Descrição de chapéu Obituário Leda Ulson Mattos (1925 - 2020)

Mortes: A cientista pioneira que gostava de ler

Leda Ulson Mattos tinha paixão por livros, que enchiam um andar inteiro da casa onde viveu por mais de 30 anos, no bairro de Perdizes

São Paulo

Leda Ulson Mattos era um exemplo típico do caldeirão de povos do Brasil: descendente de suecos, suíços e portugueses, quando criança brincava na rua General Jardim, em São Paulo, com o menino negro apelidado Peru, o melhor amigo. Há várias menções a ele no álbum Memórias de Uma Avó, que preencheu
a pedido da filha, Claudia.

Pertenceu a uma família avançada para a época. As três filhas de Olga e José Câmara Mattos —Cecília, Leda e Marília— foram à universidade, algo incomum para mulheres na década de 1940.

As duas primeiras se tornaram pesquisadoras na USP, respectivamente em microbiologia e química, carreiras nas quais as mulheres eram minoria. A mais nova, Marília, estudou Letras e foi por muitos anos diretora do ensino fundamental no Colégio Santa Cruz.

Leda Ulson Mattos (1925-2020)
Leda Ulson Mattos (1925-2020) - Arquivo pessoal

Os estudos de piano não foram para a frente porque não conseguia distinguir dó de ré, como escreveu. Não era de cozinhar, tampouco.

Sua paixão eram os livros, que enchiam um andar inteiro da casa onde viveu por mais de 30 anos no bairro de Perdizes. Em particular os de detetives, uma predileção que para ela se relacionava com a investigação científica.

Gostar de viajar e ser independente a levou cedo para o exterior. Aos 26 anos, formada em química e trabalhando no Instituto Butantan, ganhou uma bolsa do governo americano para estudar nutrição na Universidade de Maryland.

Orgulhava-se por ter sido a única estrangeira entre os 28 alunos que, em 1952, só tiveram notas A em todas as disciplinas.

De volta ao Brasil, o gosto pela fotografia a aproximou de um imigrante alemão, Manfred Hans Kober, com quem se casou. Alguns anos depois se separaram, e ela criou e sustentou sozinha os filhos Claudia, psicóloga, e Ditmar, engenheiro.

Fazia pesquisa sobre o teor nutritivo de variedades de milho num laboratório da Escola de Enfermagem da USP que ela montou e hoje leva o seu nome. Foi uma das primeiras mulheres a se tornar professora titular. Dirigiu a escola, mesmo não sendo enfermeira, e saiu aplaudida de pé do cargo quando se aposentou, em 1986.

Dedicou-se, a partir daí, a novas paixões: os quatro netos e DVDs. Anotava de modo meticuloso os filmes e séries a que assistia, numerando-os num caderno.

Continuou a devorar livros, mas num Kindle. Mesmo com idade já avançada, achava que tinha que dominar novas tecnologias, pois nunca se satisfez com a ideia de que não poderia fazer alguma coisa.
Conhecida pelo bom humor e por tiradas afiadas, quase nunca se queixava da vida.

Foi querida por todos com quem conviveu, parentes, amigos, alunos e empregados. Assim deixou a vida, aos 95 anos, na quinta-feira (19), após uma pneumonia.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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