Colégio em BH anula prova com texto crítico de Duvivier a governo Bolsonaro

Segundo diretor, teste contrariava regras porque coluna não estava acompanhada de outro texto contraditório

Fernanda Canofre
Belo Horizonte

Os grupos de WhatsApp de alunos, ex-alunos e pais do Colégio Loyola, um dos mais tradicionais de Belo Horizonte, passaram a quarta-feira (9) discutindo uma prova de português do 2º ano do ensino médio. Nesta quinta, a discussão virou nacional e chegou aos tópicos mais comentados nas redes sociais.

O motivo foi o conteúdo da prova: o texto “Único jeito de não ficar triste é ficar puto”, do ator e escritor Gregorio Duvivier, publicado na Folha, no dia 28 de agosto. A escola decidiu anular a prova.

Pedindo licença para “cometer um pouco de autoajuda”, Duvivier aborda, de forma irônica, políticas do governo de Jair Bolsonaro (PSL) e o momento atual do país. Ele encerra questionando: “Quanto da sua tristeza você conseguiu converter em ódio? Quanto do seu ódio você conseguiu converter em ação?”.

As questões relacionadas ao texto perguntavam sobre progressão temática em expressões usadas pelo autor, anáforas e interpretação da crônica. O teste trazia outro artigo, do cientista político Mathias Alencastro, falando das participações de Bolsonaro e da ativista Greta Thunberg na ONU, também publicado na Folha

 
Prova aplicada no Colégio Loyola
Prova aplicada no Colégio Loyola - Reprodução/Facebook

O incômodo, porém, foi gerado pelo texto de Duvivier. Uma mãe ouvida pela reportagem disse que não foi contra a prova, mas contra o artigo que considerou “inconveniente” por “ensejar ódio, violência”.

“Lançar mão de um texto que é, sem sombra de dúvidas, polêmico, haja visto a repercussão causada, só faz desviar a atenção que se deve ter com o ensino da língua para um assunto de cunho político que nada tem a ver com a matéria”, diz um pai que preferiu não se identificar.

Nas redes sociais, um perfil que se identifica como sendo do movimento Escola Sem Partido compartilhou uma foto da prova dizendo: “Se o professor usa esse texto em uma prova, imaginem o que ele não fala durante as aulas”. 

O grupo diz que se manifestou porque entende que a professora violou os direitos dos estudantes e dos pais ao usar o texto. Eles sustentam ainda que o texto criaria ambiente para “bullying político” a alunos que eventualmente apoiem Bolsonaro.

“O texto contém uma série de ataques ao governo e aos desafetos ideológicos do autor; mas a matéria desses ataques não é objeto da disciplina ministrada pela professora. […] Assim, as opiniões de Gregorio Duvivier adquirem, graças à professora, o status de ‘verdade’ incontroversa. Os alunos não terão a oportunidade de refutá-las com dados e argumentos.”

Alguns pais chegaram a enviar emails à direção da escola reclamando da prova, mas, segundo o diretor acadêmico, Carlos Freitas, não foi a pressão deles que levou à decisão de anulá-la. O colégio pertence à Companhia de Jesus e tem 2.600 alunos. 

Freitas explica que a decisão foi baseada em um documento da instituição que serve de parâmetro para orientar as atividades e a forma de abordar temas em salas de aula. 

As provas do colégio passam pelo crivo de pelo menos dois professores antes de chegar aos alunos. Na avaliação do diretor, desta vez, houve um equívoco por terem deixado passar o material que falhava em não trazer um contraditório ao texto de Duvivier.

“Essa prova de maneira alguma seria anulada se tivéssemos ali um outro texto, botando outra visão do assunto. O critério foi esse, de permitir que tenhamos as várias visões de determinado assunto, para a gente não entrar nessa onda que está posta aí de visões de uma lente única”, explica ele.  

Um grupo de alunos e ex-alunos entregou à direção, na manhã desta quinta, uma nota de repúdio à decisão da escola e às críticas sendo feitas à professora responsável nas redes sociais. O documento reuniu 460 assinaturas.

Escrito por duas alunas, Beatriz Castello Branco Miranda, 18, e Manoela Araújo Vilas Boas, 17, o texto lembra do ensino praticado na escola e diz que os críticos estão mal informados e que o artigo não visa doutrinação dos estudantes ou propagação de ideologia, porque é condizente com o que foi abordado na disciplina.

“Ao longo de vários anos que eu estudei no Loyola, a gente teve textos tanto de esquerda, quanto de direita em provas, sempre muito coerentes com a situação do país. Em nenhum momento aconteceu de censurarem ou barrarem uma prova por causa de ideologia política. Foi a primeira vez”, diz Beatriz, que hoje é aluna de medicina da UFMG.

A manifestação dos alunos foi discutida em um grupo chamado Jovens Pensadores, conta ela, formado na escola e que tem encontros semanais dentro do Loyola. O grupo é integrado por alunos e ex-alunos, alinhados tanto à esquerda quanto à direita.

Victor Luís Gama de Assis, 17, aluno do 3º ano do ensino médio, se identifica como liberal e também assinou a nota. Ele conta que, sendo da área de exatas, aprendeu a gostar de língua portuguesa por causa das aulas da professora que fez a prova polêmica.

“Eu concordo com a escola, eu entendo o fato de eles terem recuado com a prova, só fiquei muito incomodado com a magnitude que isso tomou. Porque acho que expôs muito a professora e com inverdades sendo faladas”, diz ele.

A professora, que trabalha há mais de dez anos na escola, é conhecida por incentivar debates e contraditório em sala de aula, segundo os alunos. Victor conta de uma aula recente em que ela apresentou vários pontos de vista e pediu que eles debatessem sobre a reforma da Previdência. A escola diz que ela não terá nenhuma punição.

​Gregorio Duvivier se manifestou sobre a questão nas redes sociais na manhã desta quinta: "Sinto muito pelos professores e alunos da escola", disse ele, que também comentou a nota de repúdio dos alunos e ex-alunos.

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