Empresa que fez orçamento para prédio de Fortaleza identificou fissuras

Orçamento foi rejeitado em assembleia por ser quase o dobro do valor de concorrente

Fernanda Canofre Marcel Rizzo
Belo Horizonte e Fortaleza

Dois meses antes da queda do edifício Andrea, na terça-feira (15), a síndica do condomínio procurou uma empresa de engenharia de Fortaleza pedindo orçamento para uma recuperação estrutural.

Até a tarde desta sexta-feira (18), o desabamento tem sete sobreviventes resgatados com vida, seis mortos e quatro pessoas ainda desaparecidas —a síndica está entre elas, segundo a Folha confirmou com autoridades locais.

Fotos e vídeos registrados pelos representantes da empresa de engenharia que visitaram o local, no dia 19 de setembro, mostram fissuras em pilares, vigas e na laje, o que seriam desgastes na construção por ação do tempo e falta de manutenção periódica.
 

O orçamento, entregue onze dias depois, previa remoção do concreto solto e recuperação estrutural das ferragens comprometidas pela oxidação, para reparos. Ao todo, foram identificados 135 pontos estruturais com problemas apenas no pilotis. O serviço foi pedido só para essa área e na casa de máquinas.

“Sem manutenção, poderia se agravar cada vez mais. Demorou muito tempo para ser tomada uma providência. Aparentemente, vinham executando serviço sem embasamento técnico, comprometendo cada vez mais e adiando os serviços necessários”, explica Alberto Cunha, diretor-presidente do grupo CAC, que fez a visita técnica.

Ele ainda chama a atenção para a ação da maresia nas estruturas —o edifício Andrea ficava na Aldeota, a 3 km de distância da praia de Iracema, cartão-postal da capital cearense.

O orçamento feito por sua empresa estimava um custo de cerca de R$ 38 mil e foi enviado à síndica no dia 30 de setembro. Já na primeira semana de outubro, ela informou à empresa que a assembleia de moradores havia optado por outra proposta.

O concorrente contratado, segundo a ART (anotação de responsabilidade técnica) registrada no Crea pelo engenheiro responsável, um dia antes do desabamento, apontou valor total de R$ 22.200 para as obras, citando vagamente recuperação das construções e pintura.

“[A síndica] disse que nosso orçamento não foi aceito, porque nosso preço estava além do valor que ela tinha acertado e a pessoa tinha incluído a pintura”, diz Cunha.

Ele explica que sua empresa não poderia baixar ainda mais os custos de engenharia, sem comprometer a qualidade do serviço. O orçamento deles incluía reparos e garantia de cinco anos.

Uma pessoa que morava no prédio confirmou à reportagem que o condomínio teve reuniões para decidir sobre a obra e que todos concordaram com o valor orçado em torno de R$ 22 mil, por ser o mais em conta. Ela não quis se identificar.

A obra nas colunas do estacionamento eram cobradas há tempos pelos moradores, segundo a fonte. O valor da reforma seria dividido em cinco parcelas e somado ao condomínio mensal.


A reportagem não conseguiu localizar responsáveis legais pelo condomínio Andrea.

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