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'Cidade imigrante', São Paulo recebe quase 57 mil bolivianos em 20 anos

Bolívia lidera lista de registros na Polícia Federal, seguida da China, do Haiti e dos Estados Unidos

São Paulo

Na véspera do aniversário de São Paulo, celebra-se em vários bairros um evento que nasceu fora das fronteiras brasileiras, mas que também diz muito sobre a cidade: a festa da Alasita, da comunidade boliviana, dedicada a um deus indígena aimara que representa abundância.

A tradição é comprar miniaturas de casas, carros ou outros bens materiais que a pessoa queira obter ao longo do ano e, ao meio-dia, submetê-las à bênção de um xamã. Na maior das festas organizadas neste ano na capital paulista, esperavam-se 20 mil pessoas. 

Se no início e em meados do século 20 imigrantes de países como Itália, Japão e Portugal vieram em grande número e ajudaram a conformar a identidade de São Paulo, o perfil do estrangeiro que mora aqui foi mudando.

Festa das Alasitas, típica da comunidade boliviana, na praça Cívica Ulysses Guimarães, no Brás, em São Paulo
Festa das Alasitas, típica da comunidade boliviana, na praça Cívica Ulysses Guimarães, no Brás, em São Paulo - Danilo Verpa - 24.jan.2020/Folhapress

Nos últimos 20 anos, os bolivianos têm sido, de longe, a nacionalidade mais comum: quase 57 mil deles se registraram entre 1999 e 2019, segundo um levantamento feito pela Folha com dados da Polícia Federal.

O número corresponde a 20% do total de 281.625 estrangeiros de todas as nacionalidades nesse período e ao dobro do segundo lugar da lista, ocupado pelos chineses, com cerca de 22 mil registros.

Em seguida vêm pessoas do Haiti, Estados Unidos, Peru e Colômbia. França, Japão, Índia e Argentina completam o top 10. 

Afora algumas exceções, é o retrato do que especialistas chamam da transição de uma imigração Norte-Sul (de países do Norte global para os do Sul global, incluindo o Brasil) para Sul-Sul, aponta Tadeu Oliveira, coordenador estatístico do OBMigra (Observatório das Migrações Internacionais), que ajudou na análise dos dados.

O fenômeno é mundial e ocorre, em parte, devido às restrições impostas por países ricos à entrada de estrangeiros. 

O estrangeiro que quer se mudar para o Brasil legalmente precisa ter visto de trabalho —ou seja, um emprego garantido—, de estudo ou religioso (concedido a missionários, por exemplo). Pessoas casadas com brasileiros ou que têm filhos no país também têm direito à residência. 

Uma vez aqui, eles têm 90 dias para se registrar na Polícia Federal e tirar o RNM (registro nacional migratório).

Quem é vítima de perseguição ou vem de países em conflito pode entrar como solicitante de refúgio e viver no país enquanto seu caso é avaliado.

A base utilizada no levantamento da Folha foi o Sismigra (Sistema de Registro Nacional Migratório), da PF, onde são cadastradas as pessoas que tiram o RNM. Os dados de 2019 são até o mês de outubro. Não estão incluídos aí os imigrantes que entram de forma irregular. 

Tampouco os solicitantes de refúgio, que seguem outro processo.  Por isso, ficaram de fora muitos congoleses e venezuelanos —mesmo assim, essa última nacionalidade já é a segunda mais comum nos registros, graças aos que optaram por pedir outro tipo de permanência e que por isso entraram no Sismigra.

Segundo o levantamento, nos últimos 20 anos só em 3 os bolivianos não estiveram no topo da lista das nacionalidades de origem: 2006, quando chineses lideraram por uma pequena margem, e 2015 e 2016, quando um grande número de haitianos chegou ao Brasil, fugindo da degradação de seu país após o terremoto de 2010 e atraídos por autorizações de residência concedidas pelo governo brasileiro.

O fluxo migratório da Bolívia para São Paulo começou nos anos 1950, impulsionado por um acordo de intercâmbio cultural entre os dois países, e era formado principalmente por pessoas da elite.

Na década de 1980, começaram a sair do país trabalhadores menos qualificados, que migraram para o Brasil, mas principalmente para Argentina, Espanha e Estados Unidos. 

Nos anos 2000, com a maior restrição de entrada nos EUA após o 11 de Setembro e as crises na Argentina e na Espanha, o Brasil se tornou um destino mais procurado. 

Muitos conseguiram empregos precários em oficinas de costura. “Era um trabalho que podiam desenvolver sem estar dentro da formalidade e sem saber a língua. Ainda é a principal forma, para a comunidade, de crescer economicamente”, diz o sociólogo boliviano Eduardo Schwartzberg, que pesquisa esse tipo de migração.

Mas houve mudanças, aponta ele, especialmente após 2009, quando milhares se regularizaram em uma anistia do governo brasileiro.

“Eles começaram a abrir suas próprias oficinas. Fala-se muito em trabalho escravo, e ainda acontecem alguns casos, mas agora se multiplicaram os negócios familiares, com poucos funcionários.”

Também houve mobilidade social dentro das famílias e aumentou a integração com os brasileiros, observa o pesquisador.

“Os filhos dos primeiros imigrantes frequentaram a escola aqui, aprenderam bem o idioma e assimilaram mais a cultura daqui. Muitos deles estão na universidade”, afirma. 

Para Schwartzberg, festividades como a da Alasita —tradicional de La Paz, cidade de origem da maioria da comunidade em São Paulo— têm tudo a ver com a experiência da migração.

“A festa simboliza a abundância, a prosperidade. É o que busca o imigrante quando se muda para outro país.”

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