Uma semana após mortes, baile em Paraisópolis tem homenagem e clima tenso

Esvaziado, pancadão ainda atrai jovens que tomam uísque com gelo de coco e fazem dança do umbrella

Baile DZ7, em Paraisópolis, zona sul de São Paulo, uma semana após as nove mortes no local

Baile DZ7, em Paraisópolis, zona sul de São Paulo, uma semana após as nove mortes no local Marlene Bergamo/Folhapress

São Paulo

“Só de pensar que nunca mais eu vou te ver, dói. Que mundo é esse tão cruel que a gente vive? A covardia superando a pureza. O inimigo usa forças que oprimem. É, vai na paz, irmão, fica com Deus, eu sei que um dia vou te encontrar. Valeu menor, espera eu chegar.” 

Na madrugada deste domingo (8), o baile da DZ7, em Paraisópolis, estava diferente. Por um minuto, o que se ouviu foi o completo silêncio, ao serem desligadas as caixas de som que ressoavam os muitos decibéis da batida do funk.

Ecoaram os nomes dos nove jovens mortos ali há exatamente uma semana: Gustavo Cruz Xavier, 14; Dennys Franca, 16; Marcos Paulo Oliveira, 16; Denys Henrique Quirino, 16; Luara Victoria Oliveira, 18; Gabriel Rogério de Moraes, 20; Eduardo da Silva, 21; Bruno Gabriel dos Santos, 22; e Mateus dos Santos Costa, 23, na voz dos presentes, tão jovens quanto os mortos. 

Em seguida, entoaram a letra de “Espera Eu Chegar”, de MC Kevin o Chris e MC Cajá, citada no início deste texto. 

Naquele 1º de dezembro, uma ação da polícia interrompeu a festa que reunia mais de 5.000 pessoas. A PM afirma que agiu após uma moto furar um bloqueio, entrar no baile e atirar contra os agentes, que teriam reagido. Imagens e relatos, no entanto, indicam que a multidão acabou encurralada em duas vielas estreitas pelos policiais, entre bombas de gás e golpes de cassetete. 

O episódio espantou parte do público, que era neste domingo (8) de cerca de um quinto do habitual. Nos dias mais cheios, o baile da DZ7 se encontra com outro, o baile do Bega, que acontece na rua paralela à Ernest Renan. Dessa vez, o caminho estava livre entre os dois eventos.

Outra prova de que o movimento estava fraco quem dá é o comerciante Lourival, 55. Ele chega a faturar R$ 500 com a venda de bebidas num dia bom de festa. Neste domingo, fechou a noite com só R$ 143 no bolso.  

Ainda assim, não foi difícil achar quem viesse de longe para curtir o rolê na segunda maior favela de São Paulo, a exemplo dos amigos Alan, 21, Rafael, 18, e Thalyta, 20, de Taboão da Serra (Grande SP), a mais de uma hora de ônibus dali. 

“A semana é pesada, cheia de problema. Esse é o momento de curtir, de esquecer”, diz o cabeleireiro Alan, para quem o baile estava seguro naquela noite. “A polícia não vai fazer nada hoje”, era coro repetido por ele e por muitos. Não havia viatura dentro da favela, mas o policiamento foi reforçado no entorno.

 

A cuidadora de idosos Thalyta, que é figura frequente no baile da DZ7, diz que já correu dos PMs algumas vezes na dispersão do evento, mas que sempre evitou as vielas. Em uma ocasião, sua amiga foi atingida por um disparo de bala de borracha na coxa. “Mas ainda não era época de todo mundo ter celular e filmar. Então ninguém acreditava.” Na semana passada, ela desistiu de última hora da ida a Paraisópolis.

No copo dos três, a mistura que toma conta do baile: uísque, energético e gelo de coco.

Outra sensação é a dança do umbrella. Sim, a ideia é sacudir o guarda-chuva para cima e para baixo fazendo vento. Num grupo de cinco garotos, todos da Grande SP, cada um tinha o seu. 

Eles dizem que o objeto serve para ostentar e é infalível também na paquera. Um modelo da Nike, por exemplo, chega a custar R$ 250. Outro disputado é o da Oakley. “Tem uns de R$ 5.000, mas aí a gente não pode pagar, né?!”, diz Ryan Gustavo, 17. 

Difícil é quando a polícia quebra os guarda-chuvas. Já aconteceu, eles contam, em outro baile famoso da capital, o da Marcone, na Vila Maria (zona norte).

As mães, o grupo admite, ficam preocupadas. Mas acabam deixando que eles vão. “Não tem baile nem nada lá em Arujá e Taboão. Só tabacaria”, reclama Jorge Marques, 17.

Pela primeira vez, o pároco de Paraisópolis, padre Luciano Borges, esteve no baile. Outros religiosos também marcaram presença. 

Ele diz que há dois anos a própria paróquia São José, a cerca de 500 metros dali, foi alvo da violência policial. “Um soldado disse que o baile e a igreja eram a mesma coisa e quis entrar sem autorização. Nos tratou como se fossemos de altíssima periculosidade”, conta Luciano.

O padre critica a realização do evento na rua onde moram famílias. “Aqui onde está, o baile é nocivo para quem vive no entorno”, diz, defendendo que haja uma outra forma de organização para a festa, que é uma expressão cultural da favela.

Já sobre a presença dos agentes, “será sempre bem-vinda, mas só se for com respeito à comunidade e, mais ainda, à pessoa humana. Com a truculência, a PM acaba deixando um rastro de morte. Eles querem acabar com o quê? Com quem?”, pergunta o padre.

Moradora há 30 anos da rua que há nove abriga o baile da DZ7, a aposentada Berenice da Silva, 70, diz que não troca o endereço. “Acho até bonito as meninas dançando.” 

Ela perambula pela ruas de Paraisópolis nos dias do pancadão, já que não consegue dormir. Na última semana, conta ter assistido de camarote à ação da PM, que a fez passar mal. “A gente precisa de polícia, mas não para espancar a molecada. Por que eles não vão atrás de estupradores?”

As paredes de uma das vielas onde caíram mortos os jovens agora têm mensagens e grafites como “parem de nos matar” e “não acredite em contos de fardas”. Na rua, uma faixa: “A impunidade está entalada na garganta”. Parte do baile vestiu branco naquela noite, em camiseta com os dizeres “Paraisópolis pede paz. Luto”.

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