Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Um mês após crise da água, Witzel demite presidente da Cedae

Desde janeiro, os fluminenses relatam que o líquido está com gosto e cheiro de terra

Rio de Janeiro

Mais de um mês após o início da crise da água no Rio de Janeiro, o governador Wilson Witzel (PSC) decidiu demitir o presidente da Cedae, companhia estatal responsável pelo tratamento e distribuição em grande parte da região metropolitana.

Witzel informou nesta segunda (10) que, "como representante do acionista controlador da empresa, determinou a imediata demissão de Helio Cabral Moreira do cargo de diretor-presidente e indicou para sucedê-lo o engenheiro Renato Lima do Espírito Santo".

Agentes da Cedae fazem inspeção na Estação de Tratamento de Água Guandu, em Nova Iguaçu
Agentes da Cedae fazem inspeção na Estação de Tratamento de Água Guandu, em Nova Iguaçu - José Lucena/Futura Press/Folhapress

A nota diz também que o governador convocou, em caráter extraordinário, uma reunião do conselho de administração da Cedae para esta terça (11) para tratar da substituição. Hélio Cabral havia sido indicado pelo Pastor Everaldo, presidente do partido do governador, e estava no cargo havia um ano.

Essa é a terceira baixa na companhia por causa da crise, que já havia derrubado o chefe da estação de tratamento Guandu (centro da crise), Júlio César Antunes, e o diretor de saneamento da estatal, Marcos Chimelli. 

Witzel também sofreu duas derrotas na Assembleia Legislativa do RJ na última semana. Primeiro, uma comissão rejeitou sua indicação de Bernardo Pegoraro para uma vaga na Agenersa (agência que regula o saneamento no estado), alegando que ele não tinha a experiência exigida para o cargo.

Depois, deputados de oposição protocolaram um pedido de CPI para investigar a crise da Cedae. A empresa está no programa de privatização do estado e teve ações dadas em garantia pelo empréstimo obtido no período mais duro da crise fiscal do Rio de Janeiro.

CRISE

Desde o início de janeiro, os fluminenses vêm relatando que o líquido está com gosto e cheiro de terra. A causa é uma substância orgânica chamada geosmina, produzida quando há muita alga e bactéria na água, que até agora não deu indícios concretos de malefícios à saúde. O aspecto turvo em alguns casos segue sem explicação.

No dia 22, a empresa começou a empregar um equipamento que usa carvão ativado para retirar a geosmina logo no início do tratamento. Segundo a Cedae, a água já está saindo da estação Guandu sem a substância, mas pode demorar dias para voltar ao normal em casas com reservatórios grandes, por exemplo.No último dia 3, porém, a crise ganhou novos contornos quando a companhia decidiu fechar as comportas e paralisar sua operação por 15 horas porque identificou um grande volume de detergentes na água captada, que abastece 9 milhões dos 13 milhões de moradores da região metropolitana.

A medida causou o desabastecimento de vários pontos e levou a Prefeitura do Rio (e a de Nova Iguaçu) a adiar em um dia o início do ano letivo na rede municipal, porque “muitas” das mais de 1.500 escolas ficaram sem água. Agora, essa situação já está normalizada.

POSSÍVEIS ERROS

Para especialistas ouvidos pela Folha, a crise atual reflete uma mistura de estresse no sistema que abastece a região metropolitana do Rio com erros operacionais e falta de fiscalização. 

Na visão de ex-presidente da Cedae Wagner Victer (2007-2015) e da engenheira química Elizabeth Lima, que passou pelo órgão ambiental do estado (hoje Inea), o problema inicial —o cheiro e gosto de terra na água— foi provocado porque a empresa não cumpriu o protocolo padrão.

Esse protocolo seria fechar as comportas ao perceber a proliferação de algas, mesmo procedimento adotado em relação ao detergente.

A Agenersa confirmou que há suspeitas de que a medida não foi cumprida e disse que abriu um processo regulatório para investigar o problema. Caso seja comprovada falha operacional, a empresa poderá ser multada em até R$ 5 milhões. 

O Inea (Instituto Estadual do Meio Ambiente) e a Polícia Civil também coletaram amostras, mas os resultados das análises ainda levarão tempo. A Cedae abriu ainda duas investigações internas para apurar a presença da geosmina e a turbidez na água.

A companhia diz que não fechar as comportas no início do ano foi uma escolha. “Uma vez que [a geosmina] é uma substância que não oferece risco à saúde, não está em nenhuma portaria, nós ficamos entre a escolha de causar um desabastecimento ou de aplicar tecnologias [para detê-la]”, declarou Pedro Ortolano, chefe da estação Guandu na última terça (4).


Entenda a crise da água no RJ

Primeiras reclamações
Dias após o Revéillon, moradores começam a relatar que a água das suas casas está com gosto, cheiro de terra e/ou barrenta, principalmente nas zonas norte e oeste do Rio

Cedae fala
Em 7 de janeiro, estatal divulga nota dizendo que alterações foram causadas pela geosmina, substância orgânica produzida quando há muita alga e bactéria na água, e que ela não faz mal à saúde

Carvão ativado
Dois dias depois, companhia anuncia a compra de um equipamento que usa carvão ativado para reter a geosmina logo no início do tratamento, utilizado também por estados como SP e RS

Corrida por água mineral
Crise se espalha para toda a cidade e compra de água mineral aumenta nos supermercados; até hoje consumidores encontram prateleiras vazias em alguns pontos de venda

Cedae pede desculpas
Cerca de 10 dias após a crise, em 15 de janeiro, presidente da Cedae vai a público pela primeira vez, se desculpa e afirma que situação será normalizada em breve

Especialistas questionam
No mesmo dia, UFRJ divulga nota técnica dizendo haver uma ameaça real à segurança hídrica da região metropolitana e criticando falta de transparência da Cedae

Impacto na conta
Após questionamentos da Defensoria Pública, órgãos se reúnem para discutir compensação na conta de água pelos transtornos aos consumidores; acordo ainda será redigido

Nova crise
Um mês após o início da crise, na segunda (3), Cedae afirma que identificou detergente na água captada pela estação Guandu e fecha as comportas por 15 horas

Escolas adiam aulas
Prefeitura do Rio adia as aulas em um dia por causa do desabastecimento em "muitas" das 1.500 escolas da rede municipal

Demissão do presidente
Mais de um mês após o início da crise, o governador Wilson Witzel (PSC) anuncia a troca do presidente da Cedae, Hélio Cabral, por Renato Lima do Espírito Santo

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