'Tudo bem ser impopular', diz secretário que reduziu limite de velocidade em Bogotá

Juan Pablo Bocarejo sofre pressão de comerciantes, motoristas e até de pedestres que se opuseram a medidas que acalmam o tráfego

Bogotá

Todos os dias em sua conta no Twitter, Juan Pablo Bocarejo, secretário de mobilidade de Bogotá, informa o número de mortes no trânsito da cidade no dia anterior, assunto visto como tabu por muitas prefeituras brasileiras.

O gesto é uma tentativa diária de angariar adeptos à ideia de que a capital colombiana tem de mudar de mentalidade para reduzir as mortes no seu trânsito tão violento. 

Nos últimos meses desta gestão na prefeitura, o engenheiro especializado em transporte disse à Folha que teve de enfrentar forte resistência para poder pôr em andamento um plano de segurança viária. Entre as ferramentas desse plano estão a redução na velocidade das principais avenidas, mais espaço para pedestres e ciclistas e até o bloqueio da conta bancária de condutores que não pagam multas. 

"Eu sou muito impopular. Mas eu não sou político, então tento fazer o que acho certo. Depois, provavelmente, eu não serei político novamente, estou tranquilo", diz ele, que afirma dedicar um terço do seu orçamento a ações que promovam a segurança no trânsito. 

Desde 2018, a aposta de Bocarejo é a redução de velocidade em dez grandes vias da cidade, de 60 km/h para 50 km/h. O plano, segundo Bocarejo, conseguiu reduzir em 30% os acidentes fatais nas vias em que foi implementado. A expectativa é que as vias mais calmas consigam reduzir o número de mortes no trânsito de Bogotá, após anos de estagnação nesse índice. 

Para contornar opositores à medida, a prefeitura disse ter divulgado dados técnicos que mostravam que apenas 20% dos condutores excediam os 50 km/h. Outro dado divulgado foi o de que limites de velocidade mais baixos não tinham aumentado o congestionamento nas horas de pico. 

A cidade ainda criou áreas calmas para o tráfego, ou seja, esquinas ou quarteirões onde o desenho das ruas influi para diminuir a velocidade dos veículos e dar mais segurança ao trânsito.

Entre as ações estão intervenções simples, como avançar a calçada sobre o asfalto nas esquinas. A estratégia faz com que veículos naturalmente tenham de reduzir a velocidade ao fazerem uma conversão ou atravessarem uma avenida. Ao mesmo tempo, pedestres têm um trajeto menor para caminhar enquanto atravessam a rua. 

Em apenas um quarteirão, no bairro Restrepo (a 15 minutos do centro de Bogotá), a prefeitura diz ter zerado os acidentes com feridos, num local onde antes ocorriam, em média, seis acidentes por ano. Ainda assim, a gestão enfrentou resistência de oficinas mecânicas que perderam vagas de estacionamento diante de seus comércios. 

As medidas foram alvo de assessoria da Iniciativa Bloomberg para a Segurança Global no Trânsito e da Vital Strategies, projetos do bilionário ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg que atuam em dez cidades, incluindo as brasileiras São Paulo e Fortaleza. 

Bocarejo diz que é necessário um trabalho de convencimento com a população. "Mostramos os dois lados: o das pessoas que moram ali, o dos estudantes das escolas da região. E o outro lado é o do carro que só passa por ali e quer passar o mais rápido possível", comenta o secretário.

"Quando colocamos lombadas, redutores de velocidade ou estreitamos a rua, o motorista perde 30 segundos ou um minuto em seu percurso. Mas você consegue melhorar a vida de quem vive nessa região", defende. 

Segundo ele, após a apresentação dos primeiros resultados a Prefeitura de Bogotá já passou a ser cobrada pela implantação de outras áreas calmas na cidade, principalmente próximas a escolas. "Nós tínhamos dados para mostrar o tamanho do problema. Isso é muito importante para trazer aliados. Contra esses dados é difícil ter um bom argumento", declara.

Medidas semelhantes já foram testadas em São Paulo. Intervenções permanentes exigem obras que foram prometidas, mas ainda não foram contratadas, pela gestão Bruno Covas (PSDB)

Em 2018, na capital colombiana, morreram 514 pessoas no trânsito. A taxa, para uma cidade de 7 milhões de habitantes, é parecida com a registrada em São Paulo. 

Chama atenção em Bogotá o elevado número de mortes de ciclistas, fruto do alto uso desse meio de locomoção e da dificuldade da prefeitura em conferir estruturas adequadas. Segundo a prefeitura, as bicicletas são responsáveis por 8% das viagens na cidade (em São Paulo, esse índice é de apenas 0,9%). A cidade tem 500 km de ciclovias e outros 230 km estão em projeto.

Uma preocupação tem sido a de melhorar os pontos de conflito entre ciclistas e veículos grandes, principalmente ônibus. Ciclistas ainda reclamam da elevada velocidade dos veículos em muitas das avenidas. 

Em Bogotá, onde também é comum a crítica ao suposto caráter arrecadador das multas de trânsito, outra medida impopular que Bocarejo diz ter assumido foi a iniciativa de bloquear a conta bancária de 500 mil condutores com multas na cidade até que eles pagassem suas dívidas. "Pela lei, as multas expiram após três anos, então as pessoas simplesmente aguardavam esse prazo e não pagavam, e também não alteravam o comportamento transgressor", diz. 

Ex-exemplo para América, Bogotá tem problemas no transporte

Além da segurança no trânsito, o secretário de mobilidade de Bogotá, Juan Pablo Bocarejo, tem uma série de problemas a resolver na capital colombiana. Se no final dos anos 1990 a cidade virou referência internacional ao transportar diariamente grandes quantidades de passageiros pelo seu sistema rápido de ônibus, hoje vive a saturação do transporte público e o sonho da primeira linha de metrô. 

O modelo de ônibus rápido, chamado de TransMilenio, recebe constantes reclamações por ser muito lotado e com risco de assaltos. 

Motoristas de Uber (ainda não regulamentados no país) comemoram a redução da qualidade dos ônibus. "Desejaria que o TransMilenio fosse um transporte exemplar para todos, mas não é. Mas graças a isso, me dou bem. As pessoas, por segurança, preferem pagar um pouco mais e vão mais tranquilas", diz Jimmy Sanabria, 47, motorista por aplicativo.

O sistema ainda lida com a inadimplência de parte dos usuários. O pagamento da tarifa é feito ao entrar nas estações por onde o coletivo passa. Invasões às estações chegam a 15% dos passageiros transportados, informou a gerência do serviço à imprensa local. 

Há quem simplesmente burle a catraca ou quem invada a pista exclusiva do TransMilenio e pule para a estação que deveria ter portas fechadas. A reportagem presenciou até um idoso invadindo uma estação desta maneira. Esse tipo de invasão também é uma preocupação à segurança dos passageiros.

O tão sonhado metrô de Bogotá parece finalmente prestes a sair do papel, após anos de promessas. Até novembro, a prefeitura deve escolher a empreiteira que tocará o projeto.

O secretário de mobilidade, Bocarejo, enfrenta ainda a acusação de mau uso de dinheiro público na troca do sistema semafórico da cidade. O Ministério Público chegou a pedir dez anos de afastamento dele de cargos públicos, ele recorre.

O jornalista viajou a convite da Iniciativa Bloomberg para a Segurança Global no Trânsito e da Vital Strategies

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