PCC realiza fuga em massa em prisão no Paraguai, e 75 conseguem escapar

Episódio ocorreu em Pedro Juan Caballero, na fronteira com Mato Grosso do Sul

São Paulo

Setenta e cinco presos, a maioria membros do PCC (Primeiro Comando da Capital), fugiram na madrugada deste domingo (19) de uma prisão em Pedro Juan Caballero, no Paraguai. 

A facção brasileira tem forte atuação no país vizinho, devido ao tráfico de drogas. 

A polícia encontrou um túnel que ligava um dos pavilhões, voltados a presos do PCC, à área externa da prisão. O governo paraguaio, no entanto, considera que parte dos criminosos possa ter fugido durante a semana sem usar o túnel. 

A ministra da Justiça do Paraguai, Cecilia Pérez, ordenou a destituição do diretor da penitenciária e de outros funcionários. A suspeita é que a facção criminosa tenha comprado a sua fuga —circulam informações, segundo a ministra, de que o pagamento pode ter sido de US$ 80 mil. 

"Foi encontrado um túnel e acreditamos que esse túnel foi um recurso enganoso para legitimar ou maquiar a liberação dos presos. Há cumplicidade com as pessoas de dentro da prisão e esse é um fenômeno que acontece em todas as penitenciárias", afirmou o ministro do Interior do país, Euclides Acevedo, em nota.

Sacos de areia encontrados em cela, após fuga de integrantes do PCC no Paraguai
Sacos de areia encontrados em cela, após fuga de integrantes do PCC no Paraguai - Reprodução

De acordo com ele, o país está em alerta máximo, pois os presos são de grande periculosidade. Segundo o ministro, entre os 75 presos — e não 91, como divulgado inicialmente pela imprensa paraguaia —a maioria é de integrantes do PCC. 

O governo informou que 40 presos são brasileiros e os demais, paraguaios. O ministro afirmou que é possível que alguns dos detentos tenham fugido para o Brasil. 

A ministra da Justiça afirmou que colocará seu cargo à disposição. "A responsabilidade política do ministério é minha", disse, em coletiva de imprensa. "O presidente tomará a decisão".

No começo da tarde, o ministro da Justiça e Segurança Pública do Brasil, Sergio Moro, afirmou que trabalha com as forças de segurança para impedir a entrada dos criminosos no Brasil, e que, caso sejam capturados, serão levados a presídios federais.

"Estamos trabalhando junto com as forças estaduais para impedir a reentrada no Brasil dos criminosos que fugiram de prisão do Paraguai. Se voltarem ao Brasil, ganham passagem só de ida para presídio federal", escreveu Moro no Twitter.

O Ministério da Justiça afirmou que alertou a Polícia Federal, principalmente no Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, relativa a operação Horus, que atua na fronteira. O setor de inteligência já difundiu alerta por seus canais. Além disso, foi pedida a relação de foragidos. 

O governo do Mato Grosso do Sul informou que enviou cerca de 200 policiais para reforçar a segurança da fronteira

Pelo menos seis dos 75 foragidos são ligados ao traficante Sérgio de Arruda Quintiliano Neto, mais conhecido como Minotauro, considerado pelas autoridades policiais como um dos chefes do tráfico na região de fronteira.

Segundo a Polícia Federal, Minotauro comandava o narcotráfico na região até ser preso em fevereiro de 2019 em um apartamento de luxo em Balneário Camboriú (SC). É suspeito ainda de matar um policial civil e uma advogada.

Da lista de foragidos, Wilian Benjamin Gonzales Salinas, Felipe Diogo Fernandes, Marcos Paulo Valdez, Júlio César Gomes, Ailton Botelho dos Santos e Lucianno de Souza Martinez foram presos em Pedro Juan Caballero dois dias depois da prisão de Minotauro no Brasil, em 7 de fevereiro do ano passado.

Além deles, outros foragidos já figuravam no noticiário local. Timoteo David Ferreira, Allan Gabrecht dos Santos, Luis Antonio Varela da Silva e Laurindo de Souza Neto foram presos em maio de 2017 com um arsenal com coletes a prova de balas e três fuzis (inclusive um AK47). Eles tinham uma mansão como escritório do crime.

RETORNO

Para o pesquisador Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, a fuga no Paraguai é uma espécie de retorno ao que a facção fazia nos anos 1990 em São Paulo.

"O lema do PCC é 'paz, justiça e liberdade'. A fuga sempre foi ponto de honra. Essas fugas aconteciam muito aqui em São Paulo no começo dos anos 1990, com tecnologia de túneis. Com os presídios de segurança máxima, isso ficou mais difícil. A inteligência mudou para assalto a banco", afirma ele.

Paes Manso é um dos autores do livro “A Guerra: a Ascensão do PCC e o Mundo do Crime no Brasil”. Ele diz que a chegada da facção no Paraguai, a partir de 2008, mudou a dinâmica do crime na região, que tinha até então uma relação mais orgânica. O pesquisador cita Jorge Rafaat Toumani, chefe do narcotráfico em Pedro Juan Caballero, morto pelo PCC em 2016 num ataque que envolveu até o uso de metralhadora antiaérea. “Era uma espécie de governador local”, diz.

“Quando o PCC chega e tem uma postura de confronto, como é no Brasil, isso tem um impacto grande, porque o Paraguai não estava preparado para lidar com isso. E aí o PCC acabou tendo essa brecha para voltar a trabalhar como fazia nos primórdios dos anos 1990, em São Paulo.”

“Chegam num país onde não há todo esse aparato de repressão e violência, tanto das quadrilhas quanto da polícia, e agitam a região. O próprio assassinato do Rafaat foi traumático para o país. E a presença do PCC nas prisões tem causado uma turbulência na política.”

 

PEDRO JUAN CABALLERO

No ano passado, sob o argumento de que há "níveis críticos de violência" e ações da facção criminosa PCC na região, o Ministério Público Federal decidiu fechar o seu prédio em Ponta Porã (MS), na fronteira do Brasil com o Paraguai, e transferir suas atividades para a cidade de Dourados (MS), a 120 km de distância. 

A decisão partiu do Conselho Superior do MPF e foi acompanhada pelo CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público).

Segundo o MPF, o prédio fica a 350 metros da fronteira seca com Pedro Juan Caballero, no Paraguai, "palco de numerosas ações de diversos grupos criminosos organizados, em especial, do PCC [Primeiro Comando da Capital]". 

O órgão público funcionava desde 2003 e hoje conta com três procuradores da República, 15 servidores, seis estagiários e oito empregados terceirizados. Com 92,5 mil habitantes, Ponta Porã é o quinto maior município de Mato Grosso do Sul. 

PCC E O PARAGUAI

Agosto de 2016 - traficante Jorge Rafaat Toumani, 56, é morto a tiros,  no centro de Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia onde morava, em execução planejada pelo PCC. Um traficante que abastecia o PCC e Comando Vermelho, Jarvis Chimenes Pavão,  tomou o controle da região

Abril de 2017 - Criminosos invadiram a sede da transportadora de valores Prosegur em Ciudad del Este, próxima à fronteira com o Brasil, e roubaram cerca de US$ 40 milhões. Crime foi atribuído ao PCC

Dezembro de 2017 - O narcotraficante brasileiro Jarvis Chimenes Pavão, 49, foi extraditado do Paraguai para cumprir pena de 17 e nove meses no Brasil

Julho de 2018 - O brasileiro Eduardo Aparecido de Almeida, 39, considerado o chefe regional do PCC, no Paraguai e Bolívia, é preso em Assunção, capital paraguaia

Novembro de 2018 - O Paraguai expulsa do país o traficante Marcelo Piloto, apontado como um dos líderes do CV,  e o também traficante Rovilho Alekis Barboza, conhecido como Bilão, e integrante da facção criminosa PCC

Fevereiro de 2019 - Considerado pelas autoridades policiais como o chefe do PCC na fronteira do Brasil com o Paraguai, Sérgio de Arruda Quintiliano Neto, conhecido como Minotauro é preso pela Polícia Federal em Balneário Camboriú (SC) 

Abril de 2019 - A Polícia Federal apreendeu cerca de meia tonelada de cocaína no momento em que um helicóptero, que transportava a droga, havia pousado para reabastecer na zona rural de Presidente Prudente (558 km de SP). A organização criminosa que usava o helicóptero buscava a droga no Paraguai

Dezembro de 2019 - Sob o argumento de que há "níveis críticos de violência" e ações da facção criminosa PCC na região, o Ministério Público Federal decidiu fechar o seu prédio em Ponta Porã (MS), na fronteira do Brasil com o Paraguai, e transferir suas atividades para a cidade de Dourados (MS), a 120 km de distância​

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