Descrição de chapéu Alalaô

Todo Carnaval tem seu final feliz

Lourdes estava com a mangueira na mão, apontada para a maçaroca de gente

São Paulo

“Seu bando de vagabundos!”, gritou da varanda Lourdes —com um ó antes do u, por favor. Lourdes estava dentro da sua casa, numa rua que chama Harmonia na Vila Madalena. Uma rua que durante todo fevereiro desonrava seu nome. 

Não havia harmonia nenhuma na enchente de pessoas que invadiam a via, a vila e a vida de Lourdes. Nesse momento, umas 72 pessoas se apertavam contra o portão.

Ilustração mostra pessoas usando fantasias super coloridas
Bruna Barros

Lourdes estava com a mangueira na mão, apontada para a maçaroca de gente que pintava o asfalto de dezenas de cores de pele diferentes. O Carnaval estava a centímetros de invadir sua casa. 

“Vão trabalhar, seus safados!”. O grito dela não era páreo para a voz de Pabllo Vittar: “Eu não espero o Carnaval chegar pra ser vadia /Sou todo dia, sou todo dia.” Lourdes levantou sua arma molenga, apontou para a massa e apertou o gatilho. 

A parede de carne, empanada de glitter e suor, recuou do portão no momento em que o filete de água tocou a massa humana. Lourdes pareceu ter ganho uns centímetros de calçada. Uns centímetros de harmonia. E respirou aliviada.

Mas o espacinho que se abriu foi ocupado em um pulo. Uma menina de peitos de fora começou a dançar na frente do portão. Ela não estava fugindo do jato. Ela estava procurando a água, e sorrindo com a boca aberta a cada vez que a água se desfazia contra o seu peito nu.

“Valeu, vó!”, Lourdes conseguiu ler nos lábios vermelhos e melados da sem-vergonha.

Lourdes sentiu na boca um gosto de prego enferrujado, e engoliu. Enquanto a azia descia, subiu na sua mente a lembrança de quando ela era a foliona. A jovem. Os peitos duros, mas bem guardados, em um Carnaval de salão de um clube de cidade do interior. O gelado do jato de lança-perfume nas costas, a risada que o cérebro dava e o corpo imitava. 

“Vem, vó, vem dançar!”. O berro da jovem de peito de fora venceu a barreira da música (“se é que dá pra chamar isso de música”, diria Lourdes) e chegou ao seus ouvidos. A sem-vergonha estava olhando pra ela, juntando as impressões digitais dos dedões e as unhas dos outros quatro dedos, vergados em um arco. 

Ela estava fazendo um sinal de partes baixas, pra combinar com aquele peito de fora? Lourdes nunca havia visto alguém fazer um coraçãozinho com as mãos.

Quando a foliona estava no meio da frase “Dança com a gen”, foi interrompida por um baque. Era uma fronha de água marrom que caiu de uma vez na sua cabeça. Mas a água não era fluida e clara, como a do esguicho. Era um tolete marrom e denso. 

Lourdes olhou para a varanda do lado e viu um balde virado de cabeça para baixo. E, em cima do balde, havia um homem. Um homem berrando com uma voz castigada por um país de cigarros: “Vão pra Cuba, comunistas!”.

O homem era careca e parecia um buldogue francês, com o rosto precisando ser passado com o ferro na temperatura de brim, a mais alta. 

Ao lado dele, um cachorro magrelo que parecia uma modelo francesa. Era o vizinho velho do 112. Velho porque ele estava lá desde antes de ela se mudar, faz 34 anos. Mas novo em folha porque os dois nunca tinham se visto.

Lourdes só tinha certeza de que alguém ainda morava ao lado da sua casa por causa do som. Só ouvia o som, alto demais, no domingo de manhã. 

Tocando Francisco Alves alto demais. Emendando com Inezita Barroso, alto demais. E pelo cheiro do cachorro. O cheiro de uma coisa viva por fora, mas morta por dentro atravessava as paredes. Mais o fedor de cigarro, um bonsai da poluição de São Paulo. Ela nunca tinha visto o vizinho, mas sempre o tinha odiado.

Devia ser o suco desse cheiro que ele jogou no Carnaval, pelas caras retorcidas da menina de peito de fora. “Seu velho escroto!”, a menina de peito de fora gritou olhando para cima, como se estivesse revoltada com Deus. 

Ao lado, um barbudo tatuado, vestido de bailarina, passava as mãos pelo seu torso, como se fossem giletes que iam barbear a substância pegajosa que descia pelo seu corpo.

E o velho estava rindo. Gargalhando. Mostrava os dentes mais 
do que o cachorro magrelo. 

Lourdes abaixou seu esguicho, virou de costas e sorriu. Os moradores dos números 110 e o 112 da rua Harmonia vão se odiar pelo resto do ano. Mas, durante cinco dias de Carnaval, eles vão odiar o mar de gente que inunda sua rua. Juntos. 

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