Lama levou mãe e bebê abraçados e soterrou até bombeiro em Minas

Desabamento foi a causa de 42 das 55 mortes no estado na última semana

Ibirité e Contagem (MG)

O último contato que Samuel teve com Layara foi às 9h51. Às 10h03, a casa em que o casal morava havia três anos foi soterrada com sua esposa, seus dois filhos pequenos e a madrinha deles dentro.

Na mensagem que mandou minutos antes, ele dizia que já estava indo buscar a família para levar a um lugar mais seguro, já que a chuva forte não dava sinais de trégua. Quando chegou, porém, tudo que viu foi escombro.

Pulou na lama e gritou o nome dela, de Anthony (seis meses) e de Richard (seis anos) por uma hora e meia, mas só ouviu silêncio. A estoquista Layara Ferreira Félix, 24, foi achada à tarde coberta pela terra, deitada e abraçada ao bebê.

Os bombeiros levaram mais duas horas e meia para encontrar o filho maior a apenas alguns metros, que devia estar no mesmo cômodo. A madrinha, Lorrayne Duarte, 23, só foi localizada um dia e meio depois. 

Os soterramentos e desabamentos foram as principais causas das mortes pelas chuvas que atingiram Minas Gerais na última semana. Foi assim com 42 das 55 vítimas fatais no estado —as outras se afogaram ou foram levadas pelas enxurradas.

O mesmo destino poderiam ter tido uma outra mãe e sua menina na casa em frente se não fosse o auxiliar de obras Adão Moura, 45. Logo depois que o barranco desabou, ele foi chamado por vizinhos para resgatá-las de uma laje que ameaçava cair.

Pela experiência em construções, sabia o risco que corria ao entrar na água à altura do peito, energizada por um grosso cabo de energia que tombou junto a um poste de luz. Mas foi, mesmo tomando choques.

“Depois não ouvi mais ninguém chamando e pensei: não tem ninguém”, diz. Àquela hora ainda tinha.

O caso aconteceu na última sexta (25), no alto de uma ladeira que até o carro reclama para subir, em Ibirité, a menos de uma hora de Belo Horizonte. Por algum motivo, a água se represou apenas naquele trecho da rua, ainda completamente coberto por escombros e uma lama já dura.

Mesmo com a cidade castigada há quase sete dias e mais de 300 moradores dormindo em uma escola municipal, em Ibirité não se vê cones, operários nem caminhões como os que circulam pelo rico centro-sul de Belo Horizonte nesta quinta (30). O município é tomado por morros com casas de tijolos expostos.

Naquela noite de sexta, os bombeiros ainda estavam tentando achar os corpos da família de Samuel quando mais mensagens começaram a chegar, conta a major Stella Vieira. “Pegou todo mundo, tem bombeiro soterrado”, dizia um áudio.

Parte da equipe saiu de lá e partiu para a cidade vizinha, Contagem, onde Yury Costa de Andrade, 23, morreu sentado na cozinha de casa enquanto tomava uma cerveja com o irmão e os pais depois do trabalho —eles conseguiram correr.

Dois bombeiros já estavam tentando retirar Yury quando um novo barranco de terra caiu. O cabo Ferrão acabou entre duas paredes dos quartos que desabaram, o sargento César rolou no deslizamento e parou apenas com o capacete para fora da lama.

O que o salvou foi ter colocado o braço em frente ao rosto, formando uma bolsa de ar que o permitiu respirar durante as três horas que os colegas levaram para puxá-los dali, descreve o tenente Marcelo Goulart, a quem os dois são subordinados.

“Quando estamos socorrendo outras pessoas, conseguimos não absorver a emoção da família. Mas na hora que é, de certa forma, a nossa família, fica muito difícil separar”, abre-se ele.

Nada foi fácil naquelas cerca de 15 horas de crise pós-chuvas. O batalhão de Contagem, que também atende os municípios de Ibirité, Betim e Barreiro, foi chamado para várias ocorrências simultâneas, todas com vítimas. 

“Os rádios pifavam, os celulares não funcionavam, não tinha a precisão de onde precisava de apoio, não tinha luz, alguns solos estavam energizados. A complexidade era muito grande”, diz a major Stella.

No caso do jovem soterrado na cozinha, outro obstáculo foi a lama encharcada, tanto para a família que tentou salvá-lo nos primeiros minutos como para os bombeiros. Quanto mais eles cavavam, mais lama surgia, fazendo a retirada demorar mais de 12 horas.

O pedreiro Bruno Gomes, 30, também esperou um tempo parecido até que seu pai fosse finalmente puxado dos escombros de sua casa em Ibirité. O que o conforta é que o perito lhe disse que Altamiro, 60, morreu rápido porque uma laje caiu em sua cabeça.

“Meu pai foi pedreiro a vida toda e até saiu a vereador em 2016”, diz ele, agora abrigado na escola municipal. “Não estou querendo mais morar lá, porque quando sair do portão vou sempre lembrar dele. Ele era zueiro demais da conta.”

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