Parque estadual em São Paulo tem flora e fauna nativas e cachoeiras

Um dos núcleos da Cantareira tem trilha de 3 km e quedas d'água geladas e limpas para banho

São Paulo

Um friozinho, um farfalhar de folhas e o canto dos pássaros recebem o visitante. A sinfonia vem do alto dos açoita-cavalos e dos manacás-da-serra, palco em que se revezam os chorozinhos-de-asa-vermelha e os bacuraus-tesoura-gigantes. O acompanhamento fica por conta do ruído contínuo da queda-d’água.

Pode não parecer, mas essa paisagem bucólica fica perto do limite de uma área de alta densidade urbana em uma das mais populosas metrópoles do mundo.

Distante 20 km do marco zero da capital paulista (a catedral da Sé), esse oásis atende pelo nome de Parque Estadual da Cantareira.

O parque possui quatro núcleos: Cabuçu, Pedra Grande, Águas Claras e Engordador. Nesse último, há uma trilha de 3 km (ida e volta) que leva a três cachoeiras: Tombo, Engordador e Véu.
 
Elas são pequenas, de quedas curtas, com, no máximo, 4 m de altura, e poços rasos —pouco acima da cintura de um adulto.

Para um bom banho, a Véu é a ideal, mas vale redobrar a cautela ao pisar no musgo, sempre escorregadio.

Todas são geladíssimas e limpas.

O ribeirão que abastece as quedas e dá nome à segunda cachoeira nasce no interior do parque, que abrange, além de São Paulo, áreas nos municípios de Mairiporã, Guarulhos e Caieiras.

Inaugurado em 1962, o Cantareira possui uma das maiores áreas de mata tropical nativa do mundo situada em uma região metropolitana.

“Jamais imaginei que, dentro de São Paulo, existisse uma área verde tão generosa”, disse o motorista Luiz Cláudio Alvarez, 51, cearense de Quixadá, em sua primeira visita.

Cantareira foi o nome dado à serra pelos tropeiros devido à quantidade abundante de nascentes e córregos encontrados na região. No século 19, era costume armazenar água em cântaros, jarros de barro normalmente guardados em prateleiras chamadas de cantareiras.
 
No núcleo que abriga a Trilha das Cachoeiras fica também a represa do Engordador, aberta apenas para a contemplação, parte do primeiro sistema de abastecimento de água de São Paulo.

Por volta de 1890, o governo realizou a desapropriação das fazendas e chácaras existentes na região e construiu reservatórios —o abastecimento funcionou ali até 1949.
 
O maquinário usado para bombear a água, vindo da Inglaterra e da Alemanha, pode ser visto pelo visitante na Casa da Bomba, perto dessa entrada do parque.

Para entender a palavra que designa o núcleo —Engordador—, precisamos voltar um bocadinho mais no tempo. No século 17, lá funcionava uma fazenda onde era feita a engorda do gado que vinha do interior para ser abatido na capital.

A maior porção desse refúgio natural é de mata atlântica. Uma prova da importância da preservação dessa área é a quantidade de espécies animais que ela abriga. 

Segundo Vladimir Arraes, gestor do parque, das 53 espécies de médios e grandes mamíferos conhecidas em todo o estado, 24 ocorrem no parque, além de mais de 200 espécies de aves.

“O lugar surpreende pelas belezas naturais, como as lindas cachoeiras, pelo ar puro e pela presença de animais silvestres”, diz Bettina Quinteiro, moradora do Jardim Guedala, zona sul paulistana, que trabalha como superintendente do shopping Taboão, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo. “É impressionante como poucas pessoas conhecem esse paraíso.”

Leve lanche e repelente

Quem for lá vai encontrar muita natureza e ar puro, mas não há, por exemplo, uma lanchonete para restaurar a energia gasta em suas trilhas. O comércio nos arredores é precário, portanto é preciso levar água e algo para comer. 

O Engordador oferece espaço para piqueniques e —não custa lembrar— lixeiras, nas quais devem ser depositados resíduos e embalagens.

No meio do mato, mosquitos estão no seu habitat. Deles não convém esperar cortesia: repelente é item indispensável na mochila. O parque também recomenda aos visitantes que se vacinem contra a febre amarela.

O Cantareira chegou a ficar fechado de 23 outubro de 2017 a 8 de janeiro do ano passado, como ação preventiva contra a febre amarela, após macacos que contraíram a doença terem sido encontrados mortos no local.

Vale o registro: apesar de serem hospedeiros do vírus, os animais não são transmissores da doença para humanos.

Nestes dias que antecedem o verão, gritos de bugios foram ouvidos em regiões limítrofes do parque, segundo conta o monitor William Prado, 37, 12 dos quais dedicados ao Cantareira.

Bom sinal: os bichos, ainda bem, estão na área.

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