Descrição de chapéu Rio de Janeiro

'Tiraram quase dois anos de mim', diz modelo que sustenta ter sido presa por cabelo afro e pele negra

Babiy, 21, ficou um ano e sete meses presa sob suspeita de pertencer a uma quadrilha de roubos em SP

A modelo Babiy Querino

A modelo Babiy Querino Gabriel Cabral/Folhapress

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

A história da modelo e dançarina Bárbara Querino de Oliveira, 21, a Babiy, poderia ser uma entre tantas outras: a jovem negra da periferia que acabou encarcerada por um crime que diz nunca ter cometido. Mas não.

Sua prisão fez barulho, e não foi pouco. Criada no Facebook após a viatura a levar, os agentes munidos de um mandado que a tachava de ladra, a página Todos por Babiy agrupa mais de 20 mil pessoas que acreditam em sua inocência. O perfil é reproduzido num clipe da funkeira MC Carol, “Marielle Franco”, que traz no refrão: “Mulheres pretas aqui não têm direitos”. 

Cria de Cidade Ademar (zona sul paulistana), Babiy não é nenhuma estranha a câmeras. É modelo há sete anos e já participou de vídeos de estrelas do funk, como MC Gui. Em novembro de 2017, contudo, tirou um retrato que jamais imaginou para si: fotografada de frente e de lado, com uma plaquinha com seu número de registro, para sua até então limpa ficha criminal.

Num vazamento ilegal criticado por sua defesa e de fonte desconhecida, as fotos foram parar na internet e também num programa policial da Band. Ela era descrita como membro de uma quadrilha por trás de roubos em São Paulo.

Naquele dia, ela estava na porta de casa. A aspirante a jornalista e psicóloga conta que tinha se arrumado para ir no cursinho pré-vestibular. Uma amiga a chamou para a padaria. “A gente foi comprar coisas pra mãe dela. Produtos de higiene, tipo sabonete, sabão em pó”, Babiy relembra.

Na volta, policiais já a aguardavam. “Encostou viatura, Rocam [ronda da PM com motocicletas], todo aquele esculacho que muita gente viu.”

Em janeiro de 2018, foi presa de vez. Primeiro, encaminhada ao 99º Distrito Policial. “Fiquei num curral. Eu não tava acreditando. Chorei a madrugada toda pensando no que podia acontecer.” A prima lhe trouxe “creme de cabelo, lanche pra eu comer, pente, escova, pasta”. Ela, como a própria Babiy, “só chorava”.

Tudo bem, pensou. Sairia logo. Era engano. Só podia ser. Mas só deixou o sistema prisional um ano e sete meses depois. Do que é acusada pela Justiça: junto com um primo e um irmão, ela teria cometido ao menos dois assaltos. Foi absolvida em um dos processos. No outro, como diz, “rodou”.

A modelo Babiy Querino
A modelo Babiy Querino - Gabriel Cabral/Folhapress

O que despertou tanta desconfiança no caso de Babiy: sua defesa apresentou três testemunhas dizendo que Bárbara estava com elas em Guarujá, inclusive o condutor do carro que a deixou no litoral paulista para um “job” (um trabalho como modelo). 

Várias fotos do evento foram compartilhadas no mesmo dia, em redes sociais. Uma delas, pela agência que a contratou: ela e outras meninas de biquíni, à beira da piscina. Tudo isso no mesmo 10 de setembro em que a ré supostamente roubou na capital paulista, ao lado de parentes, um Honda Civic branco e pertences das vítimas, como carteiras e bolsas da Gucci e da Prada, uma aliança de ouro da H. Stern e um óculos de sol da Chanel. A filha menor estava no banco traseiro quando o casal foi abordado a mão armada. O assalto ocorreu a quase 100 km de onde imagens mostram que estava.

Seu advogado, Flavio Campos, ataca a sentença do magistrado por vários ângulos. “Em primeiro lugar, aconteceu uma coisa raríssima em casos de roubo. Geralmente, as pessoas são presas em flagrante ou quando não têm nenhuma prova de álibi. Ela teve uma facilidade imensa em produzir provas porque estava no Guarujá com dezenas de pessoas, com fotos no Instagram e no Facebook.”

O juiz, contudo, “presumiu que as pessoas tivessem predisposição a mentir para favorecê-la”, diz à reportagem. Arroyo também teria concluído que “as postagens [em redes sociais] poderiam ser alteradas e não as encaminhou a nenhum perito”.

Campos diz que a defesa bancou do próprio bolso uma perícia, que atestou a veracidade dos posts. Anexou aos autos do processo: as imagens apresentadas mediante links de 10 de setembro de 2017 “demonstram que as mesmas correspondem a fontes originais, não manipuladas e indubitáveis, uma vez que o sistema de armazenamento de imagens das redes sociais como Facebook e Instagram são impossíveis de serem manipuladas”.

O juiz, em sua sentença, não considerou o laudo e afirmou sobre o álibi invocado: “O que se verifica também da prova documental é a mesma imprecisão, porque dela não se pode extrair qualquer dia e horário de postagem das mensagens juntadas, provenientes de mensageria de Bárbara, quando estivesse no município mencionado”.

O magistrado não a levou em conta e fincou pé na sua versão: Bárbara era uma criminosa, assim como irmão e primo. O problema, afirma Campos, é que “fizeram essa ideia de uma família do crime”. Os dois homens continuam presos. Segundo o advogado, o irmão da modelo “chegou a confessar os crimes, mas disse ‘roubei, sim, só que minha irmã e meu primo não têm nada a ver com isso”. Rodaram os três mesmo assim.

Babiy foi absolvida num dos processos porque nenhuma vítima a reconheceu, e olha que para esse dia ela nem tinha álibi, pois estava em casa. No segundo caso, contudo, um casal que teve o automóvel surrupiado a reconheceu como coautora do delito.

 

Mais isso meses depois do crime e, “mais um agravante”, num depoimento cheio de contradições, afirma o advogado. As vítimas, brancas, primeiro falavam em quatro homens, mudaram a versão algumas vezes e, “por fim, encerraram aquela balbúrdia dizendo que eram quatro rapazes e uma mulher”. Babiy teria sido apontada porque eles acharam que a cor da pele e o cabelo afro dela batiam com o da suposta bandida.

Há “presunção de que pessoas negras em contexto de periferia provavelmente podem ser enquadrada”, diz Campos. Babiy foi solta na semana passada, por bom comportamento. Na Justiça, ainda é ficha suja. Sua prisão era preventiva, já que o caso ainda está na segunda instância judicial, em fase de recursos.
Para seu advogado, ela cumpriu a sina de tantos detentos no Brasil, que ficam temporadas na cadeia sem que o julgamento tenha sido completo. “Apesar de ser modelo e estudante, o juiz a viu como um perigo para a sociedade.”

Questionado se o juiz gostaria de dar sua versão, o Tribunal de Justiça paulista disse que ele não falará, evocando o artigo 36 da Lei Orgânica da Magistratura, que veda: “Manifestar, por qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente de julgamento”.

A Secretaria de Segurança Pública se limitou a dizer que as investigações resultaram no “cumprimento ao mandado de prisão expedido no dia 13/12/2017”.

Mais velha de cinco irmãos, de quem ajudou a cuidar numa infância “bem punk” com pai ausente, Babiy diz que ela e o racismo se conhecem de longa data. Coisa de “em entrevista de emprego me chamarem de ‘neguinha’. Mexia sempre muito comigo. Já é racista ser aos olhos deles uma negra sem emprego fixo, que se dedica à dança”. 

O presídio? Não é nada disso que você está pensando, ela diz. “As meninas lá são nota dez. A gente se entendia muito melhor do que com a polícia. Era um companheirismo, sabe? Confesso que cheguei morrendo de medo, achava que se eu falasse um “a” elas iam querer me bater. Pelo contrário. Me ajudaram, me ensinaram: ‘Ó, pra sobreviver na cadeia tem que ser assim’.”

Um dia depois da primeira vez em que foi fichada, em 2017, Babiy fez Enem. Nunca chegou a ver o resultado. Agora, quer tentar de novo e entrar numa faculdade de jornalismo. Um projeto ela já tem: reunir num livro histórias de outras internas que viraram amigas.

Babiy nunca chegou a falar com o casal cujo relato a policiais a pôs atrás das grades. “Nunca vi nem o rosto. Foram quase dois anos que eles tiraram de mim. Se hoje eu ver esses dois, só ia falar que agradeço porque aprendi muita coisa. Vejo que tudo o que passei lá atrás valeu a pena. Cada ofensa que eu tive só me fez dar mais um passo.”

Agora é retomar a vida, diz. Dias atrás, dançou num evento no MIS (Museu da Imagem e do Som). Os “jobs” têm reaparecido, diz ela. Babiy se espanta com pequenas mudanças no cotidiano enquanto esteve detida. “Passagem de ônibus a R$ 4,30. Um absurdo!”, reclamou dia desses numa rede social. Quando foi presa, os paulistanos ainda reclamam que o transporte público tinha acabado de saltar para R$ 4.

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