traz implicações como a imagem que o passageiro tem do Metrô, ou o aumento da fila nos outros bloqueios e também o deslocamento da equipe de manutenção, que poderia estar fazendo outro serviço", afirma.

Entre as recentes medidas para aposentar o bilhete de papel está a aposta do Metrô e também da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) em implantar o sistema de emissão de QR Code (código gráfico)

O usuário pode, por meio de um aplicativo em seu celular, comprar créditos. Ele recebe um código visual que é lido por um sensor que libera a catraca. Outro meio de usar o código é comprando créditos em totens de autoatendimento que imprimem o QR Code.

Desde o início dos testes, no início desse mês, o horário foi ampliado e a avaliação do Metrô é de que, até agora, a adesão ao sistema é satisfatória e o funcionamento ocorreu sem incidentes. O modelo deverá ser levado também para as linhas 4-amarela e 5-lilás, que são concedidas à iniciativa privada, mas onde o Metrô ainda custeia a venda dos bilhetes.

Estações com teste de pagamento por QR Code

  • Metrô: São Judas (1-Azul), Paraíso (1-Azul e 2-Verde) e Pedro II (3-Vermelha). 
  • CPTM: Autódromo (9-Esmeralda), Tamanduateí (10-Turquesa), Dom Bosco (11-Coral) e Aeroporto-Guarulhos (13-Jade).

Outra tática que vem sendo testada pelo Metrô é fazer com que, em algumas catracas de certas estações, o bilhete de papel não seja aceito. Nessas estações, o passageiro com Bilhete Único tem mais agilidade no embarque. 

O teste já ocorreu, por exemplo, em bloqueios da estação Vila Mariana, da linhas 1-azul (o Metrô não revela outras estações em que implantou esse modelo de embarque). 

O Metrô também estuda o uso da tecnologia NFC, com isso bastaria aproximar um cartão de crédito ou débito da catraca para liberá-la; o desconto da tarifa seria feito automaticamente. O sistema já está em teste em 200 ônibus da prefeitura de São Paulo.

Mas, para sepultar de vez o uso dos bilhetes de papel, o Metrô deverá ainda ter de verificar a aceitação do público aos novos meios de pagamento. De maneira geral, cerca de 15% dos embarques no Metrô são pagos por bilhetes de papel.

 

Esse número varia bastante de uma estação para outra. A campeã no uso deste tipo de pagamento é a estação Armênia, na linha 1-azul, com 29% dos casos. O movimento desta estação é fortemente influenciado pela proximidade com o maior posto do Detran em São Paulo e com um terminal de ônibus que conecta a cidade com Guarulhos. 

As próximas da lista são a estação Tietê e a São Bento, ambas na linha 1-azul e com 27% dos pagamentos feitos em papel. Em comum, as duas estações e têm grande circulação de turistas por serem vizinhas, respectivamente, da Rodoviária do Tietê e da 25 de Março, importante centro comercial popular.

As estações atraem, portanto, um público pouco usual, como a dona de casa Silvia Nascimento, 56, que foi à 25 de Março com a família comprar itens para a casa. Moradora de Santo André, ela diz usar o Metrô duas ou três vezes ao ano. "Se acabar o bilhete de papel, vou ter que fazer um Bilhete Único", diz ela após pagar a tarifa. 

As estações com menor utilização dos bilhetes de papel estão nas pontas das linhas de metrô e onde existe grande movimento pendular, ou seja, viagens diárias da periferia para o centro. Nelas, prevalece com maior intensidade o uso do Bilhete Único ou do BOM (Bilhete de Ônibus Metropolitano). Por isso, Artur Alvim, na linha 3-vermelha, tem apenas 6% de suas viagens pagas com papel.

Estações com maior uso de bilhetes de papel:

Armênia (1-azul): 29,4%

Tietê  (1-azul): 26,9%

São Bento  (1-azul): 26,8%

Estações com menor uso de bilhetes de papel: 

Artur Alvim (3-vermelha): 6,1%

Itaquera (3-vermelha) : 6,7%

Vila Prudente (2-verde): 7% 

Os primeiros bilhetes emitidos pelo Metrô, em 1974 (ano do início da operação comercial), eram inseridos numa máquina perfuradora que ficava acima das catracas. Uma vez perfurado, o bilhete liberava a catraca e perdia validade. 

Pouco tempo depois, o bilhete ganharia uma tarja magnética que guardava os dados de quantas viagens o bilhete ainda restavam ao passageiro. Popularizaram-se os bilhetes múltiplos de 2, 10 ou 20 viagens.

A grande mudança para o uso dos bilhetes de papel veio a partir de 2005, quando o Bilhete Único, recém-criado pela Prefeitura de São Paulo, passou a ser aceito pelo metrô e trens de São Paulo. O passageiro passou a ter com o cartão de plástico a chance de armazenar muitos créditos e ter descontos na integração entre o sistema de ônibus e de trilhos. 

A medida inundou os metrôs e trens de passageiros e é lembrada até hoje como uma das principais mudanças na mobilidade paulistana nos últimos anos. Desde então, o uso do bilhete de papel vem caindo. ​

Logo em 2006, o Metrô extinguiu a venda dos bilhetes múltiplos. A companhia só deixou de aceitá-los, porém, no fim de 2017.

Como embarcar no Metrô hoje: 

Bilhete Único: feito para o sistema de ônibus da prefeitura de São Paulo, permite desconto na integração com trens e metrô

BOM (Bilhete de Ônibus Metropolitano): vinculado à rede de ônibus intermunicipais, permite embarque em alguns ônibus da Grande São Paulo, nos trens e no metrô

Cartão Fidelidade: Cartão exclusivo para sistema de trens e metrô; dá desconto nas passagens

Bilhete de papel: Desde 2017, só existe a modalidade unitária, ou seja, que permite apenas uma viagem

QR Code: sistema entrou em testes neste mês em cinco estações de trens e metrô; créditos podem ser comprados pelo celular nas estações

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