Compras fazem do Brás o campeão em uso de zona azul em SP

Outras áreas de comércio popular estão no topo do ranking; Ibirapuera lidera aos domingos

Fabrício Lobel
São Paulo

São sacolas de roupas, malas com tecidos e manequins transportados a todo instante no bairro do Brás, na zona leste, região famosa pela venda de roupas.

Muitos dos clientes são comerciantes de outras localidades que buscam ali os produtos para suas lojas. A forma que grande parte deles encontra de carregar suas mercadorias é estacionando seus carros.

Por lá, quase não há vagas nas ruas que não sejam destinadas à Zona Azul. O fenômeno faz com que o bairro do Brás seja o campeão no uso de Zona Azul em São Paulo. O volume de veículos estacionados por lá num dia comum chega a ser mais mais de 20% superior ao movimento de carros no bairro de Pinheiros, área rica da cidade, na zona oeste, que ocupa o segundo posto no ranking.

Os dados são da Zul, o aplicativo da maior operadora de venda virtual de tickets de Zona Azul. Os números de carros estacionados nas vagas de Zona Azul são coletados quase que em tempo real e podem ajudar a Prefeitura de São Paulo a desenvolver políticas públicas sobre mobilidade e melhor aproveitamento das ruas.

É possível, por exemplo, saber onde há maior demanda por vagas de estacionamento. Por outro lado, pode-se investigar também quais vagas estão reservadas a carros e não são usadas.

São Paulo tem quase 42 mil vagas de Zona Azul em todas as áreas da cidade, mas mais aglutinadas no centro. Cerca de 80% dos tickets de Zona Azul são comprados através de 15 aplicativos habilitados pela Prefeitura de São Paulo, e que somam mais de 1,5 milhão de usuários. O restante dos tickets é vendido fisicamente em postos oficiais, como bancas de jornal e outros comércios.

O casal Sandro Carvalho, 38, e Thais Fidelis, 32, vai ao Brás quase toda semana comprar roupas para a loja que possuem em Diadema, na Grande São Paulo. Devido ao preço dos estacionamentos da região, que podem chegar a R$ 50 por hora, recorrem às vagas de Zona Azul. 

Após o Brás e Pinheiros, o terceiro bairro na cidade a mais atrair carros para áreas de Zona Azul é o Bom Retiro. O dado mostra a relevância do setor de comércio de roupas para a arrecadação desses estacionamentos para a prefeitura. Os pontos de maior uso de Zona Azul no bairro coincidem com os endereços de lojas do ramo. 

Com seus hospitais e clínicas, a Vila Clementino também concentra grande volume de pessoas interessadas em vagas de Zona Azul. Depois vem o Itaim Bibi, na zona oeste.

Já aos sábados, o padrão de uso dessas vagas começa a mudar. Brás e Bom Retiro se mantem muito fortes, mas outras áreas centrais, como o entorno da rua 25 de Março e o Mercadão, passam a ser procurados. O Ibirapuera, até então pouco expressivo, também surge como um ponto importante de atrativo de motoristas. 

Em compensação, bairros como Vila Clementino, Itaim Bibi e Jardins, perdem fortemente em vendas de tickets de Zona Azul, acompanhando horários mais restritos de serviços e lojas.

Aos domingos, quando apenas algumas regiões têm Zona Azul, o cenário já é completamente diferente. O parque do Ibirapuera atrai quase todos os usuários deste serviço na cidade. As áreas de interesse são basicamente o portão 3 e o bolsão de estacionamento próximo ao prédio da Bienal. 

Outros pontos que ainda têm relativo movimento também são dedicados ao lazer: Mercadão, no centro, Parque da Aclimação e estádio do Pacaembu. 

Atualmente, a gestão Bruno Covas (PSDB) pretende conceder todo o serviço de exploração de vagas de Zona Azul na cidade. A gestão vive um embate com o Tribunal de Contas do Município que já barrou o avanço da licitação por duas vezes, em maio e em outubro deste ano. Nas duas vezes, o processo foi suspenso dias antes do recebimento das propostas de empresas. 

Segundo especialistas em mobilidade, a concessão da Zona Azul a uma empresa pode colocar na mão de uma empresa privada um ativo muito importante para a cidade: o espaço das vagas destinadas a estacionamento de veículos. Segundo a crítica, a prefeitura ficaria com poder limitado para criar ciclovias, corredores de ônibus ou calçadas mais largas a cada vez que um projeto desses tivesse que deslocar uma vaga de ona Azul. 

Em contrapartida, a gestão Covas pretende arrecadar R$ 775 milhões em outorga, além de parte do faturamento da empresa e da desoneração dos próprios custos de gerir o sistema hoje. Os benefícios totais, segundo a gestão, seriam de R$ 1,4 bilhão. 

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