Primeira novidade do Pacaembu será galeria internacional de arte

Representante de artistas como Ai Weiwei, Anish Kapoor e Cildo Meireles terá filial no estádio

São Paulo

A linhagem de artistas que fez história no Pacaembu, de Pelé e Garrincha a Ronaldo e Romário, deve ganhar a companhia inesperada de craques como os chineses Ai Weiwei e Cai Guo-Qiang, o indiano Anish Kapoor, o francês Daniel Buren e o brasileiro Cildo Meireles

O projeto que inaugurará a nova fase do estádio, que será administrado pela iniciativa privada por 35 anos, será a instalação de uma galeria de arte contemporânea de renome internacional.

A Galleria Continua, originalmente instalada em San Gimignano, na Itália, com filiais na China, em Cuba e na França, espalhará obras de artistas que representa pelo estádio. Trata-se de galeria marcada por seu trabalho com arte contemporânea, sendo responsável por representar figuras como as listadas acima.

O diretor da Continua, Akio Aoki (esq.), e o empresário Eduardo Barella discutem projetos para o Pacaembu
O diretor da Continua, Akio Aoki (esq.), e o empresário Eduardo Barella discutem projetos para o Pacaembu - Marlene Bergamo/Folhapress

À frente da operação da galeria está Akio Aoki, sócio e diretor da Continua no Brasil e ex-diretor da galeria Vermelho. A presença da galeria no Pacaembu não se restringirá ao formato clássico do cubo branco, ou seja, obras de arte expostas em salão marcado pela neutralidade —sem janelas, com paredes pintadas em tom claro, com a obra isolada do mundo exterior.

Em interlocução com Eduardo Barella, diretor-presidente da empresa de engenharia Progen e presidente do consórcio Allegra Pacaembu, que assumirá totalmente a operação do estádio pelas próximas décadas, Aoki distribuirá obras de arte pelas arquibancadas, pelos restaurantes, pelas piscinas, pelo gramado. O empresário tem sido receptivo às ideias por ser colecionador de arte contemporânea.

Barella diz que as "possibilidades são infinitas" e que haverá diálogo com a agenda esportiva e cultural da cidade e do Pacaembu. Com Aoki, ele já pensa, por exemplo, em alguma intervenção artística no fundo da piscina do complexo, para que os praticantes consigam apreciá-la enquanto mergulham.

A referência é a obra "Piscina", do artista argentino Jorge Macchi, presente no Inhotim, em Brumadinho (MG), e que é representado pela Continua.

Obra de Jorge Macchi no Instituto Cultural Inhotim, em Brumadinho (MG)
Obra de Jorge Macchi no Instituto Cultural Inhotim, em Brumadinho (MG) - Pedro Motta/Divulgação

O indiano Subodh Gupta deverá ser convidado para pensar em intervenção em algum dos restaurantes do estádio. Sua obra "Cooking the World", de 2017, criava uma cabana a partir de utensílios de cozinha feitos de alumínio. Dentro dela era servido um banquete em performance sobre o potencial da comida na acolhida das pessoas.

"Isso é um pouco a linha da arte contemporânea: discutir o problema das barreiras e como atravessá-las", diz Barella.

A primeira obra a ser colocada no estádio já em janeiro deverá ser "Reflexo Estrutural", do paulista Marcelo Cidade. Ela é formada por 15 pilhas de blocos de concreto, canos de ferro de viga metálica que faziam parte de um edifício modernista dos anos 1950 e canos de PVC.

A ideia é promover, a partir da obra de Cidade, uma discussão sobre essa nova fase do Pacaembu, as reformas que serão feitas no estádio, a demolição do tobogã e a relação de São Paulo com sua história.

Obra de Marcelo Cidade que deverá ser apresentada no estádio do Pacaembu
Obra de Marcelo Cidade que deverá ser apresentada no estádio do Pacaembu - Edouard Fraipont/Divulgação/Galeria Vermelho

"Ele fala sobre as nossas construções antigas, já envelhecidas e não restauradas, e sim substituídas por plásticos, levantando assim questões sobre a herança arquitetônica ou cultural", diz Aoki.

"Queremos trazer e juntar os artistas com uma plataforma como o Pacaembu, onde 30 mil pessoas vêm assistir a um jogo de futebol, e tentar fazer com que isso se junte a pensamentos questionadores e estéticos", completa, destacando que a escolha da obra de Cidade deveu-se, inclusive, pela capacidade que tem de provocar uma reflexão crítica sobre a própria nova fase do complexo.

A Continua tem histórico de se instalar em locais peculiares. Em San Gimignano, pequeno vilarejo medieval no sul da Toscana, a galeria está em um cinema abandonado. Em Havana, estabeleceu-se em sala de cinema dos anos 1950. Na França, em zona rural a 70 km de Paris, ocupou uma fábrica que estava desativada, assim como em Pequim. São "locais disruptivos", resume Barella.

Aoki diz que mostrou imagens do espaço do Pacaembu para Anish Kapoor recentemente, na China, e que o indiano ficou impressionado. No entanto, ressalta o diretor da galeria, negociações com medalhões envolvem grandes equipes e estruturas e costumam levar até anos para ganharem concretude.

Aoki valoriza a autonomia da agenda artística que terá à frente da galeria no Pacaembu. Ele estará liberado, diz, de seguir a tradicional rotina das galerias de ter cinco ou seis exposições no ano.

O compromisso, diz ele, é o de acompanhar a agenda esportiva e cultural da cidade. "Podemos deixar uma obra ali por seis meses, ver se a população gosta, entender como é recebida, e trocar depois", afirma Aoki.

Começar o novo momento de gestão privada do Pacaembu com a instalação de uma galeria é propício para a empresa Progen. A reforma do estádio começará apenas no segundo semestre de 2020 e até lá a administradora não pode fazer grandes intervenções sem a aprovação de órgãos de patrimônio, já que o Pacaembu é tombado. 

Como não demandará mudanças estruturais no espaço, a galeria poderá instalar suas obras sem obstáculos.

Quando o Pacaembu fechar para as reformas, algumas obras continuarão a ser exibidas em locais em que não existam limitações de segurança. Por fim, quando o Pacaembu for reinaugurado, em 2022, segundo previsão do consórcio, a galeria terá um escritório fixo e as obras continuarão a ser distribuídas pelo complexo.

Barella diz que não terá qualquer ingerência sobre o conteúdo escolhido pela galeria nem retorno financeiro com as atividades promovidas por ela, como a venda de obras. Será uma locatária como qualquer outra, afirma —uma locatária pela qual ele demonstra apreço especial.

"[A galeria no estádio] vai remontar o conceito original de um complexo de cultural e de lazer do Pacaembu. Me incomoda bastante falarem que será um shopping. O que queremos se assemelha muito mais a um grande parque público", completa.

A população provavelmente verá os primeiros resultados dessa parceria a partir de janeiro, quando acontece a Copa São Paulo de Futebol Júnior. A final do torneio, como de costume, será realizada no dia 25 de janeiro no estádio do Pacaembu.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.