Com aplicativos de transporte, pessoas bebem mais, mas morrem menos no trânsito

Estudos com grandes bases de dados tentam entender impacto da tecnologia

São Paulo

Depois da chegada do Uber, do 99 e do Cabify, as pessoas passaram a consumir mais bebidas alcoólicas em bares, mas o número de acidentes de trânsito e de mortes diminuiu, segundo economistas que se debruçaram sobre dados oficiais para entender o impacto dos apps de transporte na vida das pessoas e nas cidades.

Os pesquisadores dos EUA Jacob Burgdorf e Conor Lennon, da Universidade de Louisville, e Keith Teltser, da Universidade Estadual da Georgia, estudaram os dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Riscos Comportamentais (BRFSS, na sigla em inglês), dos CDC (Centros de Controles de Doenças), que congrega anualmente informações de mais de 400 mil entrevistas com pessoas acima de 18 anos que vivem no país.

A conclusão deles é que essas pessoas, após a chegada do Uber, passaram a beber 3,1% mais drinques por dia, 2,8% mais vezes ao mês e a 4,9% mais drinques por ocasião. 

 

A prevalência de uso excessivo de álcool —definido como consumo em ao menos cinco dias no mês, ao longo de duas horas, de mais de quatro drinques para mulheres e cinco para homens— aumentou em 9%.

Os CDC calculam que cerca de 88 mil mortes acontecem graças ao uso excessivo de álcool todo ano (de cirrose a acidentes de trânsito) no país, o que tornaria perigoso esse impacto dos aplicativos de transportes.

“Serviços de compartilhamento de corridas podem reduzir alguns dos males associados ao álcool, especialmente o de dirigir sob sua influência. No entanto, o consumo de álcool é frequentemente uma atividade social. O advento do compartilhamento de corridas poderia aumentar a quantidade e a frequência do uso de bebidas alcoólicas por usuários e não usuários desses serviços, que  consequentemente, poderiam exacerbar alguns prejuízos ligados à bebida”, escrevem os autores.

Há chances de o resultado espelhar o que se vê no Brasil: uma pesquisa do Datafolha encomendada pelo o Observatório Nacional de Segurança Viária e divulgada em maio de 2019 mostra que 68% dos brasileiros em regiões metropolitanas dizem que deixaram de beber e dirigir para usar aplicativos de transporte. 

Na pesquisa, 45% das pessoas afirmam que consomem álcool pelo menos de vez em quando. Foram entrevistadas 3.531 pessoas, com margem de erro de 2 pontos percentuais.

No caso do estudo americano, ao menos os bartenders saíram ganhando: a chegada da Uber gerou um aumento de 2,4% na empregabilidade e em 2,3% na remuneração. O trabalho foi disponibilizado em novembro do ano passado na plataforma The Social Science Research Network Electronic Paper Collection.

Por outro lado, graças ao Uber e outros apps, o número de acidentes de carro teria caído. É o que mostram estudos como o dos brasileiros Yuri Barreto e Raul Silvera Neto, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), e Luís Carazza, da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco), apresentado em encontro da Sociedade Brasileira de Econometria.

Os pesquisadores usaram dados do Datasus referentes ao período de 2011 a 2016 para investigar o impacto da chegada do Uber às cidades brasileiras. O grande desafio, explica Barreto, é separar o efeito causal da chegada dos apps de tendências temporais já existentes. Para isso, eles exploraram as diferentes datas de entrada do aplicativo nas cidades brasileiras. 

Concluíram que, em comparação com cidades que ainda não tinham o app, houve uma redução de 10,2% na taxa de óbito por acidentes de trânsito, calculada por trimestre.

A média de habitantes das cidades da amostra é de pouco mais de 360 mil. No caso, graças aos apps, 1,5 pessoa deixaria de morrer por trimestre (ou seja, descontada de uma taxa original de 19,8 mortes no período). A taxa de hospitalização por acidentes de trânsito também teria sido reduzida em 17,2% (ou 11%, numa conta mais conservadora; há um pequeno problema na contabilização da hospitalização, já que nem sempre ela se dá na mesma cidade em que o acidente ocorreu).

Os autores consideram, portanto, benéfica a chegada dos apps de transporte para o sistema de saúde brasileiro. Mas além disso, diz Barreto, é importante mostrar que a disponibilização de outros modais de transporte também ajuda. Ele cita o exemplo israelense de redução de 37% de acidentes com motoristas jovens a partir da implementação de linhas noturnas de ônibus em áreas metropolitanas.

“Nós mostramos que, havendo uma alternativa de modal de transporte financeiramente viável (como foi o caso da Uber), as pessoas podem repensar o uso de carros individuais em situações perigosas, como quando consomem bebidas alcoólicas, reduzindo o número de acidentes e fatalidades”, conta o economista.

Em seu relatório de risco, publicado no final de 2019, a Uber afirma, com base em dados americanos, que a chance de um acidente em suas corridas é cerca de metade da média do país. Ao todo, foram 107 mortes no país entre 2017 e 2018. De acordo com as estatísticas, trata-se de uma morte a cada 277,5 milhões de quilômetros percorridos. Das mortes, 21% foram de motoristas, 22%, de usuários do aplicativo e o restante, de terceiros.

Quanto ao aumento no uso de álcool ligado ao uso da plataforma, a Uber argumenta que o estudo americano ainda não passou pela revisão de outros cientistas, o que aumenta a chance de conter vieses e inconsistências. “A pesquisa se restringe a relatar o comportamento simultâneo de variáveis, logo não apresenta evidências inequívocas de causalidade entre o uso de aplicativos de mobilidade e a frequência de consumo autodeclarado de bebida alcoólica”, afirma a empresa em nota.

“Outro aspecto a se considerar é que o consumo de álcool é um fenômeno social complexo, influenciado por diversos fatores. E muitos destes fatores (como crescimento econômico, estrutura e qualidade do transporte público, população etc) também estão relacionados diretamente à presença dos aplicativos de mobilidade em uma determinada cidade ou região”, conclui a nota.

Em nota à reportagem, a Cabify afirma que é uma alternativa segura para o transporte de pessoas maiores de 18 anos que “decidem se locomover para uma confraternização e consumir, ou não, bebidas alcoólicas.” A empresa afirma que não apoia o uso excessivo de álcool e que preza pela segurança de seus serviços.

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