Moradores do Rio apoiam corte de verba pública para escolas de samba

Pesquisa Datafolha mostra que a medida tem apoio mais forte entre os eleitores evangélicos

Rio de Janeiro

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), tem amplo apoio dos eleitores da cidade para o fim do repasse de verbas públicas para escolas de samba, aponta pesquisa do Datafolha divulgada nesta segunda-feira (16).

O levantamento mostra que 60% dos eleitores da cidade dizem ser contra que as agremiações recebam dinheiro da prefeitura para os desfiles. Já 35% se disse a favor—o restante se declarou indiferente (3%) ou não saber (2%).

O Datafolha entrevistou 872 pessoas com mais de 16 anos entre quarta-feira (11) e sexta-feira (13) na cidade do Rio de Janeiro. A margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais.

​Crivella decidiu em seu primeiro ano de governo reduzir o repasse de dinheiro público para as escolas. Na gestão de seu antecessor, Eduardo Paes (DEM), elas recebiam R$ 2 milhões cada.

“O Carnaval é um bebê parrudo que precisa ser desmamado e andar com as próprias pernas”, costuma repetir o prefeito do Rio de Janeiro.

As agremiações afirmam que a ausência da contribuição pública ameaça a realização do desfile na Marquês de Sapucaí.

Por exemplo, ainda não está certo quem pagará por serviços como limpeza, segurança, iluminação e atendimento médico no sambódromo.

Assim como os subsídios às agremiações, era a prefeitura que custeava essas atividades. Em julho, porém, Crivella decidiu proibir que órgãos públicos invistam ou prestem serviços gratuitos em eventos com venda de ingressos. Quem teria que fazer isso seriam os próprios organizadores, como já acontece com o Rock in Rio.

No segundo ano de governo, Crivella cortou à metade o valor investido na gestão de Eduardo Paes. Este ano, foram repassados R$ 500 mil. A intenção do prefeito é zerar esse custo para os cofres municipais no ano que vem.

A medida tem apoio mais forte entre os eleitores evangélicos, principal base eleitoral de Crivella. Neste grupo, 79% são contra o uso de verba pública em escolas de samba.

O prefeito também encontrou apoio para outra medida administrativa tomada recentemente. O fim do pedágio da Linha Amarela é apoiado por 71% dos eleitores do Rio de Janeiro, enquanto 24% se dizem contrários à medida.

Crivella está em conflito aberto com a concessionária da via expressa desde o início do ano, quando passou a apontar irregularidades na renovação do contrato com a empresa, feito pela gestão Paes.

Ele alega que, nos 20 anos de cobrança de pedágio na via, a empresa causou um prejuízo ao município de R$ 1,6 bilhão. Ele também acusa a empresa de irregularidades, em uma disputa que começou no início de sua gestão, em 2017.

Uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) conduzida na Câmara Municipal endossou a decisão do prefeito, apontando também irregularidade no acordo de ampliação do prazo de concessão. Dois terços (66%) dos entrevistados disseram ter conhecimento da decisão de Crivella.

O levantamento, contudo, mostra que a maioria dos eleitores reprova a decisão da prefeitura de destruir, com retroescavadeiras, a praça de pedágios da Linha Amarela. Após decidir encampar a concessão—decisão revertida na Justiça—, Crivella destruiu cabines e cancelas do local.

Mais uma vez, o prefeito encontra mais apoio entre evangélicos. Neste grupo, 52% apoiaram a medida, contra a rejeição de 43%.

A pesquisa mostra ainda uma divisão frente à censura imposta pelo prefeito à história em quadrinhos “Vingadores: a cruzada das crianças”, que tinha uma imagem de dois homens se beijando, na Bienal do Livro. Metade (50%) considerou que Crivella agiu mal ao recolher a obra. Outros 45% apoiaram a decisão.

Assim como nos demais levantamento, o apoio à medida tomada pelo prefeito é maior entre evangélicos. Dois terços (67%) consideraram que ele agiu bem ao retirar o livro de circulação.

O Datafolha aponta que 78% dos eleitores tomaram conhecimento sobre o recolhimento da obra na bienal.
Crivella entrou no centro de uma polêmica no dia 5 de setembro quando divulgou em suas redes sociais que a HQ “Vingadores – A Cruzada das Crianças”, com a imagem de um beijo gay, afrontava o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Por isso, segundo o prefeito, o livro deveria ser recolhido.

Em entrevista à Folha, uma semana depois, ele disse que tomou a decisão não por causa do beijo, mas sim por diálogos que, a seu ver, ofenderiam o ECA.

O prefeito citou que um dos mocinhos fala em “rebolar o bumbum”, quando, na verdade, o diálogo no quadrinho traz “levantar o traseiro daí”, expressão como “vamos logo”.

Crivella chegou a mandar fiscais da prefeitura até o evento para retirar de circulação títulos impróprios, entre eles, a HQ “Vingadores”. Depois disso, a tentativa de censura caiu numa guerra de decisões judiciais contra e favoráveis ao prefeito.

O imbróglio só chegou ao fim quando o ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, mandou suspender qualquer operação de recolhimento. “O regime democrático de direito pressupõe um ambiente de livre trânsito de ideias”, escreveu Toffoli em seu despacho.

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