Descrição de chapéu Folha Verão

Bucólico e charmoso, vilarejo do Piauí atrai turistas em busca da 'nova Jeri'

Localidade de Barra Grande fica a 170 km da badalada praia no Ceará e atrai fãs de esportes náuticos

Pessoas estão no mar, durante o entardecer, praticando kitesurf; eles parecem voar sobre a água

Kitesurfistas durante final de tarde na praia de Barra Grande. Adriano Vizoni/Folhapress

Cajueiro da Praia (PI)

As ruas são de areia, os kitesurfistas se destacam no mar e há restaurantes para todos os gostos e bolsos. A descrição poderia ser de Jericoacoara, no Ceará, hoje um dos destinos mais badalados do litoral brasileiro, mas uma praia a 170 km, já no estado vizinho do Piauí, tem recebido fãs de esportes náuticos e turistas que já a apelidaram de a nova Jeri. 

Para algumas pessoas que decidiram criar raízes por lá, entretanto, Barra Grande não é a nova, mas a antiga Jeri. A história do turismo na vila de praia piauiense que pertence ao município de Cajueiro da Praia se mistura com a de Jericoacoara.

Ex-moradores de Jeri ajudaram a iniciar o turismo em Barra Grande em 2005, após uma viagem de reconhecimento. A praia do Ceará já crescia de maneira desordenada, com muitos restaurantes e pousadas em uma concorrência que aumentava mês a mês.

"Viemos em três casais, vimos potencial e decidimos sair de lá e mudar para cá. Hoje são 38 pousadas já em Barra Grande, mas as pessoas ainda se olham no olho para conversar", conta o empresário paulista Luiz Guilherme Miranda, 50.

Ele abriu com a mulher, Gislaine Gregório, 43, e amigos o primeiro um restaurante. A avaliação foi que os turistas não comprariam roupas, bugigangas, mas precisariam se alimentar. 

Por ali existia apenas uma pequena pousada, que recebia na maioria kitesurfistas de fora do Brasil que aproveitavam o vento da região para praticar o esporte que tem uma prancha e uma pipa (que mais lembra um para-quedas quando está aberto). Barra Grande já era na metade da década passada um lugar mais barato do que Jeri para se praticar o kitesurf, por exemplo.

"Em Jericoacoara arrendávamos uma pousada, que depois foi vendida. Pegamos uma menor, mas estava difícil. A decisão de vir a Barra Grande partiu daí", contou Gregório.

O ponto é estratégico para o turismo por um motivo: é a porta de entrada do Delta do Parnaíba para quem chega do Ceará. Barra Grande está a 70 km de Ilha Grande, cidade vizinha a Parnaíba, a segunda maior do Piauí, e onde fica o porto de onde saem os passeios de barco que navegam pelas ilhas do encontro do rio Parnaíba com o mar —há também visitas no delta a partir de Tutóia, já no Maranhão. Para ir de Jericoacoara ao Delta é preciso portanto passar por Barra Grande. 

A Barra Grande que Guilherme e Gislaine, que hoje têm uma pousada, encontraram 14 anos atrás está bem diferente. Há iluminação em boa parte das ruas, que ainda são de areia —​em algumas delas, as luzes foram colocadas pelos moradores.

Há água encanada, mas muitas casas e pousadas ainda usam poços artesanais, e 100% ainda precisam de fossas para o saneamento básico. Jericoacoara, por exemplo, hoje tem iluminação em todas as ruas principais e rede de esgoto.

O kitesurf foi o que levou o belga Hervé Witmeur, 32, a Barra Grande. Primeiro ele passou pelo óbvio destino de Jericoacoara, mas amigos indicaram um local mais tranquilo para a prática do esporte.

Witmeur, que estudava gastronomia, inspirado pelo pai, chef de cozinha, se encantou pela culinária local e decidiu ficar. 

Em 2012, abriu na praia um restaurante e, sete anos depois, fez o caminho inverso dos desbravadores de Barra Grande: inaugurou um restaurante de luxo em Jericoacoara. Hoje vive 80% do tempo no Ceará.

"É bom para as crianças [tem dois filhos, o menor nascido no Brasil] porque Jericoacoara tem uma estrutura melhor. Mas Barra Grande é um lugar mais tranquilo. Por isso os restaurantes têm perfis diferentes, para dois lugares que são parecidos, mas diferentes", disse Witmeur.

No primeiro final de semana de dezembro, um festival de gastronomia, chamado Begê Sabor, ocorreu em Barra Grande. Chefs conhecidos como o paraense Thiago Castanho estiveram por lá, mas o público, segundo a organização, foi prioritariamente da região. Mais de 80% dos visitantes moravam em Cajueiro da Praia ou cidades próximas, como Chaval (já no Ceará) ou Luis Corrêa.

"Conheço Jeri, mas aqui é bem mais tranquilo, Tomara que não se transforme em alguns anos na loucura que está lá no Ceará", disse o cearense Edvaldo Pereira Santana, 45, músico que sempre quando pode visita Barra Grande.

Há expectativa na região de como a provável privatização do Parque de Nacional de Jericoacoara pode afetar o turismo em Barra Grande. Se os preços encarecerem ainda mais em Jeri, é possível que praticantes de kitesurf e mesmo turistas que gostam de sol e mar rodem um pouco mais na estrada para chegar ao Piauí.

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