Descrição de chapéu Obituário Jorge Alberto Fonseca Caldeira (1927 - 2019)

Mortes: Médico oftalmologista, professor e dono de Chevrolet azul

Jorge Fonseca Caldeira realizou mais de 3.000 cirurgias de estrabismo e foi torcedor da Portuguesa

Jorge Caldeira
São Paulo

Menino ainda, tomava o bonde no alto da avenida Angélica para ir até a Santa Casa de Misericórdia. Às quatro da tarde, dividia o jantar com seu pai, o cirurgião Jorge dos Santos Caldeira —que fora professor auxiliar de Arnaldo Vieira de Carvalho. De volta para casa conferia as lições com sua mãe, Evelina da Fonseca Caldeira —professora na escola fundada por sua irmã, Ofélia Fonseca.

Filho único, seguiu a vocação do pai e entrou para a Faculdade de Medicina da USP em 1946. Em julho do mesmo ano, na praia do Gonzaga, Santos, em frente à rua Jorge Tibiriçá, foi apresentado a Carmen Pires do Rio, formada em História e Geografia pelo Sedes Sapientiae. O namoro começou logo em seguida. Ao longo dos seis anos seguintes, enquanto dividia sessões de cinema e leituras com a namorada, cometeu a proeza de ganhar o primeiro lugar em todos os anos do curso.

O médico oftalmologista Jorge Alberto Fonseca Caldeira
O médico oftalmologista Jorge Alberto Fonseca Caldeira - Arquivo pessoal

Em seguida à formatura, em janeiro de 1952, aconteceu o casamento. Pouco depois veio a notícia de que seu desempenho fizera merecer uma bolsa para residência na Johns Hopkins University, em Baltimore (EUA). Voltou de lá titulado e proprietário de um Chevrolet 1954 azul claro. Abriu um consultório e o primeiro cliente foi seu pai.

Com o carro fez sua rotina: manhã na Faculdade de Medicina da USP, mesmo depois da aposentadoria como professor titular de oftalmologia; uma passada no banco antes de almoçar em casa; ida ao consultório, para atender sete clientes diariamente —recusava-se a delegar qualquer ato, cuidando integralmente de seus pacientes sem qualquer espécie de auxiliar.

A variante mais importante acontecia nos domingos de jogo da Portuguesa, que assistia da arquibancada invariavelmente de terno e gravata.

A rotina ficou muito mais dura depois da morte de sua amada Carmen, em 1979, mas continuou. Ao longo da vida, realizou mais de 3.000 cirurgias de estrabismo e publicou mais de uma centena de trabalhos, a maioria no exterior.

Carmen e ele souberam criar um ambiente culturalmente rico para os filhos. Teresa Pires do Rio Caldeira é professora da Universidade da Califórnia em Berkeley (e foi editorialista da Folha); Jorge Caldeira é escritor (e foi editor da Ilustrada); Eduardo Pires do Rio Caldeira é empresário (e autor do romance Operação Trinidad); Marina Pires do Rio Caldeira é gerente de inovação na Faculdade de Medicina da USP (e foi a primeira titular da página de Saúde da Folha).

Morreu sábado (28), de problemas pulmonares. A missa de sétimo dia será no próximo sábado (5), às 12h15 na igreja de São Domingos (r. Caiubi, 164).

Deixa sete netos. Seu último cliente foi um deles, Júlio, atendido no leito de morte. Cumpriu sua vocação —e o Chevrolet está agora parado na garagem de sua casa.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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