Descrição de chapéu Rio de Janeiro

PM envolvido no caso Marielle confirma à PF propina a delegacia do Rio

Suspeito afirmou que levava dinheiro de suborno a policiais civis a mando do miliciano Orlando Curicica

Flávio Costa
São Paulo | UOL

O policial militar Rodrigo Jorge Ferreira afirmou em depoimento à Polícia Federal que levava dinheiro de suborno a policiais da Delegacia de Homicídios da Capital, no Rio, a mando do miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica.

A declaração de Ferreirinha, como é conhecido o PM, consta no inquérito da PF que concluiu que ele e sua advogada obstruíram a investigação do duplo assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e do motorista Anderson Gomes.

O depoimento endossa reportagem publicada pelo UOL em abril deste ano, que revelou que a PF encontrou provas de corrupção na Delegacia de Homicídios da Capital, órgão da Polícia Civil do Rio de Janeiro.

À PF, Ferreirinha confessou também que havia prestado falso testemunho ao incriminar Curicica  e o vereador Marcelo Sicilliano (PHS-RJ) como mandantes do atentado.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado da Polícia Civil do Rio de Janeiro não quis se pronunciar porque o caso Marielle "continua em sigilo".

'Curicica tinha contatos na DH'

Em 22 de fevereiro deste ano, uma sexta-feira, Ferreirinha prestou depoimento aos delegados federais Leandro Almada e Milton Neves, na sede da Superintendência da PF no Rio.

Quando decidiu incriminar Curicica e Sicilliano, o PM apresentou primeiro sua história inventada a outros três delegados federais, em maio do ano passado.

A certa altura do interrogatório, Almada questionou o motivo de Ferreirinha não ter procurado diretamente a DH, já que essa delegacia chefia a investigação sobre as mortes de Marielle e Anderson.

"Porque como eu relatei antes, quando o Ricardo era vivo, eu levava dinheiro lá [na DH]. Eu não me sentia seguro de ir lá", respondeu Ferrerinha.

O homem citado por Ferreirinha é o policial militar José Ricardo Silva, integrante da milícia de Curicica, segundo investigações da Polícia Civil. Ele e o ex-PM Rodrigo Severo Gonçalves foram assassinados em uma emboscada em um sítio em Guapimirim, em fevereiro do ano passado. Os corpos foram encontrados carbonizados em Brás de Pina, na zona norte do Rio. O MP-RJ denunciou Curicica como mandante deste crime.

O interrogatório continua:

Almada: O Ricardo era do grupo do Orlando?
Ferreirinha: Isso.
Almada: Então o senhor sabia que Orlando tinha contatos lá [na DH]?
Ferreirinha: Sim, senhor.

No depoimento à PF, Ferreirinha não revelou nomes dos policiais da DH que teriam recebido propina de Curicica.

Curicica denunciou corrupção na DH

Logo após Ferreirinha mentir que Curicica era um mandantes da morte de Marielle, o miliciano, que estava preso no Rio, foi transferido para o presídio federal de Mossoró (RN).

Lá, prestou depoimento ao MPF (Ministério Público Federal) no qual afirmou que o então delegado Giniton Lages tentou convencê-lo a assumir a morte de Marielle e revelou ainda um suposto esquema de corrupção na DH que barraria investigações sobre homicídios ligados ao jogo do bicho e às milícias. Lages negou a acusação.

O depoimento de Curicica foi a "peça-chave" para que a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, determinasse a entrada da PF no caso. Na última semana, o STJ determinou que Dodge tivesse acesso ao inquérito da PF.

Em sua confissão à PF, o PM Ferreirinha disse que mentiu para se livrar de Curicica, pois tinha medo de ser assassinado a mando do miliciano.

A investigação sobre as mortes de Marielle e Anderson continua na DH. O PM reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz foram presos em março sob acusação de terem executado o atentado. Ambos negam a acusação.

Até o momento, nem a investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro nem a da Polícia Civil apontaram os mandantes do duplo assassinato.

Ferrerinha foi preso em 31 de maio de 2019, em uma operação comandada justamente pela Polícia Civil para desmontar a milícia comandada por Curicica, na zona oeste do Rio. Procurado, o delegado da PF Leandro Almada não se pronunciou sobre o caso.

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