Grupos com motosserra fazem corte ilegal de árvores por R$ 2.000 em SP

Polícia investiga homens que usam uniformes da prefeitura para cometer crimes ambientais

São Paulo

Era uma manhã de sábado, em julho, quando uma moradora da Vila Mariana (zona sul de São Paulo) ouviu um barulho de motosserra e correu para checar o que era. Ao abrir a porta de casa, a mulher percebeu que um coqueiro de mais de 40 anos havia sido cortado. 

Dizendo-se a serviço da prefeitura, o responsável afirmou que cortou a árvore devido à ação de cupins. Ele realmente trabalhava para uma empresa terceirizada, mas, naquele caso, havia sido pago para fazer um serviço "por fora". 

Apenas o poder público e algumas prestadoras de serviço podem fazer esse tipo de serviço, quando as plantas estão doentes e causam risco à população. No entanto, impulsionados pela espera longa pelo serviço e pela falta de fiscalização, esses grupos criminosos têm agido na cidade.

Por mês, o serviço 156 recebe mais de 200 reclamações sobre poda e corte irregular. No mercado criminoso, o sumiço de uma árvore tem preço: em torno de R$ 2.000. 

A reportagem apurou que casos de pequenos grupos que realizam cortes são comuns em outras regiões da cidade. O caso do coqueiro cortado na Vila Mariana foi uma exceção porque os suspeitos foram identificados. 

A reclamação dos moradores saudosos do coqueiro pelas redes sociais chegou ao subprefeito da região, Fabrício Cobra. O servidor logo desconfiou da história e, ao verificar, descobriu que não havia autorização para o corte daquela árvore —o que envolve análise de técnicos. 

Veja o antes e depois do corte ilegal

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Coqueiro de mais de 40 anos de idade em rua na Vila Mariana e, depois, o local com a árvore cortada - Reprodução

"Desde que assumi [em janeiro] recebi três denúncias de pessoas dizendo que terceiros vêm oferecer o serviço de corte e poda irregular. Eu peço para as pessoas denunciarem, mas ninguém quis. Mas dessa vez o cara havia deixado um cartão", diz Cobra. 

Um assessor da subprefeitura ligou para o telefone no cartão e começou a se passar por interessado no serviço. Ele conseguiu um orçamento de R$ 2.000, mas passou a protelar o dia do corte da árvore na esperança conseguir mais informações sobre a quadrilha. Durante esse tempo, conversou com três homens diferentes. 

"Você tem um caminhão para fazer a retirada?", questionou o assessor. "Tem sim, tem motosserra, tem caminhão", respondeu um dos homens, que garantiu ter um uniforme da prefeitura para passar despercebido. 

Outro homem tentou tranquilizar o assessor que se passava por cliente: "Não dá problema nenhum, porque o bagulho lá vai ser rápido, entendeu? Somos ágeis. E se você quer um horário melhor, é de sábado ou domingo. Por quê? Porque sábado e domingo não tem fiscal na rua". 

De posse dos indícios, o subprefeito enviou o material para o Ministério Público. O caso é apurado pela Polícia Civil. 

De acordo com a delegada Fabiola de Oliveira Alves, responsável pela área de crimes administrativos do DPCC (Departamento de Polícia e Proteção à Cidadania), os suspeitos foram ouvidos. Dois negaram, mas um terceiro admitiu o crime ambiental. 

O suspeito afirmou que realiza o serviço para complementar a renda, mas não revelou quantas árvores já cortou. 

Trata-se de um crime de menor potencial ofensivo: destruir plantas de ornamentação em logradouros públicos, com pena de detenção de três meses a um ano. 

Segundo a polícia, uma moradora da rua, que teria admitido o pagamento pelo serviço, também será ouvida. "A investigação continua, para saber se houve mais casos", diz a delegada Fabiola. 

O subprefeito da Vila Mariana, que também segue apurando o caso, ouvirá a empresa terceirizada A. Tonanni sobre o funcionário. O homem negou que a companhia tenha qualquer ligação com seus atos; a terceirizada afirmou desconhecer a situação. 

Para o botânico e paisagista Ricardo Cardim, a falta de investimento público abre espaço para ilegalidades. "Em praticamente todas as esquinas tem aquelas plaquinhas escrito corte e poda, com um celular", diz. A multa para a infração na cidade é relativamente baixa, de R$ 162, multiplicado pelo porte da planta. Além disso, são pouquíssimos os casos punidos —foram 73 neste ano, totalizando R$ 181 mil em multas. 

Sem um levantamento completo sobre as árvores na cidade, Cardim diz que fica difícil coibir esse tipo de crime. "A prefeitura trata a arborização como algo secundário. E não é, pois lidera as reclamações". 
Além de liderar as queixas na ouvidoria, os pedidos de avaliação de situação de árvores estão em quarto lugar no portal 156, atrás apenas de tapa-buraco, abordagem de moradores de rua e cartão de estacionamento de idosos. 

Remoção de árvore que tombou na Lapa, zona oeste de São Paulo
Remoção de árvore que tombou na Lapa, zona oeste de São Paulo - Lucas Lima/UOL 21.10.2016

Hoje, há 10.597 solicitações pendentes na cidade de São Paulo. A prefeitura sustenta que tem aumentado as equipes que cuidam das árvores —hoje são 100, contra 77 no ano passado. Além disso, houve aumento nas podas —de janeiro a setembro, foram 83 mil, contra 60 mil no mesmo período de 2018. 

Entre árvores que caem por conta própria ou recebem uma ajudinha, a cidade perde milhares de exemplares por ano —no ano passado, foram 4.447 quedas e outras 11,6 mil removidas legalmente, sem contar os casos ilegais. 

O resultado é que São Paulo faz cada vez mais jus à fama de cidade cinzenta. Pesquisa do Laboratório Senseable City, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), divulgada em 2017, calculou que o índice de cobertura verde urbano em São Paulo é de 11,7%. De 23 cidades analisadas no mundo, a capital fica na frente apenas de Quito, no Equador, (10,8%), e Paris, na França, (8,8%).

Na rua da Vila Mariana onde a árvore foi cortada, os moradores cobram um plano de arborização, incluindo um coqueiro novo. "Na semana do corte, as maritacas que viviam ali ficaram rondando o coqueiro. Depois, elas desapareceram", diz a moradora que denunciou e pediu para não ser identificada.

Como fazer para pedir poda ou remoção

Canais

  • Portal de Atendimento SP156
  • Central SP156
  • Praças de atendimento das Subprefeituras
  • Descomplica SP

Prazo

  • 120 dias

Procedimento

  • Um técnico da prefeitura verifica se há a necessidade de serviços como poda, remoção, ampliação de canteiro, transplante, tutoramento ou remoção de vegetação parasita

Punição para corte irregular

  • Na prefeitura, multa de R$162,83, multiplicados pelo porte de cada árvore
  • Na Justiça, detenção de três meses a um ano, ou multa
Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do publicado, Quito não fica no Peru; a cidade é a capital do Equador

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