'Tim Maia' de Taboão canta na avenida Paulista

Jonathan Neves, 30, sósia do cantor, faz sucesso há três meses na via mais famosa de SP

Ricardo Kotscho
São Paulo

“Eu preciso te encontrar/ Te encontrar de qualquer jeito/ Pra sentar e conversar/ Depois de andar de encontro ao vento”. 

“Quebra tudo, Tim Maia!”, grita o passageiro do ônibus parado na altura do número 2.073 da avenida Paulista, no Conjunto Nacional. No banco de trás, outro retruca: “Tim Maia já morreu!”.

Barrigão empinado para a frente, braços para o alto, na ginga do soul, Jonathan Neves, 30, nascido e criado em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, onde vive até hoje, não tem apenas o porte, a coreografia e os trejeitos mas também o vozeirão de Sebastião Rodrigues Maia, o Tim Maia, cantor, compositor, maestro e instrumentista que morreu em 1998, aos 55 anos.

Há três meses, o sósia perfeito de Tim Maia faz o maior sucesso na calçada em frente à Caixa, ao lado de uma banca de jornais, onde se apresenta nas tardes de sábado. Aos domingos, quando a avenida é fechada ao trânsito, ele monta o show “Tim Maia na avenida”, na esquina da rua Itapeva. 

Gente de todas as idades, gêneros e classes sociais acompanha o cantor, lendo as letras nos celulares, tirando selfies e fazendo vídeos para provar que “Tim Maia” está vivo. 

Também ele pendurou um celular ao lado do microfone para lembrar o repertório do criador do soul e do funk na música brasileira, e canta horas seguidas, com breves intervalos, enquanto tiver plateia, até o entardecer.

“Valeu, obrigado!”, agradece quando alguém pinga dinheiro na caixinha de madeira, mas não revela quanto ganha por dia. Não deve ser pouco. A cada música, pelo menos meia dúzia de pessoas contribui com pequenos valores. 

Desconfiado como o original, não quer contar qual é o seu peso, mas reconhece que está precisando fazer uma dieta, na breve conversa com a reportagem antes de começar seu espetáculo, às 14h em ponto. Só admite que está em torno dos 160 kg, passando a mão na barriga.

Filho de pai motorista de ônibus e mãe diarista, com ensino médio completo, Jonathan trabalhava como ajudante numa empresa de logística. Foi demitido em 2016 e resolveu cantar na avenida. 

“Já tinha ambição de ser cantor, mas só cantava em casa para os amigos. Antigamente, no começo, eu cantava músicas do Renato Russo e da Legião Urbana. Tenho facilidade para interpretar vozes...”

Por isso, de tanto o pessoal sugerir, ele resolveu incorporar Tim Maia em julho e passou a se destacar entre as centenas de cantores anônimos que invadem a avenida Paulista nos finais de semana numa alegre cacofonia musical.

Assistiu a alguns vídeos do carioca e ficou empolgado com um musical da Globo em que Tim Maia cantava “Azul da Cor do Mar”, acompanhado de grande orquestra. 

Para assumir o papel, nem precisou engordar. “Eu sempre tive esse porte avantajado...” Solteiro, sem filhos, logo criou uma pequena legião de fãs que adoram “esse Tim Maia igual ao outro” e começou a ser convidado para se apresentar em casas e empresas após colocar seu telefone (11-94046-4330) numa plaquinha pendurada no microfone.

Até agora, só se apresentou uma vez na televisão e não gostou. Não pretende voltar. “Desagradei”, ele diz, fazendo mistério. Nem se for convidado pela Globo? “Não”. 

Jonathan/Tim prefere continuar sua carreira de cantor de rua e de salão, “para dar conforto à família e investir nos equipamentos”. Fora da rua, seu sonho é se apresentar num grande teatro. Por enquanto, quem quiser ouvi-lo pode encontra-lo também no Facebook e no Instagram. 

Quem fecha os olhos na calçada da Paulista pode imaginar que “Tim Maia” é acompanhado por uma orquestra. O som é carregado em três malas e fica aos cuidados do técnico Ronaldo Ferreira, também professor de música –um multi-instrumentista, como está no seu cartão de visitas.  

Robusto como o chefe, Ferreira não para um minuto de operar ajustes nos aparelhos para não levar bronca do cantor, como o verdadeiro Tim Maia fazia nos seus shows, sempre reclamando do retorno e da equalização.

“Esse daí é até mais chato do que o outro”, brinca o parceiro inseparável de Jonathan. 

Aos poucos, vai juntando mais gente, que o aplaude nos breves intervalos, para tomar uma cervejinha no gargalo ou um energético. Catadores de latinhas param o serviço, casais se abraçam, patinetes fazem um pit-stop. Às 16h a calçada já está congestionada. 

Com problemas de coluna por causa do peso, o artista popular canta o tempo todo em pé e não tem nenhum banquinho para descansar.

“Faz de conta que ainda é cedo/ Tudo vai ficar por conta da emoção/ Faz de conta que ainda é cedo/ E deixa falar a voz do coração”. Na avenida Paulista, Tim Maia ainda vive.

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