Descrição de chapéu Coronavírus

Vídeochamada na quarentena vai de bronca na mãe idosa a bar a distância com cerveja e petisco

Explode número de chamadas de vídeo em países afetados por coronavírus; ferramenta ajuda aplacar solidão no isolamento

São Paulo

Quando o estudante de matemática João Pedro Guedes, 21, soube que tinha passado em um estágio na área, não imaginava que a primeira semana seria bem longe dos novos colegas. É que o processo seletivo foi antes de o mundo ver decretada a pandemia de coronavírus e de os casos explodirem no Brasil.

Suas funções e chefia foram apresentadas por vídeochamada. As reuniões semanais do grupo de pesquisa da faculdade e as conversas com a amiga na Holanda também passaram a ser feitas assim.

"Foi minha primeira vídeochamada desde o fim do MSN", conta João sobre a plataforma de mensagens instantâneas que perdeu mercado há mais de uma década. E ele não está só.

Nos países afetados pelo vírus, o total de mensagens por aplicativo aumentou 50% no último mês e as chamadas de voz e vídeo mais que dobraram no Messenger, do Facebook, e no WhatsApp, segundo dados da própria companhia.

Ainda não há números específicos do Brasil, mas na Itália, atual epicentro da crise e onde as pessoas estão em quarentena, o tempo gasto no Facebook e no WhatsApp aumentou 70%. As visualizações de Lives —vídeos ao vivo do Instagram e Facebook— dobraram em uma semana. Já as vídeochamadas em grupo, com três ou mais participantes, cresceram 1.000% no último mês.

Usuárias experimentam videochamada do Facebook (08/07/2011) - Marcelo Justo/Folhapress

E essas não são as únicas opções para chamadas do tipo: há o Google Hangouts, o Zoom e o Skype, por exemplo.

A sanitarista Luana Candido, 28, nunca tinha usado o recurso. Mas agora liga a câmera toda quarta-feira, dia em que encontrava o grupo de amigos para quebrar a rotina de trabalho. "Tem sido difícil a quarentena, mas esses encontros virtuais ajudam", conta.

Quem também mantém o bar, só que em casa, é o advogado Thiago Nascimento, 29. "Até fiz porção de calabresa ontem em casa para tomar cerveja enquanto falava com o pessoal", conta.

É a sua forma de amenizar o isolamento. "Tem me ajudado bastante na saúde mental. Manter contato, ver o rosto das pessoas, traz um pouco de normalidade. Estou há dias sem abraçar ninguém, nem um cachorro. Aí supre um pouquinho."

Na hora do almoço, Thiago encontra os colegas em frente ao computador ou celular, cada um com seu prato. É ainda o jeito de matar a saudade da crush —a última chamada de vídeo dos dois durou 1h30.

"O coronavírus atrapalhou meu romance", diz ele, que, na quarta-feira (25), conseguiu escapar. "Até agora, não fiz nenhuma chamada."

Em duas semana, a carioca Isadora Barros, 29, já comemorou dois aniversários online —da mãe e de um amigo. "Cantamos parabéns, não tão sincronizado, mas foi divertido. Fico imaginando se a gente tivesse vivendo isso há 15 anos, quando só tinha celular com jogo da cobrinha", diz.

Dona de uma empresa de comunição, ela está mudando a rotina para que todos os funcionários fiquem em casa. No início da semana, a reunião via chamada de vídeo começa com todo mundo contando como está se sentindo nesses dias trancados. "Uma cliente chegou a pedir 'você se importa da gente não desligar? Queria ficar aqui trabalhando e vendo o rosto de vocês às vezes'", conta.

A chamada de vídeo tem substituído a presença física até em trabalhos acadêmicos. A atriz Juliana Albuquerque, 30, soube de última hora que não iria mais para Goiânia apresentar sua dissertação. Os professores da banca, parte do grupo de risco para a Covid-19, decidiram fazer a avaliação a distância.

"Fiquei muito mais nervosa do que na qualificação, até chorei antes. Presencialmente tem o orientador ali, uma amiga. No vídeo, parecia que eu estava sozinha total", conta ela, que vive com três gatos em São Paulo. Em uma semana de confinamento, já tinha feito três chamadas do tipo.

"Cheguei a ficar 40 minutos falando, o que pra mim é um recorde."

Virou alternativa de trabalho também. O professor de musicalização infantil e de contrabaixo Junior Azevedo, 37, nunca tinha usado o Skype. "É estranho o fato de não poder auxiliar o aluno fisicamente, ajeitando seus dedos para mostrar a posição correta. Na primeira aula toquei na tela do notebook tentando apontar", conta.

O que não muda é o bom-humor. "Tenho personagens que trago às aulas para tornar lúdico, faço contação de histórias. Estando em casa, conseguirei melhorar o figurino", diz Junior.

Habitué das chamadas de vídeo, o diretor de arte Paulo Toledo, 32, que trabalha há um ano em home office, agora usa a ferramenta para falar com a mãe, que é idosa e mora sozinha em Guarulhos, e com a irmã, que vive na Califórnia —um dos estados mais afetados pela Covid-19 nos EUA.

"Falamos por vídeo a cada dois ou três dias pra minha mãe não se sentir tão sozinha. Tive que ensinar ela a usar e até agora é difícil, mas rola", conta ele que também é tatuador e fechou totalmente a agenda.

A preocupação dos irmãos é porque a matriarca de 63 anos, está no grupo de risco para a nova doença não só pela idade, mas pela imunidade baixa devido ao transplante de um rim e as regulares hemodiálises. "Outro dia minha irmã pegou a bicicleta e foi dar uma volta. Não aguentava mais ficar em casa. Mas aí um cobra o outro de ficar isolado. Nos protegemos a distância."

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