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Trans brasileira vira símbolo de diversidade em campanha no Uruguai

Música de Agness Zacura, 'Útero de Luz', integra campanha da prefeitura de Montevidéu

Paula Sperb
Porto Alegre

Quando chegou ao Uruguai, a artista brasileira Agness Zacura, 39, percebeu que era mais facilmente tratada como “senhora” e “senhorita” do que no Brasil. O uso dos pronomes de tratamento no feminino é o correto no caso dela, que é uma mulher trans.

Em menos de um ano no país vizinho, ela se tornou símbolo de diversidade em uma campanha da prefeitura de Montevidéu. Sua música, “Útero de Luz”, foi usada como tema em uma série de vídeos.

A brasileira Agness Zacura canta durante a inauguração da Plaza de la Diversidad Sexual, em Montevidéu
A brasileira Agness Zacura canta durante a inauguração da Plaza de la Diversidad Sexual, em Montevidéu - Pata Eizmendi/Folhapress

Agness foi convidada para entrevistas na televisão e no rádio e para se apresentar na inauguração da Praça da Diversidade Sexual. Enquanto batalha para gravar um álbum com suas composições, trabalha com limpeza em casas de famílias da capital uruguaia.

O Brasil passa um momento muito difícil, com um discurso muito violento e retrógrado. Ao mesmo tempo em que o cenário externo é esse, comecei a sentir uma necessidade interna de viver minha identidade feminina plenamente, de consumá-la. Mas o Brasil está seguindo o caminho oposto, de obrigar a gente a se esconder.

Minha reação imediata quando o presidente Jair Bolsonaro (PSL) venceu as eleições, em outubro de 2018, foi a de me assumir 100%. Dentro do meu espaço de trabalho, como professora de inglês em uma escola de idiomas em Campinas (SP), precisava aparentar a forma masculina, tinha que ocultar a Agness.

Num tom muito cordial, fui repreendida por ir vestida como mulher. Foi a gota d’água. Estavam tentando controlar minha vida em níveis não mais toleráveis. Eu preciso dessa expressão de gênero, faz parte de mim, não aguentava mais essa vida dupla.

Em novembro já estava no Uruguai, mesmo sem saber como viveria. Pesquisei quais países da América Latina eram mais abertos à diversidade. O Uruguai parecia ser aquele em que seria mais bem recebida. Pelo visto escolhi bem.

Sou formada em Filosofia pela Unicamp. Troquei minha estabilidade de professora, carro próprio e a casa alugada onde morava sozinha por trabalhar com serviços de limpeza em residências de família em Montevidéu e em um hostel, onde troco o trabalho por moradia. Minha liberdade valia mais que esses confortos.

Em Montevidéu, me indicaram a procurar a Secretaria da Diversidade, da prefeitura. Fui tratada de maneira exemplar. Me senti extremamente cuidada, respeitada e valorizada. Conseguiram um trabalho, também de limpeza, de seis meses no Parque da Amizade, um parque inclusivo da prefeitura.

Me informaram dos direitos que eu tinha, dos lugares em que teria atendimento adequado, me colocaram em contato com a comunidade LGBT e com outras pessoas trans. É um trabalho que serve de modelo para o mundo, não só para o Brasil.

Ter assumido minha identidade acabou fazendo as coisas fluírem também no campo artístico. Toco violão desde os oito anos. A música sempre esteve muito presente na minha vida. Meu pai é uma pessoa que gosta muito de música. Cresci escutando serestas, Nelson Gonçalves, o repertório da década de 1930 e 1940.

Na juventude acabei descobrindo o trabalho do Caetano Veloso e do Gilberto Gil. Teve uma fase que entrei muito fundo na obra desses dois artistas, estudava suas canções e sentia também uma identificação muito forte com a forma como se apresentavam, uma masculinidade interessante, maleável, fora do padrão. Só mais tarde surgiram figuras como a Laerte e Liniker, que me ajudaram nesse sentido, de uma identificação transgênero. Antes a gente não via isso tão fortemente no meio artístico.

Em julho, fui convidada para me apresentar na inauguração da Praça da Diversidade Sexual. A mera existência desta praça é algo realmente de vanguarda para uma cidade. Me senti muito feliz e orgulhosa, participando de um momento histórico. Já estava um pouco nas nuvens com isso, mas as coisas continuaram a acontecer.

Me convidaram para participar de uma campanha de visibilidade LGBT durante as atividades do mês da diversidade, em setembro. A campanha tratava de várias intersecções identitárias, dando visibilidade a pessoas LGBT que também são negras ou imigrantes; no meu caso, trans e imigrante.

Só que eu fui para a gravação do meu depoimento na TV com o violão nas costas. Queria aproveitar para mostrar meu trabalho artístico, porque é o que eu faço de melhor. Quando foram editar o vídeo, se entusiasmaram com o resultado da montagem. A música se chama “Útero de Luz”. Eu canto e toco violão. A letra fala na “mulher que, em semente, esperou para nascer” e a “mulher que floresce e começa a viver”.

Me ligaram para usar a minha música como tema da campanha em vídeos de entrevista, compartilhados em perfis institucionais no Facebook, Instagram, Twitter e YouTube. Achei a ideia fantástica, me pagaram pelo uso da música. O vídeo repercutiu e comecei a ser contatada por muita gente, fui chamada para uma entrevista em uma rádio de alcance nacional para contar minha história.  

Tenho um trabalho artístico maduro do ponto de vista da linguagem da canção. Sou uma artista já, mas não tenho carreira. Estou na obscuridade.

Os uruguaios têm muito interesse e respeito pela música brasileira. O que eu quero é gravar um disco e poder me dedicar ao que eu faço de melhor, trabalhar todos os dias com a música. É um sonho de muitos anos. 

 
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