Cidade do ES é tomada por destruição e vira 'segunda Brumadinho' após enxurrada

Seis dias depois de chuvas, Exército chegou a Iconha e outros municípios no sul do estado

Júlia Barbon Gabriel Lordello
Iconha (ES)

A fala cansada, as mãos calejadas e as roupas sujas de lama refletem o cansaço de uma cidade que tenta se reerguer há quase uma semana. "Acabou tudo" e "perdeu tudo" são as frases que mais se ouvem em Iconha, a uma hora e meia de Vitória (ES).

O município foi o mais atingido pelas chuvas que varreram parte da região sul do Espírito Santo na noite da última sexta (17), deixando sete pessoas mortas, uma desaparecida e mais de  3.000 sem casas. Ela está em estado de calamidade pública, junto a Alfredo Chaves, Rio Novo do Sul e Vargem Alta.

"Queria acordar e ver que tudo é mentira”, conversa uma mulher na calçada. "Isso aqui virou uma segunda Brumadinho", comenta outro enquanto a comunidade tenta, cantinho por cantinho, tirar os litros de água e terra que invadiram, reviraram e destruíram seus imóveis.

A comparação com a cidade mineira atingida há um ano pelo rompimento da barragem tem sentido. O que causou a devastação de Iconha, com 14 mil habitantes, foi uma enxurrada que desceu de uma só vez pelo rio de mesmo nome, alimentada pelo nível altíssimo de chuva na sua cabeceira.

“O rio não entendeu que aqui não era rio. Para ele era tudo rio", define o contador Félix Menegueli, 36, apontando para a rua principal. Só não morreu mais gente porque a "cachoeira" desceu por volta das 20h, quando todos ainda estavam acordados.

"Em dez minutos eu perdi o que construí em dez anos", lamenta a radialista Sheila Cruz, 30. Sem domínio das lágrimas, ela repete a palavra "livramento" para explicar o fato de ter sobrevivido com sua filha de 7 anos porque subiu no terceiro andar de um prédio, que caiu horas depois.

Lá de cima, elas assistiram a dois carros sendo arrastados e ouviram a casa ao lado desabando, sem saber se era a delas porque a energia acabou. Naquela madrugada o escuro foi um dos muitos dramas dos moradores, que só viram a luz voltar um dia depois.

Não falta história de gente que passou horas presa em alguma laje ou rua alta até a água baixar. Ou pior: agarrada a um coqueiro, como um senhor de 70 anos que só desceu de lá completamente nu, ou segurando no batente da janela, como um casal de idosos. Em ambos os casos, só o rosto ficou para fora da água.

Mais de 30 pontes caíram e cerca de 20 bairros ainda estão isolados na região, recebendo comida e mantimentos através dos bombeiros. Só nesta quinta (23) a corporação, com 200 agentes no total, conseguiu começar a ajudar a população na limpeza.

Chegou também pela manhã a tão esperada caravana do Exército. Cerca de 50 militares desembarcaram em Iconha após um pedido da prefeitura. Dias antes, o governo estadual havia dito que eles não seriam necessários, o que causou revolta na população.

A Defesa Civil Nacional, subordinada ao Ministério do Desenvolvimento Regional, diz que técnicos estão na região desde o primeiro dia após as chuvas avaliando os danos e se reunindo com as autoridades locais. Eles agora esperam o estado e o município levantarem os danos para pedirem recursos.

O governador Renato Casagrande (PSB) anunciou que vai repassar R$ 3.000 às famílias com renda de até três salários mínimos. Às empresas, prometeu a abertura de linhas de financiamento emergencial, o estorno do ICMS e o adiamento dos prazos de dívidas com o BNDES, entre outras medidas. Também foi aberta uma conta para doações às vítimas.

Descalço no meio da rua, o vice-prefeito de Iconha, Mauri Monteiro, é um dos que tenta recuperar seus dois comércios, contabilizando um prejuízo próprio de mais de R$ 1 milhão. Ele estima que quase 100% das 250 empresas na cidade foram atingidas.

"Nós não temos mais diferença de classe. O funcionário tá sem emprego, e o patrão tá com dívida. Eu estou preocupada com o futuro", diz Arlene Bernarde, que tem coordenado a distribuição da alimentação pela igreja da cidade.

Ela já tem a entrega voluntária de mais de 3.000 refeições diárias garantidas até a próxima segunda-feira (27). De tempos em tempos, grupos passam em caminhonetes gritando "marmita!" e entregando garrafas de água mineral pelas ruas. A galocha é item quase obrigatório e já tem alguns modelos esgotados na capital.

O único hospital do município, destruído e com um carro na vertical ainda encravado na entrada, teve os atendimentos transferidos e improvisados no Cras (centro de assistência social), na parte alta.

Além da distribuição de comida, a igreja abriga sete famílias desalojadas. Dessas, três passam pela sua segunda ou terceira tragédia. São refugiados venezuelanos como a balconista Ana Mota, 39, que chegou ao Brasil há um ano com o marido e os três filhos.

"Primeiro deixamos a família na Venezuela, depois vivemos na rua por um mês em Roraima, agora perdemos tudo de novo", diz, chorando. Mas ela não reclama: "Aqui a fila para pegar marmita é de 30 pessoas, na fronteira era de 400 pessoas".

Para quem já vivia em Iconha há décadas, a enxurrada relembrou chuvas que atingiram o estado em 1994. Na ocasião, Marinalva Veridiano, 65, perdeu o filho de 17 anos em uma enchente. "Dessa vez eu achava que ia morrer, só pensava nele. Ajoelhava na lama e dizia: Jefinho, misericórdia de Deus, vem socorrer mamãe.

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