Descrição de chapéu Coronavírus

Carpinteiro de obra na Vila Madalena morre com coronavírus; quatro estão afastados

Empreendimento de alto padrão diz que oferece equipamentos de proteção e lamenta a morte

São Paulo

Gilmar Barbosa, 44, estava com uma forte gripe, mas continuou indo ao trabalho. Era carpinteiro na construção de um edifício na Vila Madalena e, como muitos na profissão, recebia por produtividade e precisava da renda para sustentar a família.

Depois de duas semanas, ele precisou sair do trabalho e ir para casa porque não tinha condições de realizar suas tarefas, contam familiares.

Sua esposa, Neide, o levou para o hospital do M’Boi Mirim. Foi atendido e retornou para casa. Três dias depois, voltou ao hospital e foi internado. Ele morreu na quinta (23), após ser diagnosticado com coronavírus e ter pneumonia em função de complicações da Covid-19.

Ele era saudável e não tinha doenças crônicas associadas até onde sabem. Precisou ser intubado na UTI, sem contato com familiares. As conversas com os médicos eram feitas por telefone.

Desde que a quarentena começou, os cerca de 200 trabalhadores envolvidos na construção do Altto Vila Madalena têm sua temperatura testada. Atualmente, quatro estão afastados —no período todo, o número sobe para sete.

Os funcionários afirmam que a responsável pelo empreendimento, a Even, ofereceu equipamento de proteção individual e disponibilizou pias e lavatórios para higienização. A construção civil foi enquadrada como serviço essencial no estado de São Paulo.

Gilmar ia para o local de carro e não havia registrado temperatura alta antes de ser afastado. Deixou de comer as marmitas que levava, o que, segundo pessoas próximas, pode indicar que seu paladar estava alterado.

“Ele nunca tinha estado num hospital. Quando esteve, não voltou mais”, disse Neide. Segundo ela, os chefes sempre foram bons empregadores. O casal vivia em uma casa próxima à Ponte do Capela, com o filho Lucas, 12, e a filha Luana, 2.

Em nota, a empreiteira, que administra o prédio com a Constata Construções, lamentou a morte de Gilmar e disse que ele foi afastado de suas atividades no dia 7 de abril. A empresa acompanhou seu estado de saúde e disse que, em luto, paralisou as obras na sexta (24). A reportagem não conseguiu contato com a Constata. ​

“Em nossas obras, disponibilizamos lavatórios e saboneteiras complementares e pontos de álcool em gel em diversos locais, liberamos as pessoas dos grupos de risco, adotamos a medição de temperatura de 100% dos profissionais na entrada, distribuímos e exigimos o uso máscaras de proteção, reforçamos a limpeza, sanitização e desinfecção dos espaços e equipamentos e mais uma série de ações complementares, como sistema de turnos nos refeitórios e vestiários, programação do expediente em diferentes horários, restrições a aglomerações, fornecimento de cestas básicas para 100% dos colaboradores, próprios e terceiros”, disse a Even.

Perguntas e respostas sobre o coronavírus

  • Como abordar o tema coronavírus no ambiente de trabalho?

    Cartilhas com recomendações sobre prevenção podem ser enviadas aos funcionários. É importante reavaliar a necessidade de viagens internacionais

  • A empresa pode afastar o funcionário?

    Se ele voltou de viagem de uma das regiões consideradas de risco, a empresa pode obrigá-lo a trabalhar em casa por 14 dias. Se o empregado apresentar sintomas, o afastamento cabe ao serviço médico

  • A empresa pode exigir exames médicos?

    A medição de temperatura é considerada controversa e pode ser questionada na Justiça. O mais recomendado é o encaminhamento ao serviço médico. Já o pedido de exame de sangue deve ser descartado

  • A empresa deve pagar pelo período de afastamento?

    Sim, as licenças por suspeita de coronavírus são consideradas faltas justificadas. Ao ser afastado pelo serviço médico, a empresa arca com os 15 primeiros dias de falta

  • O que acontece quando a ausência exceder 15 dias?

    O funcionário deve agendar perícia médica no INSS para ter direito ao auxílio-doença

“Embora a empresa tenha realizado todos os procedimentos de segurança dentro do ambiente de trabalho, infelizmente nosso companheiro não pôde evitar sua contaminação”, disse o Sindicato da Construção Civil de São Paulo (Sintracon-SP).

Segundo a entidade, a empreendedora se comprometeu a realizar exames de coronavírus em todos os funcionários sob supervisão sindical.

Gilmar, 44, carpinteiro que morreu após contrair coronavírus
Gilmar, 44, carpinteiro que morreu após contrair coronavírus - Arquivo Pessoal

Segundo os moradores da região, a obra já dura cerca de dois anos, mas parece estar na etapa final. Eles ainda afirmam que é comum ver aglomeração de trabalhadores nos arredores da obra.

Na internet, a responsável pelo empreendimento divulga que ele terá três piscinas, quadra de tênis, sala de jogos, festas e brinquedos, academia e churrasqueira gourmet. Serão dois apartamentos por andar, de 275 m² a 437 m², com de quatro a seis vagas na garagem para cada e quatro dormitórios.

Imagem ilustrativa do empreendimento Altto Vila Madalena, em São Paulo
Imagem ilustrativa do empreendimento Altto Vila Madalena, em São Paulo - Reprodução

A construção civil foi categorizada como serviço essencial e não parou durante a quarentena em São Paulo. À Folha trabalhadores dessa e de outras áreas já declararam que temem pela saúde.

O estado é o epicentro da pandemia no Brasil, até esta sexta (24), 17.826 casos da doença e 1.512 óbitos —7 mortes por hora no último dia. Mesmo assim, planeja o encerramento do isolamento social e a volta às aulas.

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