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Ministério Público vai investigar mortes em baile de Paraisópolis como homicídios

Nove jovens morreram após intervenção da PM em pancadão de comunidade da zona sul

São Paulo | Agora

O Ministério Público de São Paulo está investigando como homicídio as nove mortes ocorridas no domingo (1º) em um baile funk na favela de Paraisópolis, na zona sul da capital. 

Os nove jovens, com idades entre 14 e 23 anos, teriam morrido pisoteados após uma intervenção da Polícia Militar no local. Familiares das vítimas e participantes do baile, no entanto, contestam essa versão.
“Designei a promotora do júri para fazer a apuração a respeito dos homicídios que ocorreram em Paraisópolis”, disse nesta terça (3) o procurador-geral de Justiça, Gianpaolo Smanio. “Ela vai acompanhar as investigações.”

Enterro de Denys Henrique Quirino da Silva, 16, uma das nove pessoas mortas após confusão em baile funk em Paraisópolis
Enterro de Denys Henrique Quirino da Silva, 16, uma das nove pessoas mortas após confusão em baile funk em Paraisópolis - Danilo Verpa/Folhapress

Em depoimento, seis policiais militares, que foram afastados dos serviços de rua, disseram que perseguiam dois suspeitos em uma motocicleta. Segundo eles, a pessoa na garupa teria atirado contra os PMs e provocado pânico —o baile reunia cerca de 5.000 pessoas. Frequentadores, porém, negam os tiros e disseram que foram encurralados.

O procurador evitou apontar excessos da PM na ação. “Ninguém gosta de nove mortes; agora, a forma de lidar com isso é fazer uma apuração dos fatos”, afirmou. A apuração, que deve durar 30 dias, será conduzida pela promotora Soraia Bicudo Simões, do 1º Tribunal do Júri.

Smanio afirmou que ocorrerá uma mediação com a participação de comunidades e representantes do poder público, mas não detalhou a ação. O procurador evitou falar do protocolo de atuação da PM. “Vamos avaliar para que a violência não tenha escalada.”

Reportagem da Folha publicada nesta terça mostrou que há divergências nos depoimentos de policiais que participaram da operação. A polícia afirma que a tragédia ocorreu quando criminosos entraram com uma moto na aglomeração do baile e fizeram disparos contra os policiais. Isso teria provocado pânico no público, correria e empurra-empurra —e então as quedas e o pisoteamento.

Mas parte dos depoimentos de policiais aponta que, após os frequentadores do baile funk atirarem objetos contra policiais de moto, estes teriam conseguido deixar a favela sem maior confronto. Só depois, segundo esses depoimentos, os agentes teriam voltado ao local e usado cassetete e munição química para dispersar a multidão.

Relatos de moradores indicam que os policiais fecharam ambos os lados da rua Ernest Renan, onde ocorria o baile. Ao disparar munição não letal e dar golpes de cassetete, teriam induzido a multidão a ir para duas vielas estreitas. Em uma delas, segundo esses relatos, houve o pisoteamento. Os moradores afirmam não ter visto nenhuma perseguição.

Segundo a polícia, os suspeitos não foram presos nem tiveram a moto apreendida —munições suspeitas, porém, foram recolhidas. Outros pontos do incidente também não estão claros. Os principais deles são como os nove jovens morreram, se pisoteados ou por alguma outra causa —o que só será esclarecido por laudos dos legistas— e por que o baile continuou por ao menos cinco horas após as mortes.

Vídeo mostra agressão de PM em baile em outubro

A Polícia Militar afirmou nesta terça-feira (3) ter identificado um policial que aparece em imagens veiculadas em redes sociais agredindo frequentadores de um “pancadão” na região de Paraisópolis com uma barra —não é possível determinar se de madeira ou de metal. 

A corporação nega, porém, que esse caso tenha ligação com o incidente do domingo (1º), quando nove pessoas morreram e 12 ficaram feridas após uma operação policial na favela.

Em nota, a PM afirma que as cenas foram gravadas no dia 19 de outubro, também em Paraisópolis, durante uma operação para impedir a realização de um baile funk. O soldado, que não teve o nome divulgado pela corporação, pertence ao batalhão (16º) daquela região.

Segundo o comando da corporação, o policial foi afastado, e foi instaurado IPM (Inquérito Policial Militar) para apurar possível abuso de autoridade praticado pelo policial. Outros policiais que não impediram o PM de praticar as agressões também serão investigados.

O governador de São Paulo, João Doria, disse em rede social nesta terça-feira que, ao tomar conhecimento do episódio, exigiu punição exemplar do policial e afirmou que esse tipo de prática é condenada.

O procurador Gianpaolo Smanio declarou estar preocupado com vídeos que supostamente mostram agressões de PMs a frequentadores do baile. “Os vídeos mostram agressões, uma atuação [da PM] que precisa de investigação, mas sabemos que eles devem ser periciados.”

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