Urbanismo social foi saída de Medellín para combater violência

Arquiteto Carlos Mario Rodríguez fala em São Paulo sobre experiência da cidade colombiana

Francesca Angiolillo
São Paulo

​As imagens dos teleféricos cruzando os ares sobre bairros populares de Medellín se tornaram famosas; também ficaram no imaginário construções futuristas que pareciam naves extraterrestres pelo contraste de acabamento com o casario precário em seu entorno.

Quem as vê, contudo, nem sempre sabe que as intervenções não são fruto de extravagância nem de ações pontuais, mas parte de uma estratégia metodológica que se tornou conhecida sob o nome de “urbanismo social” e que é tema de encontro nesta quarta (18) em São Paulo. 

Nas décadas de 1980 e 1990, Medellín era uma das cidades mais violentas do mundo, chegando ao pico, em 1991, de 381 homicídios a cada 100 mil habitantes —segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), taxas acima de 10 homicídios por 100 mil habitantes constituem violência epidêmica.

O nome da cidade imprimia terror; era a capital do tráfico internacional de cocaína, a casa de Pablo Escobar.

“Ao final dos anos 1990 e princípio dos 2000, a questão já estava mais do que diagnosticada”, diz Carlos Mario Rodríguez. O diagnóstico, diz, era bem claro: “falta de cobertura de serviços institucionais, como saúde, educação e cultura”.

Rodríguez foi um dos médicos que ajudaram a baixar os índices. Embora ainda se encontrem acima do desejável, caíram muito —em 2017, foram 22 homicídios por 100 mil habitantes. 

Ele não é especialista em segurança pública, mas arquiteto e urbanista. 

Foi gerente de desenho urbanístico da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano (EDU) de Medellín de 2004 a 2011, os anos em que a cidade mostrou para o mundo que ações para melhorar a qualidade de vida em regiões periféricas tinham impacto direto nos indicadores de violência. 

Em São Paulo, na tarde desta quarta (18), ele explicará, em evento do ciclo ArqFuturo, as estratégias aplicadas em Medellín a partir da eleição do prefeito Sergio Fajardo, que tomou posse em 2004 —as inscrições já se esgotaram, mas haverá transmissão ao vivo.

Após “mapear a cidade completamente”, diz Rodríguez, ficou muito evidente que, onde faltava presença institucional do Estado, sobrava violência. 

Medellín se assentou primeiro no vale do rio homônimo e, com o inchaço populacional, a partir dos anos 1950, a cidade começou a crescer para as encostas das montanhas ao norte.

Era preciso chegar até lá. Os famosos teleféricos, que conformam um sistema chamado Metrocable, foram a espinha dorsal do processo. 

“A mobilidade e a acessibilidade evidenciaram territórios aos quais ninguém ia além dos que ali viviam; a cidade os tinha completamente à parte.”

A base da estratégia em Medellín foi “colocar todas as ferramentas de desenvolvimento de maneira simultânea no território”; não fazer uma escola aqui e um ginásio acolá, mas escolher um determinado local para começar e, nele, fazer tudo o que fosse possível, dentro do que se chamou PUI, Projeto Urbano Integrado.  

Antes de mais nada, era preciso que a população acreditasse que a intenção se tornaria ação. “Normalmente vão às comunidades na campanha eleitoral, se prometem escolas, ruas etc. —e não voltam”, diz o arquiteto.

A opção foi implantar, de início “obras muito simples, muito rápidas, que permitiam ganhar confiança e credibilidade”. A partir daí, a população passava a participar dos trabalhos, em comitês gestores e mesmo como mão de obra. 

Medellín, diz Rodríguez, “tem finanças muito saudáveis”. Portanto, havia, sim, recursos, mas mais importante era “colocá-los para funcionar de maneira conjunta”.

Isso implicava também coordenar tarefas das diferentes empresas municipais —de transporte, de saneamento, de limpeza urbana. 

“As obras maiores foram sendo feitas depois; se íamos fazer uma biblioteca, começávamos o processo dois anos e meio antes de assentar o primeiro tijolo, fazendo uma feira do livro.”

Surgiram ruas melhoradas, praças, parques-biblioteca, novas escolas; para cada prédio, fizeram-se concursos públicos de arquitetura, em busca da melhor qualidade possível para esses espaços. 

Também se implantaram programas para acompanhar as crianças na primeira infância, desde a gestação, espaços de convivência cidadã e centros de desenvolvimento para pequenos negócios. 

No Brasil, o caso da cidade colombiana tem no secretário municipal de Segurança Urbana do Recife um de seus maiores entusiastas. 

Titular da pasta desde 2013, desde a primeira gestão do prefeito Geraldo Júlio (PSB), Murilo Cavalcanti já visitou Medellín 32 vezes e, de lá, tirou a inspiração de sua principal bandeira, os Compaz (Centros Comunitários da Paz).

Os centros atendem milhares de pessoas com atividades culturais e esportivas, além de serviços como documentação, orientação jurídica e assistência social. 

Cavalcanti debate com Rodríguez e com o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano de São Paulo, Fernando Chucre, após a palestra do colombiano.

Chucre diz esperar que o encontro se consolide como uma oportunidade para “discutir experiências de Medellín que interessam para São Paulo e falar de questões que precisam ser superadas, sobretudo do ponto de vista de articulação de políticas públicas”.

O problema da continuidade dos investimentos também se impõe. 

O lema da gestão do matemático Fajardo em Medellín era “o melhor para os mais pobres”. No pleito de 2007, ele foi sucedido por Alonso Salazar, jornalista e escritor que fazia parte de sua equipe, conformada majoritariamente por acadêmicos e empresários.

Mas não foi somente eleger o sucessor o que garantiu o seguimento dos programas. Medellín tem um plano de ordenamento territorial que prevê a execução de determinadas ações por 12 anos. 

Além disso, diz Rodríguez, o fato de que os moradores, involucrados no processo e beneficiados por ele, se tornam fiscais-cidadãos conta muito. Antes excluídos, adquiriram no processo também cultura política, defende.

Enquanto Chucre acha que o problema da continuidade pode ser contornado com pressão da sociedade civil, evitando as idiossincrasias do “governo de plantão”, Cavalcanti é taxativo. “É um pesadelo. Não tenho dúvida de que, se o próximo prefeito do Recife for um linha-dura, tentaria transformar o Compaz em um quartel-general.” 

O atual prefeito de Medellín, Federico Gutiérrez, no poder desde 2016, “se vendeu como continuidade”, diz Rodríguez, mas “não gerou um metro quadrado mais” dentro dos PUIs.

Eleito, disse que não priorizaria terminar uma obra enorme dos anos do urbanismo social, o Parque del Río, um parque linear às margens do Medellín, que dependia do enterramento de todo o tráfego de veículos. “Mas terminou”, frisa o arquiteto.

Para o pernambucano, o que falta para que as cidades brasileiras se tornem Medellíns é a famosa “vontade política”. “Se Medellín pôde, nós podemos.”

O Rio de Janeiro não pôde. Recursos do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) foram investidos em favelas como as do Complexo do Alemão e Manguinhos, para replicar exemplos colombianos. 

Em 2015, duas das bibliotecas-parque do governo fluminense tiveram atividades suspensas por falta de repasses; o teleférico do Alemão está desativado desde 2016

Rodríguez, que hoje atua como consultor e trabalhou em cidades como Cochabamba, na Bolívia, e Monterrey, no México, resume. Não adianta simplesmente o projeto; “sem decisão política, ele não passa de um documento”.  

ArqFuturo - Conexão Medellín x Recife x São Paulo

Qua. (18), às 15h. Sala Marcos Lopes do Insper, r. Quatá, 300, 2º andar. Inscrições esgotadas; se houver desistência, entrada obedecerá fila de espera

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