Depois de perder filha meia hora após o parto, bióloga faz valer direito de doar leite materno

Até agora, ela já doou ao menos cinco litros de leite para bancos que colhem o alimento; Ministério da Saúde faz apelo por mais doações

São Paulo

Ao perder a filha Elis menos de meia hora após o nascimento, em 16 de janeiro último, a bióloga e professora Natália Mundim Torres, 35, de Uberlândia (MG), tentou doar o seu leite, mas a doação foi recusada.

As funcionárias do banco de leite materno da cidade alegaram que apenas mães amamentando, ou seja, com bebês vivos, estariam aptas.

Inconformada, Natália passou a pesquisar na internet sobre o assunto e encontrou uma reportagem da Folha em que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) dizia que não havia proibição a esse tipo de doação.

A bióloga Natália Mundim Torres, com o marido Luiz Ricardo, e os filhos Beatriz e Fernando, no final da gestação de Elis - Arquivo pessoal

A partir dali, começou uma corrida para fazer valer o seu desejo. Obteve parecer técnico favorável da agência.

“A norma não previu a excepcionalidade de doações de mães que se encontram em luto, mas isso não quer dizer que não estejam aptas à doação. No caso, não há contraindicação absoluta para o recebimento do leite doado.”

Natália também conseguiu apoio do Ministério Público Estadual mineiro, que notificou o banco de leite. O serviço recuou na decisão e passou a aceitar a doação da mãe.

Desde então, a bióloga já ordenhou mais de cinco litros de leite. Cada litro pode alimentar até dez recém-nascidos por dia.

Na quinta-feira passada (20), o Ministério da Saúde fez um apelo para que mães doem leite materno, uma vez que os estoques estão baixos. O mês de janeiro registrou um dos menores índices já registrados, em torno de 10,7 mil litros de leite doados.

Tive a felicidade de amamentar os meus gêmeos, Beatriz e Fernando, de cinco anos de idade, por quase quatro anos. Já naquela época, senti muita vontade de doar o meu leite, mas tudo o que eu produzia era consumido por eles.

Cheguei a doar quando eles tinham pouco mais de dois anos, mas o volume que conseguia ordenhar era muito pequeno. Fui apenas algumas vezes ao banco de leite da cidade onde moro, Uberlândia (MG).

Em maio de 2019, para minha surpresa e alegria, descobri que estava grávida novamente. Mas no início de outubro recebemos o diagnóstico de que o bebê tinha uma síndrome cromossômica extremamente grave (Patau), cujo prognóstico era o pior possível.

Nossa filha, Elis, poderia nem chegar ao final da gestação, e se chegasse, poderia viver por apenas poucas horas ou dias.

Consultamos profissionais de São Paulo especializados em medicina fetal e cirurgia intrauterina, mas o caso dela não era cirúrgico. Não havia o que fazer.

Apesar da imensa dor e sofrimento iniciais, por meio de nossa rede de apoio e busca por fortalecimento espiritual, conseguimos compreender o propósito maior da vinda de Elis, e curtimos cada momento da gestação.

Decidimos que, ao nascer, Elis ficaria comigo e que eu não permitiria que ela fosse entubada. Jamais me perdoaria se minha filha morresse numa UTI. Isso não agregaria em nada no prognóstico e só traria mais sofrimento a nós e a ela.

Elis nasceu no dia 16 de janeiro de 2020, depois de 39 semanas, cheia de dobrinhas e bem bochechuda, pesando quase 3,5 kg. O parto foi natural, com a melhor equipe que poderia existir, de forma muito intensa e respeitosa.

Ela nasceu com um conjunto de sintomas muito graves, coração deslocado, pulmão que não se expandia. São bebês que não levamos para casa, como dizem os médicos.

A bióloga Natália Mundim Torres, grávida de Elis, com os gêmeos Beatriz e Fernando, de cinco anos - Álbum de família

Nossa pequena ficou em meu colo todo o tempo de sua breve vida, menos de 30 minutos, momentos que nunca mais esquecerei. Meu marido, Luiz Ricardo, permaneceu junto conosco, não tirou os olhos dela nem por um segundo.

Sua partida foi serena e leve, não houve desespero nem sofrimento, e sim acolhimento e aceitação.

Momentos depois, meus filhos tiveram a chance de conhecê-la, ajudaram a limpá-la e vesti-la com a roupinha mais bela que havia na mala. Meus pais e minha irmã também estiveram com a Elis em seus braços.

A despedida de seu corpinho não foi fácil e certamente a saudade ainda vai doer por toda a minha vida. Mas tenho consciência de que a sua vinda trouxe cura e transformação.

Cerca de três dias depois do nascimento da Elis, o meu leite desceu, e, de forma natural e óbvia para mim, fui ao banco de leite para doá-lo.

Fui surpreendida com uma negativa das funcionárias, dizendo que havia uma proibição por parte da Anvisa para receberem doações nesses casos de óbito do bebê. Como estava com os peitos muito cheios e doloridos, autorizaram a ordenha do meu leite naquele dia e a coordenadora, que não estava presente no momento, ficou de me retornar depois.

Pesquisei de imediato sobre o tema e encontrei uma reportagem da Folha em que outras mães que haviam perdido os bebês também tinham sido impedidas de doar o leite. Na matéria, a Anvisa dizia que não havia proibição para a doação.

Iniciei então uma mobilização de minha rede de contatos, procurei a Anvisa, enquanto retirava e congelava em casa o meu leite. A coordenadora do banco de leite me ligou explicando que o entendimento da regulamentação é que para ser doadora, a mulher precisa estar com seu bebê internado em UTI ou amamentando e produzindo um excedente, e que dessa forma, eu não me enquadraria como tal.

Além disso, justificou que haveria uma preocupação em relação às condições psicológicas da mulher e risco de desenvolver uma mastite pela estimulação da produção de leite. A Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano também confirmou a negativa em receber minha doação.

Inconformada e sabendo de que outras mulheres enfrentaram situação semelhante, optei por acionar o Ministério Público, que se mostrou bastante sensibilizado com o caso. Logo depois, a Anvisa também enviou um parecer técnico dizendo que não havia veto para a doação.

Em reunião com a coordenadora do banco de leite cerca de uma semana depois, ela disse que aceitariam minha doação, mas que eu teria que fazer as ordenhas no próprio banco de leite, para que pudessem acompanhar de perto as condições das minhas mamas garantindo que não haveria nenhum problema.

Como eu moro longe do banco de leite, pontuei que essa condição não era empática e que dificultaria a doação. Então, combinamos de eu ir uma vez ao dia e ficar ordenhando o leite em casa nos demais horários. Nesse período, já doei quase cinco litros de leite.

Fiquei muito satisfeita e feliz de poder ajudar outros bebês. Toda vez que vou ao banco do leite, me isolo mentalmente e faço uma conexão com a Elis, agradecendo a ela essa possibilidade. É uma energia muito boa.

Já teve uma situação lá no banco de uma mãe perguntar sobre o meu bebê e ter ficado muito constrangida quando falei que minha Elis tinha morrido. Faço questão de deixar claro que eu estou bem, que já sabia do diagnóstico da minha filha desde a gestação e que já amamentei meus gêmeos por quatro anos.

Se a perda da Elis tivesse sido inesperada, se eu não tivesse tido tempo para me preparar para a despedida, talvez não estivesse tão pronta e segura para a doação.

Com essa experiência, ficou claro para mim que existe a necessidade desses casos estarem previstos na regulamentação, para que outras mulheres que tenham o desejo de doar o seu leite não fiquem à mercê de interpretações ou entendimentos equivocados. O Ministério Público fez essa sugestão à Anvisa.

Pessoalmente, passar pelo luto transformando a presença de minha anjinha Elis em um propósito de amor maior tem sido extremamente curador para mim.

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