Briga por tráfico persiste em Cariacica (ES), cidade-piloto de projeto de Moro

Moradores não veem melhora na segurança e querem mais participação; ações sociais ainda virão

Cariacica (ES)

O sol ainda estava a pino quando Gean Dias, 18, sentiu o tiro atravessar seu calcanhar esquerdo. Ele conversava com uma roda de amigos na frente do portão quando um grupo de traficantes começou a atirar em outro. Até tentou correr, mas não conseguiu escapar.

Casos de bala perdida como o dele, que aconteceu há menos de um mês, continuam frequentes no bairro Graúna, o mais violento de Cariacica (ES). A cerca de meia hora de Vitória, a cidade é uma das cinco “cobaias” do Em Frente, Brasil, programa de combate à violência do ministro da Justiça, Sergio Moro.

Graúna está dentro da área considerada prioritária do projeto-piloto, o que significa que há cinco meses recebe rondas da Força Nacional e ações integradas das polícias. Mesmo assim, os homicídios dispararam de 5 para 13 de setembro a dezembro, em comparação com 2018.

“Esse foi o assassinato da semana passada. Foi criado lá em casa junto com os meninos”, diz Amelinha Pereira, 64, líder comunitária do bairro, ao mostrar fotos de corpos e poças de sangue no celular.

A sensação de que até agora nada mudou com a chegada do programa é geral nas áreas que a reportagem visitou. A piada que circula entre os moradores é que a Força Nacional foi ao Espírito Santo para atuar como guarda de trânsito e ir à praia.

“Mandaram policial de Brasília, de São Paulo, do país todo para vir tomar açaí? Só eu já vi três vezes eles na lojinha”, zomba o também morador Estêvão Meireles, 29.

Além disso, a relação com os policiais nesses locais em geral é tensa. Pipocam relatos de assédio a mulheres e postura agressiva dos agentes, como o caso de um morador que alega ter tido uma nota de R$ 50 rasgada, mas não denunciou. A coordenação estadual do programa disse ter recebido denúncias de situações menos graves envolvendo policiais fora de expediente e acompanhar a situação.

Cariacica é um município médio, com 381 mil habitantes, e um alto índice de homicídios. Registrou uma queda nas mortes neste ano, exaltada por Moro como mérito do programa, mas ela é tímida e já vinha ocorrendo antes.

A cidade teve 48 assassinatos nos primeiros quatro meses do projeto, três a menos do que no mesmo período de 2018. A redução também coincide com a melhora em todo o Espírito Santo por causa do programa Estado Presente, que já previa integrar órgãos e ações sociais de prevenção.

As mortes em Cariacica são causadas sobretudo por brigas entre pequenos grupos pelo comando local do tráfico. 

Quem mora nos bairros mais pobres sabe apontar as bocas de fumo. As gangues que guerreiam por elas são formadas majoritariamente por adolescentes e jovens que cresceram nas comunidades.

Mesmo com a dinâmica do crime sendo pouco complexa, as brigas estão longe de cessar. “Aqui continua tendo tiroteio toda semana. Essa praça era para estar cheia nas férias, mas o povo tem medo de bala perdida”, diz Ézio Luiz da Costa, 52, presidente da associação de moradores do bairro Nova Rosa da Penha.

O pleito principal dessas regiões é por escolas e opções de lazer e esporte, além de equipamentos de saúde e outros serviços básicos —coisa que o Em Frente, Brasil promete levar a partir de março, na segunda fase do programa. 

“Quando não tem isso, os meninos do tráfico ganham”, diz Ailton Pereira, 55, assistente social e líder comunitário em Flexal 2.

Se pudesse dar uma sugestão ao governo, a educadora social Lia de Oliveira, 35, diria para instalar uma espécie de Sesc itinerante bem ali, na beira do campo, onde os adolescentes ficam, ou uma unidade de ensino médio, que o bairro não tem. Mas ela não pôde.

A principal reclamação dos moradores é a falta de participação. Cariacica foi a única das cinco cidades-piloto em que a população se mobilizou a ponto de criar uma comissão para monitorar o programa, formada por representantes da sociedade e vereadores.

“Cobramos várias vezes a cópia do programa, mas o único documento que temos é uma apresentação de powerpoint. Não sabemos quanto custou, não fomos chamados para as oficinas, não sabemos nem quem é o coordenador da segunda fase”, critica a professora Cláudia Gonçalves, membro da comissão, que chama o programa de marketing.

Houve reuniões entre representantes pastas diversas de município, estado e governo federal para decidir um cronograma de ações sociais. Só há uma cadeira para a população.

Até agora, as iniciativas que estão no forno são a Estação 4.0 —contêineres que receberão startups, jogos e impressora 3D para os jovens— e a Casa da Mulher Brasileira, com delegacia da mulher, assistente social, psicólogo, enfermeiro etc. Uma guarda municipal também será criada.

Apesar da reclamação nas ruas de Cariacica, nos gabinetes a avaliação do Em Frente, Brasil é muito positiva.

“Pela primeira vez o governo federal propôs estudar uma metodologia de segurança pública onde a União participe de fato e respeite as características locais. Foi diferente de uma intervenção”, elogia o prefeito Geraldo Luzia Júnior (PPS), o Juninho.

Guilherme Pacífico, subsecretário da Segurança Pública do ES e coordenador estadual do projeto-piloto em Cariacica, ressalta a atuação conjunta das polícias. “Nos reunimos quinzenalmente, acompanhamos dados de inteligência e a mancha criminal e articulamos atividades de segurança. É enriquecedor”, diz.

Para ele, o mérito do programa é dar impulso para as cidades. “É dar um choque de polícia e de ações sociais, para que o município possa sair do leito da UTI e andar com suas próprias pernas”, afirma.

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