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'80% do meu acervo foi atingido pela chuva', diz fotógrafo Bob Wolfenson

Estúdio fica na Vila Leopoldina, em São Paulo, um dos bairros mais afetados pela chuva

São Paulo

Referência em retratos, editoriais de moda e ensaios de nus, o fotógrafo Bob Wolfenson calcula que 80% de seu acervo tenha sido atingido pelo temporal da última segunda (10) em São Paulo. 

Seu estúdio fotográfico fica no térreo de um prédio na Vila Leopoldina, na zona oeste de São Paulo, um dos bairros mais afetados pela chuva

Mas ele está otimista: uma força-tarefa composta por voluntários foi montada, capitaneada pelo IMS (Instituto Moreira Salles), para tentar recuperar o acervo. Usam técnicas de congelamento, para retardar a degradação das imagens, e de lavagem com água. 

Não é a primeira vez que Wolfenson, que já fotografou de Dilma Rousseff a Gisele Bündchen, passa por uma situação do tipo: em maio de 2005, perdeu grande parte do seu acervo após uma enchente. Dessa vez, porém, não precisou escapar de barco do lugar. 

Veja, a seguir, os principais trechos do depoimento de Wolfenson à Folha

Meu estúdio ficou devastado, parecia cenário de pós-guerra. Sofá de cabeça para baixo, livros no chão, lama por tudo quanto é lado. A água alcançou mais de um metro de altura. Lembrou-me as imagens do fotógrafo Robert Polidori feitas em Nova Orleans após o furacão Katrina (que atingiu os EUA em 2005).

Quando entrei no espaço pela primeira vez após o temporal, às 12h de terça (11), uma funcionária já havia limpado um pouco a cena do crime. 

A primeira coisa que fiz foi um inventário mental do que havia perdido. Fui olhando para lá e para cá, rodando em 360 graus, passando o periscópio em tudo. Foi um choque, a sensação era de impotência.

A água atingiu 80% do meu acervo, que inclui fotos da década de 1970 até 2005, quando as imagens passaram a ser digitais. Há retratos, fotos de nus, comerciais. Mas, segundo os voluntários que me ajudam na recuperação do acervo, será possível salvar bastante coisa. 

A recuperação é capitaneada por Sergio Burgi, coordenador de Fotografia do IMS (Instituto Moreira Salles). Ele viu uma publicação minha em uma rede social sobre a enchente e se ofereceu para tratar do meu acervo. Na terça, foram seis voluntários, e nesta quarta (12), quatro. Montamos uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) de acervo. 

Vamos trabalhar até sexta. É o dia todo, chegamos a sair às 3h do estúdio no dia seguinte à chuva. 

Uma parte das imagens vai para dentro de um freezer que comprei, para interromper o processo de deterioração, e é catalogada para eu achar depois quando eu quiser. Não daria para limpar tudo o que foi atingido de uma vez nem que pusesse 200 pessoas para trabalhar. 

Outra parte é lavada com mangueira e água —o que é feito em papel fotográfico antigo não estraga com o líquido, só o que é impresso em tinta.  

Móveis, equipamento de luz, monitores de computador e o fundo infinito do estúdio também foram afetados. 

Calculo que meu prejuízo seja de em torno de R$ 1 milhão. O prejuízo ao acervo será intangível. 

Mexer, arrumar e tentar salvar as coisas dão alento e esperança. Parece papo de autoajuda, mas é verdade. Eu não estou com tempo para melodrama, preciso trabalhar para levantar o estúdio de novo, o que deve demorar uns 15 dias. 

Eu alugo o estúdio para outros fotógrafos e produções de cinema. Uma produtora estava cheia de equipamentos no espaço, perderam muita coisa, não sei como será.

Há 15 anos, em maio de 2005, meu estúdio também encheu após um temporal. Aconteceu cinco meses depois de eu ter mudado para lá. Acumulei muita coisa no espaço porque achei que nunca mais fosse acontecer uma enchente, e aí veio essa nova. 

A diferença é que, daquela vez, não tive a ajuda de ninguém e não sabia de nada, perdi tudo o que foi atingido pela água. Salvei menos do que conseguirei salvar agora. E tive que dormir no mezanino e sair de barco do estúdio. Dessa vez, não estava lá. 

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