Descrição de chapéu Folha Mulher

Depoimento: Aos 17, descobri o que era machismo em um relacionamento abusivo

Gostaria de escrever que hoje, aos 37, estou curada, mas não é verdade

São Paulo

Neste Dia da Mulher, eu gostaria de escrever que cresci em uma família com quatro mulheres e um homem e nunca soube o que era machismo. Mas não é verdade. Eu soube aos 17 anos. Nessa idade, comecei a namorar um menino dois anos mais velho.

Em poucos meses esse cara fofo, o menino mais cobiçado do bairro, que tinha um carro legal e era de "boa família", virou o grande trauma que carrego há 20 anos.

Dia após dia, ele ia ficando mais ciumento e possessivo. Eu tinha que fazer o que ele queria, na hora em que ele queria. Se eu me atrasasse, não atendesse a uma ligação, era porque estava fazendo algo de errado. E a briga seria longa.

A desconfiança passou logo para as ofensas. A agressão demorou um pouco mais. A agressão física, claro, porque a psicológica já estava instaurada havia muito tempo. Mas eu tinha 17 anos e estávamos no ano 2000. Não havia rede social, as meninas não debatiam feminismo. E eu tinha muita vergonha.

"Piranha. Você acha que alguém vai querer namorar com você depois de mim? Homem não gosta de mulher usada, não."

Eu não tinha com quem falar sobre isso. Ele me afastou de todas as amigas porque, afinal, eram todas piranhas.

Não lembro exatamente a primeira vez que ele me agrediu fisicamente. Não sei se foi antes de me trancar no quarto dele, num dia que não tinha ninguém da família dele em casa, e sair para encontrar os amigos dele.

E também não lembro se quando ele me obrigou a fazer sexo com ele, segurando meus braços, foi antes ou depois de ele me empurrar em um posto de gasolina, quando passamos o Réveillon na casa de um tio dele na praia.

Por que eu ainda não tinha terminado com ele? Medo. Mas, acima de tudo, eu era dependente dele. Afinal, quem ia querer namorar comigo depois dele? Eu era todas aquelas coisas horríveis que ele me dizia.

Um dia, uma amiga me ligou dizendo que viu ele saindo com uma menina que estudava na faculdade dela. Aquilo foi minha libertação. Não faz sentido, pensando agora, mas quando liguei para ele o acusando de me trair, ele ficou muito preocupado. Disse que era mentira da minha amiga, que ela era, adivinha o quê?, uma piranha. Começou a chorar.

No dia seguinte, ele foi até minha casa. Minha mãe foi até a porta e voltou para o meu quarto. "Sílvia, vai atender o menino, coitado. Ele trouxe uma boneca de pano linda para você [eu tinha uma coleção de bonecas de pano], está com cara de quem chorou muito."

Minha mãe não fazia ideia do que eu tinha passado. Mas eu não fui até a porta. Eu não voltei com ele.

Muita coisa aconteceu depois disso. Um dia, ele me viu no carro de um amigo. Ele estava de carro também e começou a bater na traseira da gente. Meu amigo entrou por umas ruas, correndo muito, até que o despistamos.

Nesse dia eu resolvi fazer um boletim de ocorrência. Fui na delegacia com meu pai. Meu ex-namorado recebeu uma notificação na casa dele. Com o tempo, foi parando de me perseguir.

Neste Dia da Mulher, eu gostaria de escrever que hoje, aos 37 anos, estou curada. Que falar sobre isso não faz mais meu coração disparar e minhas mãos tremerem. Mas não é verdade. Esse tipo de trauma não passa. Tenho certeza que, de certa forma, esse namoro afetou todos os meus outros relacionamentos amorosos.

Queria escrever também que nunca mais passei por isso. Mas também não é verdade.

Há algumas semanas, fui encontrar um amigo com que já tive um relacionamento. Apesar de o fim ter sido turbulento, mantivemos a amizade.

Ele dizia que estava com depressão. Me mandou uma mensagem dizendo que estava pensando em desistir da carreira, que sempre foi algo muito importante para ele.

Eu perdi um tio por suicídio. Quando alguém fala a palavra desistir perto de mim, isso desperta um gatilho. Eu tenho que ajudar a pessoa.

À noite, depois do trabalho, fui à casa dele. No meio da conversa, ele entendeu que eu tinha conversado com uma garota com quem ele tinha ficado. Mas eu nunca tinha conversado com ela sobre ele.

A mesma expressão de transtornado que vi no rosto do meu ex-namorado, há 20 anos, via no meu amigo. Ele disse que eu só sairia da casa dele depois de contar o que e quando tínhamos conversado. Mas não havia o que falar.

Ele pegou meu celular para eu não sair de lá. Eu tremia, tanto quanto estou tremendo agora enquanto escrevo, e repetia que eu não tinha o falar.

Deu um soco na mesa. Eu entendi muito bem que o próximo movimento daquela mão seria sobre mim.

Aos 17 anos, aprendi a sempre pensar em uma rota de fuga. Saí correndo pelas escadas.

Lá embaixo, pedi para o porteiro interfonar para ele. "Fala pra ele pôr meu celular no elevador e apertar o térreo ou jogar pela janela, moço, eu só quero ir embora. Preciso do celular para pedir o Uber." Eram 2h de uma quinta-feira.

"Ele te bateu?" "Não, moço, mas ele deu um soco na mesa." "Acho melhor você não subir lá."

O porteiro ligou diversas vezes, sem sucesso, até que decidi que chamaria a polícia.

Ele desceu, devolveu o celular e saí do prédio. Enquanto eu pedia o Uber, ele ainda insistia que eu tinha que contar a tal história. Depois de chegar em casa, demorei muito para me acalmar e conseguir dormir.

Ao contrário do playboy que namorei há 20 anos, esse é um cara que vota em candidatos da esquerda e se posiciona contra o racismo e o machismo. Neste Dia da Mulher, deve ter compartilhado algo sobre o 8 de março nas redes sociais. ​Feliz Dia Internacional da Mulher.

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