Espaço sob viaduto em SP vira centro cultural e esportivo com atividades gratuitas

Projeto Complexo#9 busca revitalizar área tomada por lixo, moradia irregular e tráfico de drogas no centro

São Paulo

Sob o caos do trânsito paulistano, repousa um novo centro esportivo. Em uma área de 4.700 m2 estão um ringue com arquibancada para 420 espectadores e tatames onde são ensinadas as práticas de muay thai, jiu-jítsu, taekwondo e boxe.

As aulas gratuitas, oferecidas desde outubro de 2019, já atraíram cerca de 200 adolescentes de baixa renda, como o estudante Marcelo Saraiva, 15. “Antes de vir treinar aqui, eu fazia muita besteira. Estou ganhando disciplina e responsabilidade”, afirma.

Alunos de muay thai treinam em área revitalizada do viaduto Júlio de Mesquita Filho, no centro de SP
Alunos de muay thai treinam em área revitalizada do viaduto Júlio de Mesquita Filho, no centro de SP - Adriano Vizoni/Folhapress

No mesmo espaço, um pomar formado por goiabeiras, jabuticabeiras e mangueiras se espalha pelo terreno, que tem ainda horta orgânica e árvores de pau-brasil.

Toda essa estrutura é apenas uma parte do Complexo#9, nome do projeto criado numa área antes degradada embaixo do viaduto Júlio de Mesquita Filho, na Bela Vista (centro de SP), entre a rua Santo Antônio e a avenida Nove de Julho.

O projeto é uma das vitrines da administração do prefeito Bruno Covas (PSDB), que busca ceder à iniciativa privada lugares ociosos debaixo de viadutos e de pontes da cidade para múltiplos usos.

O vaivém dos carros não incomoda quem está embaixo da estrutura de asfalto e concreto. O que se ouve por lá é o grito dos futuros atletas nos treinos e o canto dos pássaros que passaram a visitar o lugar em busca de alimento.

O centro esportivo do viaduto Júlio de Mesquita é administrado pelo tetracampeão de muay thai Moisés Batista Souza, 45, mais conhecido como Gibi, e pelo empresário Klaus Ebone, 53, sócio da boate The Week.

A dupla concorreu com outros projetos e ganhou o direito de administrar o espaço cedido pela prefeitura por três anos —o período vence em 2021 e poderá ser prorrogado até 2024. “Mas já estamos pleiteando autorização para ficar aqui pelos próximos 30 anos”, adianta Ebone.

“A nossa missão é desestigmatizar a imagem de que viaduto é sempre o fim da linha e um espaço onde só tem morador de rua”, diz o empresário.

Dono de uma academia a poucos metros do viaduto há 20 anos, foi Gibi quem viu primeiro o potencial da área. Mas foi preciso tempo para tomar posse dela, diz o ex-atleta. “A gente se deparou com uma grande ocupação de sem-teto. Levou quase um ano para eles saírem daqui.”

Antes de ser invadida, a área contava com uma tenda para atendimentos de saúde aos moradores de rua. O serviço foi encerrado pela prefeitura em 2017.

Abandonada, a área sob o viaduto virou ponto de descarte de entulho e de tráfico de drogas, problemas ainda recorrentes. Além disso, a reportagem da Folha encontrou um desnível de ao menos 10 centímetros em uma das juntas de dilatação do viaduto.

O lugar também ficou marcado por um confronto entre agentes da prefeitura e moradores de rua. Em julho de 2017, uma ação de zeladoria recolheu os barracos e os pertences pessoais das famílias que viviam sob a estrutura.

Em dezembro de 2019, a Justiça condenou a prefeitura a indenizar as pessoas afetadas em R$ 10 mil. A Procuradoria-Geral do Município diz que recorre da decisão.

São os descartes irregulares de lixo o principal desafio para colocar a segunda fase do projeto de pé: a revitalização da praça Álvaro de Camargo Aranha, localizada em frente ao complexo esportivo, também debaixo do viaduto.

Gibi e Ebone querem fazer da praça um espaço para caminhadas, palco de espetáculos de teatro e shows e sede de feiras de economia criativa. Para isso, dizem, terão que cercá-la com grade vazada para conter a presença de entulho. Quando esteve no local, a Folha viu uma cama de casal e um aparelho de TV descartados irregularmente no espaço.

Gibi e Ebone pretendem entregar a praça revitalizada até o dia 25 deste mês, quando serão comemorados os 466 anos da cidade de São Paulo. 

A primeira grande feira na praça está prevista para o dia 9 de fevereiro, sob a batuta de Beto Lago, criador do Mercado Mundo Mix na década de 1990.

“A frequência da feira será mensal, mas queremos uma Benedito Calixto aqui”, diz Lago. A feira de economia criativa será realizada em paralelo a um festival de rock.

“O nosso intuito não é lucrar, mas tornar o espaço autossustentável com o apoio de parceiros. Queremos que o Complexo#9 seja um hub de projetos e eventos”, afirma Ebone.

A Prefeitura de São Paulo disse, em nota, que está autorizada desde o dia 7 de janeiro deste ano a fazer concessões e permissões de uso de áreas situadas sob viadutos, após a promulgação da lei 17.258/2020.

A atual administração estima que, dos 185 viadutos e pontes existentes na cidade de São Paulo, 85 estruturas poderão ser cedidas à iniciativa privada.

A gestão Bruno Covas informou ainda que vai abrir nesta quarta-feira (15) um processo licitatório de permissão de uso dos viadutos da Lapa e da Pompeia.

Sobre o desnível entre as juntas de dilatação no viaduto Júlio de Mesquita Filho verificado pela reportagem, a prefeitura afirmou que a estrutura passou por vistoria visual, que não constatou a necessidade de intervenções emergenciais. "Não há risco para a circulação de veículos."

“No dia 28 de dezembro foram republicadas três licitações para a contratação de laudos estruturais de 55 pontes e viadutos, entre eles o Júlio de Mesquita Filho. Os envelopes serão abertos no dia 27 de fevereiro. O laudo estrutural vai apontar se há intervenções a serem executadas”, diz a prefeitura em nota.

Em relação à presença de lixo descartado irregularmente sob o viaduto, a prefeitura disse que lançou neste mês o programa Revitalizar SP, cujo objetivo é o de "revitalizar espaços públicos deteriorados pelo descarte irregular de lixo e entulho".

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