Reforma retira vermelho de ciclovia e surpreende usuários em SP

Ciclistas se deparam com sumiço de trechos que estão sendo revitalizados

Fabrício Lobel
São Paulo

Ciclovias na cidade de São Paulo têm desaparecido para, depois de dias, reaparecerem sem a já tradicional pintura vermelha, alvo de crítica em gestões anteriores da prefeitura. 

Segundo a gestão Bruno Covas (PSDB), o sumiço das ciclovias é só uma etapa da revitalização das vias na cidade, após três anos quase sem criação de novos trechos nem manutenção dos pontos existentes. 

Segundo a prefeitura, dez ciclovias passam por reformas (George Corbisier, Bosque da Saúde, Saúde e Aratãs, Jupatis, Corifeu de Azevedo Marques, Artur Azevedo, Gomes de Carvalho, Jaguaré e Parque Novo Mundo).

Nas áreas onde a intervenção já começou, é possível ver a nova cara que as ciclovias deverão ter em São Paulo. Sai o vermelho e entra um asfalto novo preto, apenas com uma faixa branca e vermelha na lateral. A prefeitura diz que a nova pintura é mais adequada ao que preconiza o Código Brasileiro de Trânsito. 

O vermelho no asfalto permanece apenas nos locais em que a atenção deve ser redobrada, como esquinas, pontos de ônibus e faixas de pedestre. Os tachões que dividem a área dedicada aos carros e aquela às bicicletas também mudaram. Com a reforma, ficam mais próximos, melhorando a segurança. 

Trecho da alameda Nothmann que, da noite para o dia, perdeu sua ciclovia; prefeitura diz que trechos passam por reforma
Trecho da alameda Nothmann que, da noite para o dia, perdeu sua ciclovia; prefeitura diz que trechos passam por reforma - Edgar Lopes/Folhapress

As reformas surgem às vésperas do anúncio do Plano Cicloviário de São Paulo, que deve ser lançado por Covas neste mês e projeta a construção de 173 novos quilômetros de vias, além da reforma de outros 310.

O plano retoma a construção de vias exclusivas para ciclistas. Em 2016, a cidade tinha 500 km de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas implantadas.  De lá para cá, a extensão aumentou em apenas 3 km.

O período de maior expansão da malha foi durante a gestão Fernando Haddad (PT), responsável por mais de 80% da rota existente.

Mas Haddad acabou citado em sete inquéritos e processos no Ministério Público pela falta de planejamento e mau uso de recursos na implantação das ciclovias. 

O ex-prefeito nega as acusações. Politicamente, o petista foi também acusado de usar as tintas vermelhas nas ciclovias como uma referência ao seu partido.

Hoje, nas reformas de ciclovia de Covas, o maior problema tem sido, porém, o sumiço súbito, sem aviso aos usuários. Na última segunda (9), a engenheira ambiental Cíntia Kita, 31, tentava avançar de bicicleta na contramão da rua Artur de Azevedo, em Pinheiros. Ela pedalava enquanto os carros vinham em sua direção. 

O caminho para o trabalho era o mesmo de todo dia. Mas nessa a ciclovia havia sumido. “Pensei logo que eles tinham tirado a ciclovia. Sem ciclovia, vou ter que aprender outro caminho ou me arriscar entre os carros”, disse ela. 

Na tarde de segunda, a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) colocou grandes cones para voltar a delimitar a área destinada aos ciclistas.

Outro trecho que sumiu foi na alameda Nothmann (centro), onde ciclistas também voltaram a disputar espaço com carros, ônibus e motos. 

"Quando tem ciclovia, já é uma confusão, porque nem todo mundo respeita. Sem ciclovia é pior, o carro vem em cima de você", relatou o entregador Luiz Eduardo Silva, 18.

Nada por ali lembra a existência de uma ciclovia. Num trecho de cerca de 1 km, com dez cruzamentos, há apenas duas faixas da CET dizendo: "Obra de requalificação de ciclovias. Motorista, cuidado com o cliclista. Ciclista, utilize rotas alternativas".

Ainda falta padronização nas intervenções que estão sendo feitas. Na avenida Antônio de Souza Noschese, na zona oeste, falta instalar os tachões. A faixa de tinta que delimita a ciclovia também está fora do padrão anunciado pela prefeitura, é amarela. 

Perto dali, na avenida Corifeu de Azevedo Marques, também estão faltando os tachões. As faixas vermelhas em pontos de atenção não foram feitas.

Daniel Guth, coordenador de projetos da Aliança Bike, diz que a intenção das reformas é boa, mas ele lamenta a falta de cuidado com as obras.

“A forma como têm sido tocadas não garante a segurança dos ciclistas no período em que acontecem. Você não pode assumir que os ciclistas vão sumir, eles continuam no trânsito, expostos a riscos”.

Guth sugere sinalização provisória, como numa ciclofaixa de lazer, com a colocação de cones e agentes da CET para orientar pontos de conflito.

"Se uma interdição inviabiliza o caminho dos carros, é logo feita uma rota alternativa, um desvio bem sinalizado. Com bicicletas isso não acontece", comenta. Para ele, o cenário é fruto da falta de prioridade dada ao ciclista na cidade.

Já o vermelho, para ele, se tornou dispensável. “Pintar de vermelho foi uma medida importante lá atrás, quando era preciso informar que a cidade tinha um novo espaço de uso exclusivo. Hoje, outros elementos são mais importantes do que a cor da ciclovia, como a qualidade dos tachões e a largura da via.”

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