Com fila, flash e neve de galão, Natal na rua Canadá vira atração em São Paulo

Promoção de financeira tem Papai Noel e enfeites natalinos que agradam adultos e crianças

São Paulo

 “A incidência de neve se dá em regiões do planeta cujo clima é frio (zonas polares) ou temperado”, diz o Google, referenciando o site Brasilescola. A explicação é a primeira no buscador. 

Ok, o Canadá é um desses lugares, mas —definitivamente— não é o caso da homônima rua, no Jardim América, área nobre da zona oeste paulistana, repleta de mansões. 

Ali, os floquinhos brancos que de hora em hora têm caído sobre o passeio público vem mesmo é de um galão preto de cinco litros de Volt Show Line, um “snow fluid” para máquinas de neve “nacionais ou importadas”, feito de água desmineralizada e agente emulsionante —atóxico—produzido, bem distante de terras polares, em São Bernardo do Campo, no ABC.

 
 

Para a molecada, ainda bem, isso tanto faz. Mais importante é pular em meio à neve de galão e tentar agarrá-la, enquanto um sem número de flashs pipocam dos celulares de seus pais, tios e avós.

Com filas que dobram o quarteirão, engarrafamento, banda de jazz, mini roda-gigante, Papai Noel e noeletes, príncipe e princesa, tem sido assim desde o final de outubro. 

O “Reino do Papai Noel”, nome oficial da atração, é iniciativa da Crefisa, empresa de crédito pessoal, conhecida de aposentados e cara aos palmeirenses —ela é a patrocinadora do futebol do clube alviverde. 

O sucesso tem sido tão grande que nem mesmo a chuva e o frio de sábado (14) em São Paulo foram capazes de mudar o itinerário de pais que se desbancam de todos os lugares da Grande São Paulo para manter em seus filhos um pouco do clima natalino.  

“Quanto mais lúdico melhor”, resume o espírito do passeio, Milene Ribeiro, 41, que com seu marido Adão Nunes, 40, saiu do Limão, na zona norte, para levar os gêmeos Gabriel e Talita, 10,para ver Papai Noel. 
 
Guarda-chuvas abertos, Núbia Chama, 37, e Diego Lourenço, 36, vieram de Mairiporã, na Grande São Paulo, só para levar a filha à atração. Afinal, “criança não quer saber se está chovendo”, diz o pai. 

Mas tem quem queira. Entre eles, Marcelo da Silva, 33, um dos quatro pipoqueiros a se proteger e lamentar a chuva. Não fosse ela, o dia lhe renderia cerca de R$ 300 por ali. O sábado molhado, no entanto, deveria —com sorte—reduzir seu faturamento para cerca de um terço e, se continuasse semana adentro, impactar o Natal da família. 

De guardadores de carro, vendedores diversos, meninos que pedem no semáforo, até Noel e noeletes, uma cadeia econômica se forma em terras canadense-paulistanas. 

Millena Paraguassu, 20, e Suélen Galvão, 34, fizeram suas estreias como auxiliares de Papai Noel neste ano. Entre as responsabilidades, estão as fotos de pais e filhos com o Bom Velhinho. 

Se Millena ainda está prestando vestibular, Suélen já é profissional de eventos. Mãe de dois, ela é sorridente com as crianças, mas séria com os adultos. Parece ser ela quem mantém a ordem na fila para sentar no colo de Noel. “Sou firme”, afirma a modelo sobre os possíveis avanços dos pais para furar a fila.

Entre flashs e filas, três garotos negros parecem alheios à festa. Estão mais interessados em destravar, sem pagar, as patinetes verdes de aluguel deixados ali na calçada.  

São dois irmãos, de 10 e 11 anos, e um primo, de 13. Eles, que dizem morar no Capão Redondo, na zona
sul, pedem dinheiro na esquina com a avenida Brasil. “Isso aí não é pra gente, não. É coisa de filho de rico”, diz o mais velho. 

A neve de galão volta a cair, os meninos sobem nas patinetes e cortam a trânsito em direção ao semáforo.

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