Ônibus voltam a circular após protesto de motoristas parar corredores em SP; haverá greve sexta

Ao menos 21 terminais foram travados na capital em manifestação contra redução de linhas

São Paulo

O sindicato que representa motoristas e cobradores dos grandes ônibus de São Paulo anunciou uma greve para esta sexta-feira (6). 

A Justiça determinou que o movimento mantenha 70% dos trabalhadores em horário de pico e 50% fora dele. A multa para o descumprimento é de R$ 100 mil. O Metrô e a CPTM  devem operar com capacidade máxima, para amenizar o impacto da paralisação. 

A prefeitura anunciou que o rodízio de veículos ficará suspenso durante todo o dia. Também será liberado o uso gratuito das vagas da Zona Azul. 

A paralisação ocorrerá desde as primeiras horas da madrugada e deve afetar mais de 4 milhões de passageiros que utilizam esse sistema. A prefeitura estima que o sistema de ônibus com veículos menores e que atuam na periferia deve continuar funcionando. É possível, portanto, que haja uma sobrecarga dos sistemas de metrô e trens de São Paulo para que a população consiga se locomover. 

Os trabalhadores temem que o corte de linhas e de frota de ônibus anunciado pela gestão Bruno Covas (PSDB) acarrete em demissões. Cerca de 450 veículos foram retirados do sistema de ônibus recentemente. Além disso, a categoria pede o pagamento do PLR (participação no lucro das empresas) que está atrasado. 

A greve foi decidida na tarde desta quinta-feira (5), após uma paralisação de surpresa que os motoristas e cobradores dos grandes ônibus fizeram na cidade. 

Protesto de motoristas e cobradores para corredores em avenidas centrais de SP, como a praça da República - João Wainer/Folhapress

Nesta quinta, estava previsto apenas um protesto da categoria em frente à prefeitura. Mas o movimento logo tomou cara de greve e motoristas estacionaram seus ônibus formando longas filas pela cidade. Alguns dos veículos estavam completamente vazios.

Os corredores de ônibus das avenidas 23 de Maio, 9 de Julho, Rio Branco e rua da Consolação ficaram travados. Por vezes os ônibus estavam estacionados em fila dupla, complicando ainda mais o trânsito. 

No meio da tarde, auge da crise, 23 dos 44 terminais da capital estavam bloqueados. A população, que não sabia antecipadamente da paralisação, estava no meio de seu trajeto, querendo retornar para casa. 

As auxiliares de enfermagem Laís Vieira, 25, e Priscila Vieira, 33, estavam juntas em um ônibus com destino ao Terminal Bandeira, no centro. Mas o cobrador alertou que estava tudo parado, Priscila pediu para descer e tentou buscar outro ônibus. Laís tentou acionar um aplicativo de carros, mas os preços, segundo ela, haviam disparado. 

Romilda Freitas da Silva, 70, estava num ônibus no centro da cidade a caminho de casa, em Itaquera (zona leste), quando percebeu que teria que descer do ônibus e pegar o metrô para seguir viagem. "Nem o motorista sabia o que estava acontecendo. Agora não sei como faz para chegar em casa, nunca fui de metrô."

Durante o apagão de ônibus, o Metrô e a CPTM tiveram que trabalhar com toda a equipe e frota disponível. As estações ficaram mais lotadas do que o costume. Por causa da superlotação no metrô, a Linha 4-Amarela fechou parcialmente a saída da estação Pinheiros, que desemboca no terminal de ônibus.

As ruas também ficaram lotadas. O rodízio teve de ser suspenso e, às 19h, a cidade tinha 130 km de congestionamentos (a média para o horário é de 106 km). 

Durante a tarde, o sindicato tentava ser recebido pela prefeitura. Representantes chegaram a falar com o secretário de mobilidade e transporte, Edson Caram, que disse que não poderia rever a política de redução de frota e se comprometeu a convencer as empresas a pagarem o PLR atrasado em até dez dias. 

As condições não foram aceitas pelos sindicalistas. Por volta das 17h30, diante da sede da prefeitura, o deputado federal Valdevan Noventa (PSC-SE), líder da categoria, anunciou aos sindicalistas que os trabalhadores voltariam ao trabalho naquela tarde, para que a população pudesse retornar para casa. Mas uma greve seria feita a partir das primeiras horas desta sexta. Manifestantes querem também voltar a estacionar os ônibus nas ruas da cidade, complicando o trânsito. 

Valdevan foi ovacionado pelos trabalhadores. Enquanto o deputado ainda falava no alto de um carro de som, sindicalistas ligavam para lideranças repassando a mensagem de que os ônibus poderiam voltar a circular na cidade, o que logo ocorreu.

Apesar dos terminais travados, Valmir da Paz, presidente em exercício do sindicato da categoria, disse que São Paulo passou nesta quinta apenas por um protesto que contou com cerca de 60% dos trabalhadores. Ele promete mobilização maior nesta sexta-feira. 

Até a noite desta quinta-feira (5), a gestão Bruno Covas disse que estudava como barrar a greve judicialmente. 

Protesto é reação à novo modelo de ônibus na cidade

O alvo do protesto dos sindicalistas é a gestão Bruno Covas (PSDB), que anunciou que vai cortar linhas e reduzir a frota de ônibus, o que alimenta temor de demissões. A preocupação com relação a mudanças estruturais no setor fez com que a adesão ao protesto desta quinta fosse maior que a verificada em ocasiões anteriores recentes.

A pressão dos trabalhadores ocorre enquanto a prefeitura tenta tirar do papel a licitação do novo sistema de ônibus da capital. O processo se arrasta desde 2013 e, no último mês, a gestão Covas sofreu uma derrota quando a Justiça decidiu que o prazo dos contratos, que chegaram a ser licitados, estava irregular. Na prática, São Paulo está desde 2013 sob contratos emergenciais. 

A discussão na Justiça é se os contratos devem ter 15 ou 20 anos. Uma lei municipal prevê 15 anos. Mas a Câmara Municipal, atendendo à pressão de empresários de ônibus, aumentou o prazo para 20 anos. A alteração foi feita pela emenda em um projeto de lei que versava sobre outro tema. Em primeira e segunda instância, a Justiça decidiu que a alteração era ilegal. A prefeitura tenta recorrer da decisão, mas já estuda fazer um simples recálculo do custo do contrato diante do novo prazo. 

Enquanto o caso corria, a prefeitura firmou um acordo com os donos de ônibus de São Paulo para que passassem a vigorar as regras dos contratos que já haviam sido licitados e que estavam travados na Justiça. O acordo só foi possível porque as antigas empresas do ramo são exatamente as mesmas que venceram os novos contratos na licitação

As novas regras dão conta de uma reorganização dos ônibus pela cidade, o que inclui o corte de linhas e frota de ônibus. A antiga frota da cidade tinha 13.600 veículos. Os novos contratos preveem 12.700. O sindicato dos motoristas e cobradores calcula que 450 ônibus já saíram de circulação. 

A prefeitura defende que um novo desenho de linhas na cidade é necessário para trazer mais eficiência e menor custo. O órgão diz ainda que, apesar do cortes de ônibus, aumentará a oferta de lugares disponíveis nos veículos. 

Em relação ao pagamento do PLR dos funcionários, as empresas de ônibus admitem o atraso. Ele dependeria da assinatura da convenção coletiva com a categoria, que está atrasada desde maio. As empresas argumentam que, sem um contrato de longo prazo com a prefeitura (os atuais emergenciais têm apenas seis meses de duração), não há garantias para o serviço na cidade e surgem dificuldades de caixa. 

A prefeitura, por sua vez, responsabiliza a Justiça, que barrou a licitação quando os contratos já estavam assinados. 

 ​​Colaboraram Renata Galf, Matheus Moreira e Karime Xavier

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