Vítimas de Barueri afirmam que bebida estava lacrada, diz polícia

Os quatro sobreviventes foram ouvidos nesta segunda (18); estado das vítimas é estável

São Paulo

Os moradores de rua internados após ingerir uma bebida suspeita em Barueri no último sábado (16) afirmaram à polícia que a garrafa estava lacrada quando chegou até o grupo. 

Renilton Ribeiro Freitas, 43, Silvia Helena Euripes, 54, Vinicius Salles Cardoso, 31, e Sidnei Ferreira de Araújo Leme, 38, foram ouvidos nesta segunda (18). Estão todos no Hospital Municipal de Barueri Dr. Francisco Moran. O estado deles é regular e estável, segundo a prefeitura do município.

No domingo (17), autoridades chegaram a falar em uma suposta nona vítima da bebida, Paulo Cezar Pedro, 41, mas a polícia afirmou nesta segunda (18) que ele não a tomou —após ajudar a socorrer as vítimas, as quais conhecia, foi até um bar e, ao sair, tropeçou e bateu com a cabeça. 

De acordo com o delegado Anderson Giampaoli, titular da Delegacia de Barueri, que conduz as investigações, todos os sobreviventes sustentam a afirmação de que deslacraram uma garrafa de cachaça. Uma foto divulgada pela polícia mostra uma garrafa da marca Sapupara que foi apreendida no local da intoxicação.

Giampaoli diz que a polícia não descarta a possibilidade de que a bebida, que contém um líquido amarelado, tenha passado por algum problema na hora da fabricação, nem que a garrafa seja falsificada ou tenha sido envenenada. 

Moradores de rua passam mal após ingerir bebida suspeita
Moradores de rua passam mal após ingerir bebida suspeita - Polícia Militar/Divulgação

O conteúdo do frasco é analisado pelo Instituto de Criminalística, que deve dar um parecer à polícia até o fim da semana. Também são aguardados os exames necroscópicos, que vão informar a causa da morte e se havia alguma substância, como veneno ou droga, no sangue das vítimas. 

Foi Vinicius quem levou a bebida até o grupo. Ele relatou em depoimento que foi para São Paulo na quinta (14) de manhã após pular o muro da Estação Barueri da CPTM e pegar um trem. Foi para a região da cracolândia, onde teria consumido drogas e álcool. 

Na sexta (15), enquanto pedia dinheiro em um semáforo, um homem apareceu e ofereceu a ele uma garrafa de cachaça, afirmou. Não soube dizer o nome da rua ou descrever a aparência do homem ou do carro. 

Ainda segundo seu depoimento, não tomou a bebida porque já estava muito alcoolizado. Guardou-a na mochila e foi a pé de São Paulo para Barueri, um trajeto de cerca de 30 km. Chegou na sexta à tarde, teria dormido em um albergue e, no dia seguinte, foi até a praça, na região central da cidade, encontrar com as outras vítimas. 

“Ó, é pinga da boa, vamos experimentar!”, teria dito aos colegas. Todos eram moradores de rua, com exceção de Edson.

Os mais velhos foram os primeiros a beber. O grupo tomou metade da bebida. Silvia não chegou a engolir —pôs o dedo no líquido, colocou na língua e, ao senti-la anestesiar, desistiu. “Os que conseguiram vomitar, sobreviveram”, diz o delegado. 

Vinicius era o integrante mais novo do grupo e não era tão íntimo, segundo relatos das vítimas. Saiu da prisão em julho deste ano, onde cumpria pena por roubo. Chegou a Barueri em outubro. 

Serão realizadas diligências nesta terça (19) na região onde Vinicius relatou ter recebido a bebida. Os próximos passos da investigação serão analisar as imagens de câmeras de segurança, ouvir testemunhas e ver o resultado dos laudos. 

O que se sabe, diz o delegado, é que a bebida não foi entregue para o grupo na praça onde estavam no momento do incidente. 

Alguns moradores de Barueri sugeriram que uma suposta briga entre moradores de rua e seguranças de um supermercado na última semana poderia ter relação com o crime. Mas, segundo o delegado, nenhuma das vítimas relatou qualquer briga ou ameaça de funcionários do estabelecimento. 

O Ministério Público de São Paulo também acompanhará as investigações. Nesta terça, a Procuradoria-Geral de Justiça designou o promotor de Justiça do Júri de Barueri Vitor Petri para a tarefa.

Os mortos foram identificados como Edson Sampaio da Silva, 40, Luiz Pereira da Silva, 49, Marlon Alves Gonçalves, 39, e Denis da Silva, 33.

Marlon chegou a visitar o Congresso Nacional, em Brasília, com Silvia, como mostram fotos compartilhadas pela deputada federal Bruna Furlan (PSDB-SP), filha de Rubens Furlan (PSDB), prefeito de Barueri. “Havia um esforço gigantesco para tirá-los dessa situação de vulnerabilidade”, escreveu. 

Por meio de nota enviada no final da manhã desta terça-feira (19), a fabricante Ypióca informou que "lamenta o ocorrido" e que a Sapupara Frutas Vermelhas deixou de ser produzida em 2012.

A empresa afirmou também que "a produção de todas as suas marcas segue rigorosos procedimentos de qualidade e segurança e que "permanece à disposição das autoridades para que a questão seja esclarecida o mais rápido possível.” 

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