Para 78%, trabalho e a falta dele são responsáveis por doença e sofrimento psíquico

Pesquisa aponta problemas como estresse e ansiedade diante de pressões e mudanças no mercado

Placas de emprego no centro de SP Danilo Verpa/Folhapress

São Paulo

A relação, que nunca foi fácil, por um tempo parecia andar bem. Havia opções. Os anos passaram, a crise chegou e se estabeleceu e os problemas se tornaram maiores e cada vez mais claros. 

Dentro ou fora do mercado formal, os impactos da relação com o trabalho na saúde mental do brasileiro se deterioram, e em todos os níveis de ocupação, de acordo com mais de 800 entrevistados, entre junho e julho, por uma pesquisa ainda inédita.

Ansiedade, depressão, insônia, síndrome do pânico, burnout e uso de remédios controlados, álcool e drogas ilícitas, entre outros, são algumas das consequências listadas.

Realizado por uma consultoria especializada em cultura organizacional de empresas, em parceria com o sociólogo Ruy Braga, professor da Universidade de São Paulo e coordenador do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic), o estudo colheu as respostas em questionário disponibilizado na internet durante dois meses. 

A partir do método de estudo de caso ampliado, a pesquisa fundamenta-se na teoria do psicanalista francês Christophe Dejours, especialista em medicina do trabalho e autor, entre outros, de "A Loucura do Trabalho". 

A amostra foi definida segundo critérios como renda, sexo e localização geográfica —variáveis oferecidas por ferramentas online que evitam direcionamento a pessoas que tenderiam a responder afirmativamente ao questionário. 

Apesar de perene, o problema se agravou depois de 2015, com a percepção de que a derrocada econômica que atingira o país era uma realidade inevitável à maioria dos trabalhadores. A sensação de estar com o emprego em perigo é uma das causas alegadas de sofrimento, não por acaso. 

Um ano antes, em 2014, o Brasil havia registrado a menor taxa média de desemprego da série histórica (6,8%). Em 2015, esse número passou a 9,8%, segundo o IBGE. 

Após queda no trimestre passado, a taxa chegou a 11,8%, mas com crescimento e novo recorde de informalidade, que atinge 41,4% dos ocupados.  

Para 78% dos entrevistados, o trabalho contribui ou já contribuiu com seu adoecimento.  

Entre as mulheres que se declaram negras, o percentual é maior: 85%. É o mesmo índice para aqueles que são empregados com vínculo formal —o que, ao lado da variedade de perfis dos entrevistados, aponta para a multiplicidade de fatores que desencadeiam o estado de sofrimento.

Numa escala de 1 a 10 para a concordância que o trabalho, ou a falta dele, contribuem ou já contribuíram em casos de adoecimento e sofrimento psíquico —sendo 1 nenhuma contribuição e 10 muita contribuição—, a média ponderada das respostas foi 7,5.

Para Thatiana Cappellano, da consultoria 4CO, e uma das autoras da pesquisa, é impossível não relacionar o trabalho com a própria identidade do trabalhador. “Há empresas que colocam o nome dela no nome dos funcionários [para ser usado durante o expediente], ou seja, há uma despersonalização”, afirma.  

 
 

A pesquisa recorreu a entrevistas em profundidade com grupos focais. Foram ouvidas 80 pessoas nesta fase. 

Os resultados convergiram para cinco conclusões:

a) a violência do trabalho, em seus aspectos simbólicos e concretos: como as cobranças familiares por renda e uma posição social, por exemplo;

b) a falta de coerência do mercado: com regras nem sempre claras de promoção e de preenchimento de vagas, são alguns dos achados;

c) o sofrimento causado por superiores: aqui surgem casos de assédio e omissões de chefes ante o problema;

d) a escravidão de um emprego que não gera realização, mas que oferece benefícios como plano de saúde;

e) as angústias decorrentes das mudanças tecnológicas e o futuro do trabalho: que muitas vezes leva à falta de reflexão e preparo para o mercado.

 “Há um sentimento de perda de proteção social, de aumento da insegurança e espoliação dos direitos”, diz o professor Ruy Braga. “É uma percepção de que o trabalho bloqueia o potencial das pessoas.”

Os trabalhadores foram divididos em diferentes classes: de jovens entrantes no mercado a trabalhadores com função de direção —chamados de C-level (com assento em boards e conselhos empresariais, por exemplo); de autônomos e informais, a servidores públicos, desempregados e desalentados (que deixaram de procurar emprego).

Para todos esses, a relação com o trabalho, ou a falta dele, passa por questões como assédio moral, incluindo xingamentos e agressões, cobrança por maior produtividade, cortes constantes, acúmulo de funções, falta de perspectivas e de clareza em promoções, cobranças da família, incapacidade e falta de vontade de refletir sobre o futuro.

METAS + PRESSÃO - ESTRUTURA = DOENÇA

O estabelecimento de metas, e a cobrança, associada a deficiências do sistema de trabalho que, por vezes, atrapalha as próprias metas, e as constantes mudanças nas leis que regem a concessão de benefícios, aos poucos, formaram o caldo ideal para o desenvolvimento de problemas psicológicos na analista de seguro social do INSS Patrícia Meirelles, 52.

Somado a isso, o desgaste decorrente do atendimento ao público por quase 15 anos e problemas pessoais a levaram a se afastar durante 40 dias do trabalho para cuidar de uma depressão e de crises de ansiedade generalizada.

A funcionária do INSS se enquadra em uma categoria de trabalhadores analisados pela pesquisa que relatam uma série de problemas decorrentes da imagem que os funcionários públicos representam para grande parte da população. 

“É um órgão que já tem um estigma, de que os velhinhos ‘morrem na fila’. As pessoas já falam com pedras na mão”, diz. “Não estou lá para tirar o direito de ninguém, mas para reconhecer de quem tem”, diz.

Ainda assim, pode ser pior para as outras categorias, reconhece Patrícia. “Vendo o panorama das pessoas que trabalham comigo e das que estão no setor privado tenho gratidão ao INSS. Cada pessoa que chega aqui vem para somar. Ninguém ameaça o cargo de ninguém”, diz.

Quando indagados se deixariam ou trocariam de trabalho se pudessem, 55% do geral responderam positivamente. Entre os celetistas, 65%. Entre as mulheres negras, 83%. 

Diante desses problemas, a resposta do trabalhador é a “criação de máscaras”, ou seja, estratégias defensivas. 

Assim, de acordo com as respostas, para os que estão afastados por motivo de saúde é importante, por exemplo, mostrar que estão deprimidos, que as coisas não vão nada bem. Afinal, estão doentes.

Para os desalentados, paradoxalmente, vale exatamente o oposto. É necessário mostrar-se otimista, à espera de uma oportunidade. 

Desempregados precisam mostrar —para a família, principalmente— que estão se movimentando, que a procura não para nunca, mesmo que seja em dias e horários em que não há nada para se procurar.
 

Nesse contexto, o empreendedorismo surge com saída por vezes perigosa. “Quando se fala de empreendedorismo há um imaginário com [Mark] Zuckerberg [fundador do Facebook], Bill Gates [fundador da Microsoft], mas não é essa a realidade. Não vai haver um milhão de Zuckerbergs”, diz Thatiana. 

"O indivíduo, numa certa altura, se depara com a impossibilidade de vencer", afirma Braga, explicitando que uma das consequências pode ser a depressão.

Entre as conclusões, uma das mais preocupantes é a que diz respeito ao futuro do trabalho. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), dois terços dos empregos nos países em desenvolvimento, como o Brasil, são suscetíveis à automação.

Para os jovens, ante a perda de direitos trabalhistas, surge o discurso da não-inclusão. “A possibilidade de acessar [esses direitos] foi ficando muito distante, o que faz com ele olhe isso de uma forma muito distante”, diz Braga. “Eles dizem coisas como: ‘faço meu corre, pago minha balada, mas não tenho nada a ver com isso'. Ele não coloca a libido nessa empreitada."

Sem perspectiva, o resultado é ficar preso no presente. É como se os mais jovens não se dessem conta que precisarão ingressar alguma hora nesse mercado de trabalho e, para isso, precisarão de formação.

"Estão imersos em ocupações pouco produtivas porque há uma destruição do horizonte futuro", diz o professor da USP. "Acaba virando um problema de seguridade social e previdenciário, porque não vai estudar, não vai se preparar e não vai ocupar os melhores postos de trabalho quando houver uma retomada da economia —o que, eventualmente, vai acontecer."

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