Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Tiro foi de policial e poderia ter matado mais 2 crianças, diz motorista

Ágatha deixou batata frita no veículo, segundo advogado que acompanhou depoimento

Júlia Barbon
Rio de Janeiro

Ágatha Vitória Sales Félix, 8, entrou na kombi no ponto inicial, quando voltava de um passeio com sua mãe. Algumas paradas antes de sua casa, na Fazendinha, dentro do Complexo do Alemão (zona norte do Rio), como de costume, o veículo encostou num cruzamento para que a penúltima família desembarcasse.

Era noite de sexta-feira (20); a rua estava movimentada, mas não havia sinais de confronto ou violência. Caso contrário, ele não teria estacionado ali.

O casal e duas crianças desceram, deram a volta e abriram o porta-malas para tirar suas bolsas e mochilas. Só restaram Ágatha e a mãe no banco traseiro. O motorista também desembarcou e, no mesmo momento, viu uma moto com dois homens sem camiseta passando em alta velocidade.

Foi quando ele avistou um dos quatro policiais militares que estavam no local —dois de cada lado da rua—disparando dois tiros seguidos: pá, pá. Pensou que o agente havia atirado para cima, para intimidar, mas percebeu que esse não era o caso quando olhou para dentro da kombi e a mãe de Ágatha começou a gritar.

Perícia com a presença do proprietário na kombi onde estava a menina Ágatha, 8, que morreu após ser baleada no Rio de Janeiro
Perícia com a presença do proprietário na kombi onde estava a menina Ágatha, 8, que morreu após ser baleada no Rio de Janeiro - José Lucena/Futura Press/Folhapress

Entrou de volta no veículo e arrancou direto para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) da região. Antes, porém, passou em frente aos policiais e gritou que haviam atirado na menina. Eles recuaram e não ajudaram a socorrê-la.

Já na UPA, recebeu informação de que não havia estrutura para atender a garota. Dois outros policiais, solícitos e aparentando desespero, a colocaram dentro da viatura e a levaram até o hospital estadual Getúlio Vargas, na Penha, também na zona norte carioca.

Foi lá que a menina morreu, depois de passar por uma cirurgia de horas e perder um rim. Deixou na kombi um saquinho de batatinhas fritas do McDonald's.

Esse foi o depoimento que o motorista —cujo nome não foi divulgado por motivo de segurança— deu à polícia, segundo o advogado e membro da comissão de direitos humanos da OAB Rodrigo Mondego, que acompanhou o relato na Delegacia de Homicídios da capital fluminense na noite de sábado (21).

Muito abalado, o condutor chegou a passar mal nesta segunda (23). Diz que não quer mais dirigir e que está traumatizado, com muito medo. De acordo com ele, o tiro passou entre as outras duas crianças e o casal que estavam próximos ao porta-malas e, caso seja mesmo de fuzil, poderia tê-los atingido.

O motorista afirmou ainda, sempre segundo Mondego, que não saberia identificar o policial que disparou, mas que viu que foi apenas um. Ele não avistou armas nas mãos dos motociclistas em alta velocidade e frisou que, mesmo que os tiros tivessem atingido a dupla, seria "execução", porque não houve confronto.

"Mataram inocente. Não teve tiroteio nenhum, foi dois disparos que ele deu. Falou que foi tiroteio de todos os lados, é mentira! Mentira!", ele gritou emocionado diante das câmeras no último domingo (22), durante o enterro de Ágatha.

A versão da Polícia Militar é de que equipes da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Fazendinha, próximas às ruas Antônio Austragésilo e Nossa Senhora, foram atacadas de vários locais da comunidade de forma simultânea e que os policiais revidaram a agressão.

A kombi onde Ágatha foi baleada foi levada à delegacia na noite de sábado e passou por perícia também na manhã desta segunda. O dono do veículo, José Carlos Soares, 48, que não presenciou a ocorrência mas ajudou os peritos na análise, confirmou que não há marcas de tiro no porta-malas, porque ele estava aberto.

"No momento do disparo, tinha uma pessoa com o porta-malas aberto para pegar bagagem. Se estivesse fechado, a bala poderia ter desviado e ter tido outro rumo e, provavelmente, a criança não seria atingida", disse ele à imprensa ao sair da delegacia.

​A Polícia Civil também já ouviu o tio de Ágatha e outras testemunhas não divulgadas, incluindo policiais militares de alguma forma envolvidos no caso. A mãe ainda não foi à delegacia porque está muito abalada, e o motorista deve falar novamente nesta terça (24).

As armas dos PMs foram recolhidas para serem confrontadas com os fragmentos de projétil retirados do corpo da menina no hospital e no IML (Instituto Médico Legal), mas até a noite desta segunda ainda não haviam chegado ao ICCE (Instituto de Criminalística Carlos Éboli), que faz essa análise.

Segundo o diretor do instituto, delegado Waldyr de Oliveira, o caso é prioridade e, dependendo das condições do projétil e da quantidade de armas a serem verificadas, o resultado do exame poderá ficar pronto na sexta (27). A polícia não confirmou quantas e quais armas são nem quantos agentes deram depoimento.

Uma reprodução simulada do caso deve ser marcada ainda nesta semana. Paralelamente, a Corregedoria da PM também abriu um inquérito para apurar a morte de Ágatha.

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