Descrição de chapéu Alalaô

3ª divisão atrai mais público que Sapucaí no RJ

Com verba da prefeitura, escolas fazem desfile gratuito e sem transmissão de TV na avenida Intendente Magalhães

Rio de Janeiro

É com uma cervejinha na mão que o “verdadeiro Carnaval do povo” é feito no Rio de Janeiro.

A frase, do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), combina bem com o clima de improviso que impera na terceira divisão da folia carioca.

“A gente bate escanteio e corre pra cabecear”, resume, entre uma apertada de parafuso e outra, Jatir Costa Júnior, o Tizoca, mototaxista e presidente da Império Ricardense —que neste ano vem com o enredo “De Carlota Joaquina a Bacurau, nosso cinema deu show e virou Carnaval!”.

O cenário onde ele trabalha é um barracão na zona norte onde quase todas as escolas do grupo confeccionam seus carros alegóricos, muitos ainda parecidos com esqueletos de madeira a cinco dias da folia. Num canto, pilhas de isopor e lixo de Carnavais anteriores escondem o chão.

Barracão das escolas da Intendente Magalhães, que receberam esse ano apoio do prefeito do Rio, Marcelo Crivella
Barracão das escolas da Intendente Magalhães, que receberam esse ano apoio do prefeito do Rio, Marcelo Crivella - Zô Guimarães - 17.fev.2020/Folhapress

Os desfiles gratuitos acontecem longe do glamour da Marquês de Sapucaí, na avenida Intendente Magalhães, no bairro de Campinho, mas atraem em quatro dias um público maior que o do sambódromo.

Em 2019, contou-se 350 mil espectadores num evento contra 265 mil no outro.

Neste ano, essas escolas de samba foram as únicas a receber dinheiro público, depois que Crivella resolveu “desmamar o bebê parrudo que é o Carnaval”, nas palavras dele, e deixou de repassar verba às agremiações que desfilam na Sapucaí, com ingresso pago.

Serão R$ 3 milhões, divididos de maneira desigual por 39 escolas. É o triplo do destinado em 2019, mas menos que os R$ 4 milhões dados por seu antecessor, Eduardo Paes (agora no DEM), no último ano do seu mandato.

“Convenci ele [Crivella] de que sem essa grana as escolas iam enrolar a bandeira. Eram dívidas impagáveis, uma realidade completamente diferente do sambódromo”, diz Clayton Ferreira, presidente da Liesb, liga que reúne a maioria dessas agremiações.

Também deram um empurrãozinho políticos simpáticos à causa e o fato de o espetáculo da Intendente Magalhães não ser televisionado pela TV Globo, tratada como inimiga por Crivella desde sua posse.

A verba foi suficiente para pagar boa parte das dívidas com fornecedores acumuladas durante os anos de cortes, mas não para deixar as rifas, feijoadas e bingos de lado. Já teve sorteio de bicicleta, fone de ouvido e até balde de cerveja para ajudar os desfiles.

Na terceira divisão só se paga fiado, e a prova é um caderninho de recibos verdes que Clayton folheia, com cada compra de cada agremiação. Ele diz que bateu na porta de todos os vendedores pessoalmente para prometer que o dinheiro logo virá.

Para alguns não tinha vindo ainda até a última segunda (17). É o caso da Ricardense, escola de Tizoca, que já fez vaquinha online de R$ 1.000 e rifa de jogo de lençol. “A gente tá sempre devendo”, ele brinca. “É apertado mas sai.”

Que sai, sai. “As condições são precárias, mas todo mundo dá seu jeitinho”, diz Caio Araújo, carnavalesco da Unidos da Vila Santa Tereza, agremiação da zona norte carioca que, com cerca de 15 integrantes, embeleza mais de 700 pessoas todo ano para a avenida.

Não é operação simples: o desfile da terceira divisão é praticamente igual ao da Sapucaí, mas em menor escala. Também tem comissão de frente, rainha de bateria, arquibancada, jurados e os mesmos nove quesitos avaliados.

No domingo do feriado, desfilam as 12 escolas do grupo de acesso. Na segunda e na terça, as 20 do grupo especial —quem ganha sobe para a segunda divisão e conquista o direito de pisar no sambódromo na sexta e no sábado de Carnaval do ano seguinte.

A diferença entre os dois espetáculos é mais embaixo. “Já vi de tudo na Intendente. Relógio que travou, alegoria que emperrou, carro de som com problema e até bate-bola [grupos tradicionais no subúrbio carioca que saem às ruas vestidos de palhaço] querendo invadir o desfile”, diz Clayton, que desistiu da escola que presidia por medo de bala perdida —a Império da Praça Seca parou de desfilar em 2017, quando estourou uma guerra do crime organizado pelo controle da região.

Ele concorda com o título de “verdadeiro Carnaval do povo” dado pelo prefeito, e lembra do samba-enredo de 1982 da Império Serrano, que já cantava sobre a Sapucaí: “Superescolas de Samba S.A. / Superalegorias / Escondendo gente bamba / Que covardia”.

Só queria 30% da atenção dada ao “primo rico”, argumentando que essas escolas movimentam a economia de suas comunidades, onde muitas vezes são a única referência de cultura e lazer.

Caio, da Unidos da Vila Santa Tereza, concorda. “Dizem que é maluquice, eu também acho. Mas as pessoas não entendem o amor que a gente sente”, diz, explicando por que trocou um emprego fixo pela festa momesca.

A Prefeitura do Rio disse que já repassou 90% dos R$ 3 milhões às escolas da Intendente e que os outros 10% serão pagos após a prestação de contas. Algumas receberam depois porque demoraram para enviar documentos, segundo a empresa municipal Riotur.

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