Grupo antiaborto acampa diante de hospital em SP para constranger vítimas de estupro

Advogadas e ativistas relatam constrangimento de pacientes por parte de grupo religioso, que realiza vigília há quase 40 dias

Júlia Zaremba
São Paulo

De um lado, ativistas contra o aborto rezando Ave-Marias enquanto seguram terços, cruzes e imagens de Jesus Cristo. Do outro, moradores e militantes de direitos das mulheres com cartazes em defesa de vítimas de violência sexual onde se leem frases como “tire seu terço do meu útero”.

Assim está dividida há uma semana a praça em frente ao Hospital Pérola Byington, referência no atendimento a vítimas de violência sexual, na Bela Vista (região central da capital paulista).

Há pouco mais de um mês, ativistas do movimento 40 Dias pela Vida montaram uma tenda no local para “rezar pelo fim do aborto”. A ação deve terminar no domingo (3). 

O movimento foi criado no estado conservador do Texas (EUA) e se espalhou pelo mundo. O objetivo é acabar com o aborto por orações, jejum e vigílias em frente a locais que realizam o procedimento. 

No Brasil, o aborto é permitido em três situações: estupro, risco à vida da mulher ou anencefalia do feto. A descriminalização do procedimento até a 12ª semana de gestação está em discussão no STF (Supremo Tribunal Federal)

Os integrantes do braço paulistano da campanha se recusaram a falar com a reportagem. “Só oração”, disse Celene Salomão, 54, ex-candidata a deputada federal pelo PSL. Sete pessoas a acompanhavam na vigília nesta quinta (31). 

A comunicação nas redes sociais é ativa. Perfil do 40 Dias pela Vida de São Paulo reúne vídeos e fotos das orações em frente ao hospital e notícias contra o aborto. 

Advogados e ativistas denunciam situações de constrangimento e violência a pacientes em frente ao hospital pelo grupo religioso. “Satanista” e “assassina” seriam alguns dos insultos dirigidos a mulheres e médicos. A Comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de São Paulo recebeu ao menos seis denúncias de constrangimento, segundo a advogada Luzia Cantal, que faz parte da comissão. 

Acompanhados do vereador Eduardo Suplicy (PT), membros da OAB, da Defensoria Pública e advogadas se reuniram com a direção do hospital nesta quinta para debater a questão e oferecer ajuda. “Embora o direito à manifestação seja legítimo, ele também afronta eventuais direitos das pacientes”, diz Cantal. 

Em nota, a secretaria de Estado da Saúde, responsável pelo Pérola Byington, afirma que segue atendendo todos os casos, independentemente da manifestação, e que não houve impacto nos atendimentos. Diz que solicitará reforço policial em casos de tumulto. 

A reportagem testemunhou uma confusão na tarde desta quinta. O educador Hugo Almeida, 40, se aproximou do 40 Dias pela Vida para criticar a culpabilização de vítimas de violência sexual. “Ela [Celene] disse, então, que minha mãe deveria ter me abortado. Mas ela não é contra o aborto?”, questiona.

Um outro integrante do movimento religioso se aproximou para filmar o educador. Os ânimos se acirraram e começou uma discussão. “Fica longe, Satanás”, disse Celene à reportagem da Folha em meio à confusão. Almeida chamou a polícia para registrar a ofensa a ele.

Na semana passada, uma confusão entre uma paciente e o grupo terminou com uma mulher agredida. A polícia foi acionada. A SSP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo) afirmou que as partes foram ouvidas e liberadas. O caso foi encaminhado ao Poder Judiciário para análise.

Esse incidente motivou a escritora e roteirista Daniela Neves a montar no sábado (26) uma tenda ao lado da religiosa, para apoiar profissionais de saúde e pacientes.

“Não se trata de um movimento pró aborto legal. Somos um grupo de amigos e moradores que se uniram para evitar o assédio e a violência no Pérola Byington”, diz ela. “Muitas vítimas são crianças. Fazer isso é inacreditável.”

O apoio se dá por meio de conversa e troca de mensagens. “As pacientes me perguntam: Posso ir? Está seguro? Elas têm medo de chegar e acontecer alguma coisa. A nossa presença acalma.” Hoje, são cerca de 90 pessoas no grupo de WhatsApp do movimento. Nesta quinta, havia em torno de 20 pessoas na tenda. 

A professora Sylvia Anan, 40, é uma das integrantes. Moradora da Vila Mariana, soube do contramovimento nas redes sociais. “Pensei que poderia fazer alguma coisa. Outras pessoas tiveram ideias parecidas, mas violentas. Essa foi uma solução pacífica para mostrar que não são todos que concordam [com o grupo religioso]”, diz.

Não acampam no local. Costumam montar a barraca por volta das 9h e vão embora à noite, assim como o outro grupo. O convívio é pacífico, diz Neves: “Conflito zero. Não há diálogo com eles.”

Para o sábado, um dia antes do fim da vigília, está previsto um ato maior, o 1.000 Ave-Marias pela Vida. Em contrapartida, Neves planeja montar um canteiro de flores pelo fim da violência contra a mulher e promover apresentações de música, rodas de conversa e atividades lúdicas. 

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