Doria se diz chocado com agressões, recua e promete revisar protocolo da PM

Após repercussão de mortes em Paraisópolis, tucano muda o tom de declarações

São Paulo

Dizendo-se chocado com um vídeo que mostrou agressões de um policial a jovens em um baile funk, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), recuou e afirmou nesta quinta-feira (5) que vai revisar os protocolos da Polícia Militar. 

O governador afirmou que os casos de violência desproporcional praticada pelos policiais devem ser punidos. "Isso é incompatível com o respeito à corporação", afirmou. "É uma circunstância inaceitável que a melhor polícia do Brasil utilize de violência ou de força desproporcional, sobretudo quando não há nenhuma reação de agressão."

Nove jovens morreram, aparentemente pisoteados, em um baile funk na favela de Paraisópolis, na capital paulista, na madrugada de domingo (1º). Ainda há várias dúvidas sobre o episódio; a polícia diz que perseguia uma moto que entrou no baile e atirou nos PMs, causando pânico e correria. Já moradores dizem que a polícia fechou os acessos à rua em que acontece o baile e agrediu frequentadores, fazendo com que se aglomerassem em vielas, onde ocorreram os pisoteamentos.

O vídeo a que o governador se refere foi revelado alguns dias depois das mortes e, segundo a polícia, foi gravado em outro baile em Paraisópolis em outubro. As imagens mostram um policial agredindo jovens que passam com uma barra.

A reação de Doria ocorre após uma semana de revelações de violência policial em bailes funk em São Paulo e protestos contra abusos. A mudança também se dá após o ministro da Justiça de Jair Bolsonaro (PSL), Sergio Moro, afirmar que houve falhas graves do caso —o ex-juiz já foi condecorado pelo governador com a mais alta honraria do estado. 

Inicialmente, Doria havia afirmado que não mudaria o modo de agir da polícia. “A política de segurança pública não vai mudar. As ações na comunidade de Paraisópolis e em outras comunidades de São Paulo, seja por obediência da lei do silêncio, por busca e apreensão de drogas ou fruto de roubos, vão continuar. A existência de um fato não inibirá as ações de segurança. Não inibe a ação, mas exige apuração”, afirmou Doria em entrevista na segunda-feira (2)

Agora, o tucano adotou um tom totalmente diferente. "Como governador do estado de São Paulo, eu não aceito que no estado onde, tendo sido eleito governador, esse tipo de procedimento exista. E não mais vai existir", afirmou Doria nesta quinta-feira (5) durante entrevista coletiva. "Ou pelo menos faremos tudo para que isso não aconteça. E revisar protocolos, revisar treinamentos e comandos para que nenhum policial militar aja dessa maneira".

O tucano citou o caso do vídeo do policial que, com uma barra, atinge jovens. "Eu mesmo fiquei muito chocado quando vi as imagens que não eram de Paraisópolis agora, num outro momento, de outubro, onde um policial militar agredia jovens que estavam saindo, não sei se de uma sala ou de uma área, desnecessariamente, gratuitamente", disse. 

Especialistas afirmam ver erros no procedimento da polícia no incidente que terminou com as mortes em Paraisópolis. Se o objetivo era perseguir os supostos criminosos de moto e não dispersar a multidão, como afirma a PM, usar armas não letais não seria a melhor estratégia. Caso o objetivo fosse a dispersão, seria preciso deixar rotas de fuga desobstruídas.

Doria recebeu manifestantes na noite de quarta-feira (4). O grupo permaneceu cerca de duas horas no palácio. Na reunião, segundo a nota do governo, entre outros, estavam integrantes da Comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), o presidente do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), Dimitri Sales, o secretário da Segurança Pública, general João Camilo Campos, e o líder comunitário de Paraisópolis, Gilson Rodrigues. 

O grupo definiu que um novo encontro será realizado no Palácio dos Bandeirantes na próxima segunda-feira (9), com a presença do governador e de parentes das nove vítimas.

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